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Mario Vargas Llosa ganha o Nobel de Literatura

O escritor peruano, também colunista do 'Estado', conquista o prêmio máximo da literatura mundial

Teresa Ribeiro, estadão.com.br

07 de outubro de 2010 | 08h03

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 74 anos, é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010, conforme anúncio feito na manhã desta quinta, 7, pela Academia Sueca. Vargas Llosa, que é colunista do Estado desde 1996, falou recentemente sobre literatura e política em entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh sobre o livro 'Sabres & Utopias - Visões da América Latina', uma seleção de ensaios do autor organizados pelo colombiano Carlos Granés, que chegou nesta semana às livrarias brasileiras.

 

Vargas Llosa tem viagem marcada para o Brasil na próxima semana, quando deve fazer uma palestra em Porto Alegre, na série Fronteiras do Pensamento. A editora Objetiva, que publica suas obras pelo selo Alfaguara, está traduzindo seu último romance, O Sonho do Celta (que deve sair em novembro em língua espanhola, publicado pelo Grupo Santillana), e já tem mais seis títulos contratados como relançamento e ainda um juvenil, inédito no Brasil, conforme informou o editor Roberto Feith ao enviado especial do Estado à Feira de Frankfurt, Ubiratan Brasil.

 

O comitê informou em um comunicado que Vargas Llosa recebeu o prêmio "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota do indivíduo".

 

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Nascido em Arequipa, no Peru, em 28 de março de 1936, é autor de uma vasta obra que inclui romances, peças teatrais, ensaios literários e políticos. Chegou a lançar sua candidatura à presidência de seu país em 1988, por uma coligação de partidos, a Frente Democrática (Fredemo) para o pleito de 1990, quando Alberto Fujimori foi eleito presidente do Peru. Depois disso, abandonou suas ambições políticas.

 

Ganhou a literatura, com obras como A Guerra do Fim do Mundo, um romance sobre Canudos, Conversas na Catedral, Tia Júlia e o Escrevinhador, Elogio à Madrasta, Pantaleão e as Visitadoras, entre seus mais de 30 romances, peças e ensaios.  O escritor recebeu prêmios literários importantíssimos como o Cervantes de 1995, o Príncipe de Astúrias em 1986, entre muitos outros, além de ser membro da Real Academia Espanhola. É um dos grandes nomes do chamado boom latino-americano com  realismo mágico da literatura surgido nos anos 1960, ao lado do colombiano Gabriel García Márquez, o argentino Julio Cortázar e os mexicano Carlos Fuentes e Juan Rulfo.

 

Atualmente vive em Nova York, onde inicia o ano letivo na Universidade de Princeton,  como professor-convidado de dois cursos: um sobre técnicas do romance, outro sobre Jorge Luis Borges, escritor por quem nutre uma "paixão secreta e pecaminosa", como disse Vargas Llosa ao Estado.

 

O presidente do júri Peter Englund anuncia o vencedor do Nobel 2010. EFE/AndersWiklund

 

Em uma primeira declaração, transmitida pelo presidente do júri do Nobel de Literatura, Peter Englund, Vargas Llosa disse sentir-se "muito comovido e entusiasmado" pelo prêmio."Ele havia levantado às 5h para dar aulas. Recebeu a ligação informando às 6h45min, enquanto trabalhava intensamente", contou Englund, confirmando que o escritor irá à cerimônia de entrega do prêmio em 10 de dezembro, em Estocolmo, que vem acompanhado de uma quantia de US$ 1,6 milhão.

 

Traços biográficos - Vargas Llosa cresceu com seus avós na Bolívia, depois do divórcio de seus pais, segundo informou a Academia. Com a reconciliação dos pais, a família se mudou para Lima, no Peru em 1947, onde ele fez o serviço militar antes de estudar Literatura e Direito em Lima e Madri.

