Mario Cravo Neto expõe fotos em SP

As fotografias de Mario Cravo Netoem exposição a partir desta quinta-feira à noite na Galeria Millan,em São Paulo, carregam consigo um desejo de compreender o mundosob um olhar poético, sob o desejo de se apropriar daquilo que ébelo. E não importa se essa beleza esteja diretamenterelacionada ao culto aos orixás, à sensualidade do balé ou aosingelo universo da brincadeira infantil. Como ele próprio diz,seu interesse está na "totalidade da imagem", na apropriaçãopoética do objeto retratado, que pode se dar de distintasmaneiras. Na exposição que preparou para São Paulo, por exemplo,temos três investigações distintas, que se sobrepõem mostrandoquão diverso é o universo de interesse desse artista, capaz deconjugar uma pesquisa absolutamente contemporânea à forte cargade espiritualidade contida em sua obra. Logo na entrada da galeria está uma seleção de trabalhosem branco-e-preto que pertencem à pesquisa que ele iniciou aindana década de 70 quando, após sofrer um acidente de carro, passoua retratar as pessoas à sua volta tendo como fundo uma lonavelha de caminhão. Dentre esses trabalhos está uma foto de umninho de passarinho feito em fiberglass, que já mostrou naBienal de São Paulo e que segundo ele simbolizaria a apropriaçãototal do elemento animal pelo homem e vice-versa, criando umainteressante unidade entre as duas dimensões da vida. Essasimagens fazem parte do livro The Eternal Now, que está sendolançado agora em São Paulo. Lá estão flagrantes de seu filho Akira, mostras de umtrabalho desenvolvido junto ao Danish Royal Ballet oucomposições mais elaboradas como aquela em que diz prestar umahomenagem ao escultor Brancusi. Ao retratar um homem com um ovoequilibrado sobre a boca evidencia o caráter arranjado da foto("não acredito em flagrantes"), reforça o caráter altamenteescultórico de sua fotografia, que parece ter sido feita paraser tocada com o olho e, além disso, toca na questão espiritual,central em seu trabalho. "Nela você vê a vida brotar dasimplicidade", diz. "A vida é uma coisa só. Nós tentamos trilhar caminhos enos iludimos de sabermos o que estamos fazendo. Mas o tempopassado, presente e futuro são uma coisa só; estamos todospassando e tentando nos aperfeiçoar um pouquinho nessapassagem", complementa Cravo Neto. É por aí, por essanecessidade de perpetuação e aperfeiçoamento da vida quejustifica a forte carga de sensualidade contida em muitas desuas imagens. Mas não é exatamente na série The Eternal Now que sepercebe a importância da cultura do candomblé para o fotógrafo.Segundo ele, durante anos quis registrar esse universo religiosoque o marca desde a infância. Tanto que há muito tempo vemrecriando em seu ateliê essa realidade religiosa que não podiaser fotografada por causa dos dogmas. Não podia até que foiautorizado, por intermédio do babalorixá Balbino, a fotografaras vestes do companheiro Pierre Verger e a fazer um trabalholigado ao culto afro-brasileiro. Essas fotos estão sendo exibidas pela primeira vez naGaleria Millan, quer por meio de reproduções coloridas, quer pormeio de uma instalação visual criada por Cravo Netto, na qualtrês imagens potentes de assentamentos e rituais são projetadosnas paredes de uma sala escura, com uma trilha sonora especial,criando um ambiente que potencializa esse imaginário. "A idéiafoi criar uma instalação de total poder espiritual, quesensibilize as pessoas; que as surpreenda e emocione."Serviço - Mario Cravo Neto. De segunda a sexta, das 10 às 19horas; sábado, das 11 às 17 horas. Galeria André Millan. Rua RioPreto, 63, tel. 3062-5722. Até 5/1. Abertura quinta, às 19horas, com lançamento do livro ´The Eternal Now´. Áries Editora.238 páginas. R$ 200,00

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