Mário Brasini criou o ponto eletrônico

A rapidez para escrever peçasteatrais era uma característica na obra de Mario Brasini - elese orgulhava, por exemplo, de ter produzido Aqui e Agora emapenas dois dias. Todas as peças, porém, apresentavam umaessência única: são retratos do povo brasileiro a partir dafarsa e da caricatura. Além de ter sido ator, produtor, autor ediretor de novelas de rádio e televisão, Brasini destacou-se poruma invenção que não lhe é oficialmente creditada: o pontoeletrônico para o teatro. Habituado a fazer experiências eletrônicas amadoras,Brasini conseguiu criar um aparelho para substituir, nas turnêsdas peças pelo interior, a figura do ponto - a pessoa que ficanas coxias soprando as falas para os atores quando necessário. Ainvenção, batizada de ponto eletrônico, tornou-se um sucesso,mas não permitiu que Brasini enriquecesse. O motivo foi político: em 1965, quando tentou registraro invento, ele teve negado esse direito pelo regime militar,pois era reconhecido como um comunista sem partido. A soluçãoencontrada por ele foi montar uma empresa especializada emtradução simultânea utilizada em congressos. "Não foi osuficiente, porém, para afastar sua tristeza", conta a atrizMyrian Pires, grande amiga do dramaturgo, que nunca recebeunenhum dividendo pelo uso do invento. Com a decretação do Ato Institucional n.º 1, em 1964,Brasini foi cassado. No ano seguinte, depois de não conseguirregistrar seu invento, seguiu para Portugal, em turnê com a Cia.Tônia Carrero-Paulo Autran. Na volta, foi convidado pela atrizEva Todor pra dirigir e atuar na peça A Moral do Adultério,texto inacabado de Luiz Iglesias. Brasini escreveu o segundo ato ao lado de Joracy Camargo. Escrever peças, aliás, era uma atividade que consideravaparalela. Escrevo quando sinto necessidade; jamais conseguiriafazer nada sob encomenda, disse, certa vez. É o que justifica,por exemplo, a escrita de Nadim Nadinha contra o Rei deFuleiró, em 1965, quando ainda estava sob o impacto dasviolentas reações do governo militar - o texto (ou uma burletainfantil para adultos, em dois atos não de todo institucionais como brincava o próprio autor) é uma fábula sobre a opressãoinstitucionalizada e a resistência popular que nunca é destruídatotalmente. Outra peça que chamou atenção foi Aqui e Agora,escrita em 1979 e encenada simultaneamente, no Rio, com NadimNadinha. A partir da observação de que senhores de uma certaidade buscam uma relação extramatrimonial, Brasini criou doispersonagens que, na busca de um caso, chegam a imaginar umarelação homossexual entre eles. Quando morreu, em 1997, aos 76 anos, no Rio, de umarepentina pneumonia, Mário Brasini deixou diversos textosinéditos, especialmente dois romances e algumas peças teatrais.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.