Marina Abramovic faz primeira exposição individual no Brasil

Sérvia de 62 anos é considerada uma das mais importantes artistas vivas da arte performática

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo,

23 de junho de 2008 | 16h32

Somente agora, aos 62 anos, a sérvia Marina Abramovic (Belgrado, 1946), considerada uma das mais importantes artistas vivas da arte performática - e uma pioneira de propostas nesse terreno desde a década de 1970 - faz sua primeira exposição individual no Brasil. Na quarta-feira, 25, inaugura para convidados e na quinta para o público a mostra Objeto Transitório para Uso Humano, na Galeria Brito Cimino. A artista que cria no fio da navalha entre a simplicidade e o radicalismo exibe em São Paulo não alguma de suas performances "corpo de artista" (artist body), como ela diz, mas um conjunto de 12 obras que promovem a possibilidade de o público interagir com os trabalhos e, dessa maneira, vivenciar e experimentar sensações.  Veja também:Galeria com fotos da exposição de Marina Abramovic   Ela já realizou trabalhos angustiantes, como a performance Ritmo O (1974), em que ficou durante horas em uma galeria de Nápoles disponível para que os presentes abusassem ou não de seu corpo ao colocar sobre uma mesa instrumentos diversos como navalhas e até um revólver. "A performance é um elemento básico da minha obra, ela pode acontecer em diferentes níveis. Nessa exposição, me importa a experiência do público, ele não estará como um voyeur, usará sua concentração e energia para interagir com os trabalhos", diz em entrevista ao Estado, enquanto estava nos últimos preparativos para sua mostra. Cada obra é acompanhada de instruções escritas por Marina, porque os objetos ("não esculturas", ela diz) só adquirem função se forem usados. Na entrada da galeria, por exemplo, há o Energizador do Tempo, formado por duas cabines com ímãs no chão (nos pólos norte e sul): é necessário vestir jalecos brancos que estão pendurados. "O jaleco é de médico e dessa maneira o visitante pode trocar de identidade, não ser mais apenas o observador", diz. Outro trabalho, Mesa de Operação da Alma, é uma mesa no alto de uma escada para ser deitar sobre ela e que tem peças de acrílico coloridas acopladas. "As cores operam na alma, elas influenciam o sistema nervoso." Na mostra há ainda trabalhos com pedras diversas (turmalina, quartzos e hematita), pesquisadas por ela em minas do Brasil, na década de 1990. "Já exibi os trabalhos com pedras brasileiras diversas vezes na Europa, mas só não apresentei antes aqui porque não houve convite." Se hoje a performance aparece nas mais diversas categorias, "está no teatro, na MTV, no cinema, não apenas no campo das artes visuais", ainda afirma Marina, é preciso ter a vitalidade de reinventá-la a cada momento. "A performance é como a Fênix, aquele pássaro que se queima e revive de suas cinzas. Ela aparece de maneiras diferentes, mas não desaparece. A performance nunca será do ‘mainstream’ das artes, será sempre alternativa e isso é bom porque dá autoridade para ela, um sentimento de vida que nunca poderá ser emoldurado e colocado em museu." Marina, em plena forma, tem projetos em todo o mundo - entre eles, o de destaque e de seus sonhos, a criação do Instituto Marina Abramovic of Preservation of Performance Art, em Hudson, Nova York. A artista vendeu sua casa em Amsterdã e usou todo o dinheiro para comprar um prédio de US$ 950 mil para criar o futuro instituto, que se transformará em centro para artistas e público.  "Para mim só existe performance se existe vida. Documentação não é necessária, livros com registros não são vida. Por isso criei a série Seven Ease Pieces (Sete Peças Fáceis), uma seleção de trabalhos da década de 70 que posso refazer eu mesma ou que artistas pedem autorização para interpretá-las", diz. A vinda de Marina Abramovic este ano para o Brasil não termina por aqui. Depois, em outubro, volta para participar da 28ª Bienal de São Paulo, convidada pelo curador desta edição do evento, Ivo Mesquita. "Ele me pediu obras específicas e vou exibir uma perspectiva de minhas performances em uma instalação com 17 vídeos de épocas diferentes da década de 1970 em que aparece apenas a minha cabeça", adianta a artista. Marina diz que ainda não conhece bem o projeto curatorial de Ivo Mesquita para a Bienal. "Sei apenas que é uma proposta diferente de trabalhar com menos artistas, cerca de 40. Acredito que é importante porque o programa de mostras grandes não está dando certo", diz Marina, que participou da Bienal de 1983 (com o ex-parceiro Ulay) e exibiu vídeos em 2006.  Sua próxima performance de longa duração ocorrerá a partir de março de 2010, na retrospectiva que o MoMA (Museum of Modern Art de Nova York) prepara sobre a artista. "Já estou me preparando porque serão três meses de performances, oito horas por dia. Vai exigir muito de mim", conta Marina, que também tem atualmente sua biografia em fase de pesquisa pelo crítico e editor James Westcott.

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