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Mário, o funcionário público

Depois de ajudar a fundar o Modernismo, Mário de Andrade foi pensar a cidade

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h17

O subtítulo da Ocupação Mário de Andrade, a ser inaugurada na sexta para o público, é O Prazer do Descobrimento. "Essa é uma fala do Mário em uma carta ao Rodrigo Melo Franco num momento em que ele está desanimado com uma pesquisa. Ele escreve: 'A única coisa que fica disso tudo é o prazer do descobrimento'", lembra Silvana Rubino. É essa a ideia que a curadora buscou levar para a mostra. "A exposição não está só na parede para ser lida. A pessoa mexe, abre portinhas e gavetas. Ouve gravações da época, vê filmes", conta. Ela vai descobrindo aos poucos - são mais de 500 gavetas de onde saem imagens ou sons - esse universo que dava prazer e desanimava Mário de Andrade, mas cujo legado é importantíssimo para o País.

Em carta ao escritor e parceiro Paulo Duarte, Mário conta que sacrificou três anos de sua vida nesta função. "Ele se arrependia num dia, ficava eufórico no outro. Chorava num dia, sorria no outro. Como todos nós", comenta Silvana, que destaca que numa outra carta - agora para Rodrigo Melo Franco, que implantaria o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) - escreveu, com orgulho, algo como "o meu departamento fez isso, o meu departamento fez aquilo."

Mário de Andrade deixa o cargo em 1938, com Getúlio Vargas encerrando projetos paulistanos. Ele tinha planos de continuar e ampliar as ações que desenvolvia em São Paulo, de levá-las a outras cidades do estado. "Quando perde o apoio político, tudo acaba. Nesse contexto, ele fica amargurado por uma empreitada que não deu certo. Mas que não deu certo com ele lá, porque até hoje temos as secretarias de cultura, as bibliotecas", explica.

A ideia de biblioteca especializada em literatura infantil e juvenil, por exemplo, e de bibliotecas circulantes ainda vigoram. Na época de Mário, uma jardineira levava livros e bibliotecários a espaços públicos da capital. Este é um dos temas dos módulos da exposição - são nove no total, organizados a partir de recortes desse perfil dele de gestor cultural.

Um dos módulos é dedicado aos parques infantis criados por Mário - algo não vinculado à educação formal mas que atendia crianças na idade pré-escolar. Hoje, seria uma espécie de Centro Educacional Unificado (CEU), com unidades situadas na periferia de São Paulo. "Ele tinha uma ideia de difundir a arte entre as crianças e de ver como elas faziam arte. Tanto que organizou um concurso de desenho. Alguns deles estarão expostos no Itaú Cultural. Fotos de crianças em atividade também.

Não há um caminho obrigatória a ser feito na Ocupação. O visitante pode começar pelo módulo das bibliotecas, do parque infantil, ou pelo que mostra a Divisão de Documentação Histórica e Social - assunto de interesse do então diretor e um dos espaços mais curiosos da mostra. São duas mesas com monitores que exibem mapas interativos. Neles, o visitante poderá conhecer o perfil do paulistano no que diz respeito a questões como: quem acreditava ser possível curar terçol com um anel, em quais sociedades era proibido misturar manga e leite, que dança se dançava, o que tinha na mesa do almoço, que língua se falava em casa, etc. As fichas da época, tabuladas, são representadas nesses mapas.

A curadora ressalta que o mérito desses levantamentos do perfil socioeconômico e cultural da população não é só dele, mas também de Paulo Duarte e do então prefeito Fábio Prado. "Havia a ideia de que a cidade precisava ser conhecida para poder ser administrada."

Há tablets e telas na exposição, mas a aposta é num outro tipo de interação: no abrir e fechar das gavetas - que não deixa de ser uma metáfora da inquietação do homenageado e uma forma de mostrar a cara de uma repartição pública.

A organização também quer mostrar que Mário de Andrade era uma pessoa conectada em rede. Uma conexão feita a partir de sua Manuela, a máquina de escrever que terá uma réplica lá. Tudo o que ele pensava era discutido com seus muitos interlocutores - e a prova está nas cartas e documentos expostos. Apresentando esse Mário conectado, que debatia com os outros suas ideias e que tinha essa preocupação em formar público e em pensar tanto a cultura popular como formas de valorização da identidade e do patrimônio, a organização espera iniciar uma conversa sobre políticas culturais com os visitante.

Outra área interessante resgata a relação dele com a música - era, inclusive, formado em canto e em piano. "Ele se preocupava com concertos, em trazer a música erudita de vanguarda. Como naquela época não tinha nenhuma orquestra apta a tocar certas peças, ele fazia concertos de disco. Hoje parece meio louco, mas em 1935 ninguém tinha gramofone. Ele conseguia os discos e colocava para tocar, e de repente as pessoas estavam ouvindo Stravinski, que era uma novidade na época", comenta Silvana Rubino. A Discoteca Oneida Alvarenga existe até hoje no Centro Cultural São Paulo. Há ainda área dedicada ao IPHAN e às missões folclóricas.

Essas e outras histórias o público acompanha com o som ambiente de sua Pauliceia dos anos 1930: o trânsito, os passarinhos, o burburinho das pessoas nas ruas, o telégrafo, o telefone, a tecla da máquina de escrever.

OCUPAÇÃO MÁRIO DE ANDRADE

Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149). Tel. (011) 2168-1776.

3ª a 6ª, das 9 h/ 20 h; sáb., dom. e feriados, das 11 h/ 20 h.

Grátis. Até 28/7. Abertura quinta, 20 h.

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