 

 Casou-se pela primeira vez com sua tia Julia Urquidi, dez anos mais velha do que ele, em 1955. Separaram-se em 1964 e ela morreu em março deste ano, aos 84 anos. Ela inspirou seu livro Tia Julia e o Escrevinhador, de 1977, e escreveu em resposta Lo Que Varguitas no Dijo, publicado em 1983. Casou-se pela segunda vez, em 1965, com sua prima Patricia Llosa, com quem teve três filhos, Álvaro, Gonzalo e Morgana.

 

Nos anos 60, foi morar em Paris, onde trabalhou como professor e jornalista da agência France Press e para a televisão francesa. Vivia à época, entre Paris e Madri. Lecionou em universidades dos Estados Unidos, América do Sul e Europa. No final dos anos 60 decidiu viver em Londres, onde lecionou literatura até 1974, quando se mudou novamente para Lima. Tem dupla cidadania, espanhola e peruana.

 

Sua tese de doutorado na Universidade de Madri teve como título García Márquez: Historia de Un Deicidio. Curiosamente, Vargas Llosa e García Márquez que foram grandes amigos no passado, tornaram-se inimigos depois de um nebuloso episódio no qual Llosa deu um soco na cara de Márquez, que o derrubou no chão. Tudo aconteceu durante o lançamento do filme Odisseia dos Andes na Cidade do México, em 1976, quando Llosa teria reclamado do tratamento dado pelo amigo à sua mulher Patrícia, em Barcelona. O episódio nunca foi esclarecido pelos escritores que agora são, ambos, Prêmio Nobel.

 

Obra eclética -  Um dos livros mais importantes de Vargas Llosa é A Guerra do Fim do Mundo. Trata-se de um romance sobre a Guerra de Canudos que o autor foi movido a escrever depois de ler Os Sertões de Euclides da Cunha. Resultado também de viagens ao sertão baiano e pesquisas em arquivos históricos, Llosa conseguiu realizar um romance, que aborda o fanatismo religioso e as questões políticas de uma obscura tragédia brasileira, arquitetando um texto de amplitude universal.

 

Talvez seus livros mais famosos sejam Tia Julia e o Escrevinhador e Pantaleão e as Visitadoras. No primeiro, traços autobiográficos invadem a ficção, já que o escritor fala de um jovem que queria ser escritor e se apaixona pela tia com o dobro de sua idade. Na vida real, Llosa foi casado com sua tia Julia Urquidi, dez anos mais velha do que ele. Entremeada a essa história de amor corre, num emaranhado ficcional, a história do rádio e das radionovelas, que dominavam a vida cultural dos anos 50.

 

Já com Pantaleão e as Visitadoras, o escritor leva o leitor às gargalhadas com a missão secreta e inusitada que um capitão do exército recebe de seus superiores: montar um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peru, na Amazônia peruana. Distante dos colegas e escondido da mulher e da mãe,  realiza sua tarefa que toma proporções incontroláveis, além de se envolver com uma das visitadoras. O livro dos anos 70 foi levado ao cinema com produção e direção peruana de Francisco J. Lombardi, em 2000 - que também adaptou para o cinema o livro A Cidade e os Cachorros. No Festival de Gramado de 2000, Pantaleão ganhou os Kikitos de melhor filme, diretor, montagem, roteiro, ator para Salvador del Solar, além de melhor filme latino da crítica e do júri popular.

 

Mas há um livro muito menos incensado de Vargas Llosa, mas igualmente admirável: Elogio à Madrasta. Com um texto pequeno e uma delicadeza ímpar, Vargas Llosa esmiúça essa relação nebulosa e proibida entre enteado e madrasta, usando elegantemente e com extrema suavidade as técnicas da narrativa erótica. Mas a beleza da arquitetura de suas palavras não está no erotismo em si, mas na sutileza com que transforma o relato em um superlativo elogio erótico.

 

 

Leia a entrevista ao 'Sabático':

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