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Marina Abramovic, Cantor e Martand Khosla veem a comida como arte

Exposição ‘Food’ reúne 16 artistas de vários países cujas obras lidam com a nutrição

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2014 | 23h28

Ao entrar na exposição Food: Reflexões sobre a Mãe Terra, Agricultura e Nutrição, o visitante desavisado pode ter a impressão de que a Comedoria do Sesc Pinheiros mudou de andar. Afinal, há pão sobre a mesa, xícaras de café suspensas por cabos, feijão em redes plásticas e até um minimercado logo à entrada. Mas são obras assinadas respectivamente pela romena Mircea Cantor, o jamaicano Nari Ward e os brasileiros Ernesto Neto e Eduardo Srur, quatro dos 16 artistas presentes na mostra com instalações, fotografias e vídeos. Todos os trabalhos foram selecionados pela curadora suíça (de origem armênia) Adelina von Fürstenberg com o objetivo de analisar o papel da comida num planeta exausto de uma troca injusta: fornecer alimentos em troca da agrotóxicos e poluentes.

Filosofia. Diretora da Art for the World, organização não governamental associada ao Departamento de Informação Pública das Nações Unidas, a curadora associa arte e gastronomia não apenas pelo modo semelhante como ambas lidam com os verbos misturar, fermentar e improvisar. Isso justifica a presença de artistas que oferecem ao público obras abertas, que pedem a interação do espectador, como a do italiano Stefano Boccalini, de 51 anos, apropriadamente chamada de DébitoCrédito (2013) e inspirada num ensaio do filósofo Maurizio Lazzarato, A Fábrica do Homem Endividado.

Lazzarato defende que essa relação débito/crédito define o capitalismo contemporâneo, ao conduzir países como a Grécia ao buraco financeiro. A interpretação de Boccalini junta as duas palavras, débito e crédito, feitas de pão e prontas para consumo do público, que pode escolher entre uma ou outra. Já a instalação ao lado, Estrangeiros (2011), de Mircea Cantor, também tem pães, mas não pode ser consumida. Os pães trazem facas enfiadas. Do corte da massa surge uma montanha de sal, metáfora do sangue dos migrantes que erram pelo planeta em busca de abrigo (o pão, simbolicamente, deveria representar hospitalidade). Como se vê, trata-se de uma parábola sobre o exílio, política como outras instalações da mostra.

Pisando em ovos. Montada originalmente em 1981, quando o general Figueiredo prometia democratizar o País, a instalação Entrevidas, da brasileira (nascida na Itália) Anna Maria Maiolino, 70 anos, é um exemplo de como a comida pode servir de comentário tanto ideológico como biológico. No chão, dezenas de ovos traduzem a fragilidade da vida num território em que o visitante, para chegar ao centro (e ver um ovo fora da casca), deve ter todo o cuidado de não pisar neles como um general dos anos de chumbo, preservando assim a vida dos outros.

A questão preservacionista é explorada igualmente numa obra que se assemelha a uma outra experiência histórica de Maiolino, a da germinação de grãos. Na peça Vanitas, do espanhol Miralda, outro veterano de 70 anos, crânios recobertos de feijões desidratados formam o que a curadora chama de “uma espécie de relicário arqueológico”. Nele brotam grãos cultivados em meio a uma parafernália de elementos, oriundos das naturezas-mortas holandesas do período barroco.

Essa relação dicotômica entre vida e morte, que os artistas exploram baseados na história da arte, é vista pela curadora como uma “busca transcendental” que define o cultivo de uma semente humanista – em falta no mundo contemporâneo. Ela cita particularmente os dois indianos presentes na mostra, Martand Khosla, de 39 anos, e o fotógrafo Raghubir Singh, morto em 1999, aos 57 anos. Khosla, na instalação Artigo 21, embrulha frutas de poliestireno com papel impresso com o texto do caso judiciário Olga Tellis, de 1985. No julgamento, que evoca o artigo 21 da Constituição indiana, favelados urbanos ganharam o direito de viver nas ruas de Bombai e vender frutas, contrariando o desejo da elite indiana, que enxerga os pobres como castas inferiores – feios, sujos, malvados e doentes.

O diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, lembra dessas e outras pessoas “que ainda sofrem privações” por causa da desigual distribuição de bens no mundo. A mostra, diz ele, “foca na polêmica sobre a conservação do capital natural e seu uso sustentável”, o que justifica o “desconforto” provocado por instalações como as de Mircea Cantor e Khosla, além das comoventes fotografias de Raghubir Singh, que mostram pobres no Mercado Crawford de Bombaim em 1993, antes do boom econômico indiano e da emergência de uma nova classe social, deslumbrada e alheia aos problemas básicos do país.

Espiritualidade. A curadora da exposição, pioneira na organização de mostras multiculturais com artistas não europeus, tentou unir todos os continentes em Food, cuja trajetória começou no Musée Ariana (2103), na Suíça, e vai continuar em Marselha, ainda este ano. Adelina, neta do arquiteto armênio Dikran Kalfa Cüberyan e casada com o fotógrafo Graf Franz Egon von Fürstenberg-Herdrigen, filho do conde de mesmo nome, não se parece em nada com uma aristocrata esnobe. Ela é o tipo de curadora com a mão na massa, que já organizou exposições de grandes nomes (Rauschenberg, Robert Wilson), mas interage com artistas menos conhecidos, defensores dos direitos humanos e da liberdade criativa.

“Creio que todos os artistas da exposição Food estão comprometidos com questões espirituais, mais do que materiais”, observa a curadora, apontando a instalação de Barthélemy Toguo, nascido em Camarões há 47 anos. Curiosamente, ela tem o título O Juízo Final e foi concebida há três anos e pretende ser uma interpretação visual do Apocalipse de São João. Toguo mostra aquarelas e esculturas em madeira que formam um teatro particular sobre o evento bíblico. Ele usa o tema, bastante explorado por artistas da Idade Média, em que vários crânios se encontram em busca de uma saída de emergência no inferno.

A esperança da renovação surge de um generoso banquete na forma de esculturas de madeira. Nelas, o visitante pode experimentar a solidariedade da Mama África, nome da instalação que usa utensílios da cozinha africana. “Ele fala da África como celeiro do mundo, fazendo uma crítica à monocultura, o que vai de encontro ao objetivo de entender o papel da diversidade da comida em cada um dos países representados, reorganizando-os no contexto artístico.”

Um dos nomes mais conhecidos da exposição é a performer Marina Abramovic, nascida em Belgrado (Sérvia) há 68 anos. Num vídeo de 1995, A Cebola, ela aparece em close-up, olhando para o alto e comendo uma cebola crua, enquanto sua voz em off reclama das salas de espera nos aeroportos, da conversa fiada das galerias e da sucessão de homens desinteressantes que cruzam o seu caminho. Seria irônico se a comida, por vezes, não estivesse associada ao dramático ato de chorar.

A curadora fala com entusiasmo dos artistas brasileiros presentes na mostra, parando diante do vídeo de Lenora de Barros, Um Estudo para Facadas (2012). “A fome deve ser como esse metal espetando e ferindo a língua da artista”, compara. No website interativo (Metáforasdoinfinito.com) do grego Angelo Plessas, de 40 anos, essa fome é saciada por um pássaro que come tudo o que vê pela frente, acabando como um monstruoso mutante. Descontrole alimentar dá isso. Cuidado com o supermercado de Eduardo Srur.

FOOD – REFLEXÕES SOBRE A MÃE-TERRA

Sesc Pinheiros. (R. Paes Leme, 195). 3ª a 6ª, 10h30/21h30. Sáb. e Dom., 10h30/18h30. Grátis

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