Mario Prata está de volta aos palcos

Depois de quase 20 anos de silêncio teatral, Mario Prata volta aos palcos com a peça Eu Falo o Que Elas Querem Ouvir, que estréia nesta sexta-feira no Teatro Imprensa, sob direção de Roberto Lage, com Paulo Gorgulho, Ângelo Paes Leme, Javert Monteiro e Maria Clara Fernandes no elenco.A trama tem como ponto de partida um inusitado seqüestro. Dagoberto Pereira Barreto, um deputado federal do Tocantins (Monteiro), político autoritário e corrupto, leva para o seu apartamento, sob a mira do revólver, o diretor teatral Camilo Filho (Gorgulho), um sujeito talentoso, porém em dificuldades financeiras. No apartamento, está escondido Mario Alberto (Paes Leme), o irmão do deputado, denunciado pelo estupro e morte de 11 mulheres.O deputado faz então a proposta que pode mudar a vida de Camilo. O pagamento de todas as suas dívidas e mais uma quantia razoável em dinheiro para que ele use o seu talento como diretor e "ensine" o estuprador a agir como um louco. "Desses que você olha na televisão e diz: esse cara é doido", enfatiza o deputado. Afinal, seu irmão está longe de parecer um louco. Pelo contrário, a exemplo de muitos outros maníacos sexuais, ele não agarra as mulheres à força, porém as seduz, dizendo "o que elas querem ouvir".Com esse estratagema, o foragido poderá apresentar-se à polícia e dar aos advogados a possibilidade de alegar insanidade mental. Nem a carreira política do irmão irá por água abaixo e nem mesmo o estuprador sofrerá com a punição. "Uma vez no manicômio, depois eu tenho um jeito lá em Brasília para tirar ele de lá", argumenta Dagoberto. A partir daí, Mario Prata surpreende o espectador com os desdobramentos dessa história.A inspiração para o ponto de partida teria vindo do recente caso do maníaco do parque (o motoboy que levava as mulheres para o Parque do Estado, promentendo fotografá-las e transformá-las em estrelas)? "Na verdade, eu estava em Florianópolis quando me chamou a atenção um outro estuprador, do Paraná, acho que se chamava o maníaco da praia", lembra. "Quando foi preso, ele alegou que era louco e eu fiquei imaginando como ele se preparou para convencer as pessoas. Parti ainda da observação de que todos os serial killers matam mulheres com tipos físicos semelhantes - no fundo, cada um deles mata sempre a mesma mulher - e todos sabem como seduzir ou atrair essas mulheres. A realidade termina aí. Com esse material eu construí minha ficção."E com a ficção de Prata nas mãos, Lage construiu sua encenação. Vale lembrar que ele foi também o diretor das últimas peças escritas por Prata: Besame Mucho (1982), um dos maiores sucessos na carreira do dramaturgo, e Purgatório (1984). "Gosto dele porque ele não inventa, não coloca fumacinha no palco. Mas, ainda assim, sempre me surpreende, trazendo para a cena coisas que eu mesmo não tinha percebido, mas estavam lá, no texto. É uma delícia quando isso acontece."Lage trabalha sobre três temas presentes no texto. O primeiro deles é a relação de espelho, a identificação que aos poucos ocorre entre diretor e psicopata. "Procuro sempre trabalhar sobre as idéias que Prata pretendeu explorar em seu texto. Nessa peça, uma delas é o paralelo entre o comportamento do estuprador e de muitos homens da geração de Prata, da nossa geração, que se dedicam a seduzir e conquistar mulheres para em seguida dispensá-las."Mas Lage não pára aí. "Há outro tema na peça, que é a impunidade da classe política, que também procurei privilegiar na encenação." E por último, porém não menos importante, a sedução do dinheiro sobre o artista. "Nem sei se consegui evidenciar isso em cena da forma como gostaria. Atualmente, da forma como a produção está estruturada sobre as leis de incentivo, muitos artistas realizam montagens motivados pelo interesse de uma empresa. Recebem convites para um trabalho que talvez jamais fizessem, não fosse a sedução do patrocínio." Camilo, o diretor criado por Prata, certamente é um deles. Embora hesite, acaba por colocar seu talento a serviço de um trabalho nada edificante.Eu Falo o Que Elas Querem Ouvir. Comédia. De Mario Prata. Direção Roberto Lage. Duração: 1h15. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 (sexta e domingo) e R$ 30,00 (sábado). Teatro Imprensa. Rua Jaceguai, 400, tel. (11) 239-4203. Até 18/11. Patrocínio: Petrobras.

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