Marilyn Monroe e 'd.Telma' do Ceará dialogam sobre o 'Mito'

Exposições com fotografias da atriz e da moradora de Crato revelam fascínio do mito cinematográfico

Simonetta Persichetti, especial para O Estado de S. Paulo,

25 Janeiro 2008 | 06h56

Numa licença poética, o curador Diógenes Moura reuniu duas exposições em uma. A primeira, Marilyn Monroe, o Mito, que já foi mostrada no Rio e chegou em meio a uma série de controvérsias (ficou apreendida na alfândega, pois a Polícia Federal não considerou as fotografias obras de arte) e agora chega a São Paulo; a segunda, Telma Saraiva - A Procura de Um Mito, reúne fotografias feitas por d. Telma Saraiva, uma senhora de 76 anos, que mora no Crato, no Ceará, e jamais saiu de sua cidade, mas teve como fonte de inspiração para criar suas fotografias as imagens de Hollywood publicadas na revista Cena Muda dos anos 40. Portanto, muito antes de Norma Jeane Mortensen se transformar em Marilyn Monroe. O que une fotógrafa e fotografada? Aparentemente nada, a não ser o fascínio do mito.   Veja as imagens    Mas, vamos por partes. Marilyn Monroe, não se pode negar, foi o grande mito, a grande musa dos anos 50 e início dos 60. Inesquecíveis seus filmes, suas caras e bocas, o cabelo loiro, seu romance com o presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy. Pobre Marilyn, na verdade fruto, ou vítima, de uma indústria midiática que dava seus primeiros (talvez segundos, ou terceiros) passos. Mas ela, impassível, vestiu o papel e se tornou o sonho de mulher daquela época. Invejável!   Abaixo da linha do Equador, numa cidade chamada Crato, Telma Saraiva sonhava com Hollywood, com as cenas de cinema, com o glamour, com o romance. Seus sonhos eram alimentados pelos filmes que via, ou pelo que lia nas revistas dedicadas ao cinema. E ela, compreendeu que a fotografia poderia satisfazer esta fantasia. Que a imagem poderia realizar todos os sonhos, e assim foi. Que a imagem poderia transformá-la em quem ela gostaria de ser.   Bert Stern, norte-americano, já era um fotógrafo afirmado quando, em 1962, resolveu fotografar Marilyn Monroe. Como? Desnudá-la e veicular a matéria pela revista Vogue. Mal sabia ele que aquelas seriam as últimas fotos dela. Passados mais de 40 anos daquela sessão, percebemos que foi uma entrega total. As melhores imagens, obviamente, não são aquelas onde ela posa a pedido do fotógrafo, mas as displicentes, quando a sessão já terminou, quando fotógrafo e fotografada se soltam e a câmera registra. Neste momento, talvez o mais importante da mostra, encontramos uma Marilyn cansada, envelhecida prematuramente, que aceita mostrar a cicatriz de uma cirurgia recente, que aceita ser registrada ao lado do fotógrafo. Um mito que se despe de seu mistério, que se coloca como ser humano, que se despede de quem a idolatrou. Um mês e meio depois, cometeria o suicídio. Pelo menos é isso que a história nos conta.   Esta exposição não interessa pela Marilyn deslumbrante que se submete como uma aluna aplicada às ordens de um fotógrafo que tenta extrair dela o que há de melhor. Isso ela sempre fez. Mas interessa justamente pelos pequenos momentos de descontração em que realmente ela se entrega, se despe, sorri com um sorriso quase infantil. Linda, frágil, humana! Essas imagens são quase um testamento, uma despedida de alguém que foi construída e usada pela mídia.   Telma Saraiva, filha e mulher de fotógrafo, começou a se interessar por fotografia e cinema na década 1940. Seu pai, fotógrafo da cidade de Crato no Ceará, a incentivava a freqüentar os cinemas da cidade. Mas a intenção não era ela se tornar atriz ou algo do gênero, mas sim aprimorar sua leitura. Mas a menina se apaixonou pela mágica do cinema, pelas imagens das divas. Colecionou revistas sobre o assunto e é na Cena Muda que ela vai encontrar o que definitivamente modificaria sua vida: a técnica de colorir fotografias. Sem hesitar, encomenda um estojo de tintas para fotografia nos Estados Unidos e inicia sua carreira de fotógrafa de estúdio. Mas não se torna uma fotógrafa convencional, afinal, como ela mesmo afirma: "Todo mundo quer ficar bonito no retrato."   Por isso, especializa-se em foto-pintura e passa a decorar as imagens para que fiquem de acordo com o gosto do freguês. Mas tirar rugas, colorir bochechas é pouco para ela. Inicia assim uma série de auto-retratos em que ela mesma se representa como as atrizes do filme que via. É assim que ela se transforma em Scarlett O’Hara, a heroína de ...E o Vento Levou, ou como uma índia Sioux, ou ainda como uma descendente de japoneses. Seu estúdio e sua casa se tornam o cenário hollywoodiano. E é nesse mundo que ela vive com sua família. Um mundo de sonho e de fantasia.   Suas imagens já puderam ser vistas numa mostra de Retrato Popular que a Pinacoteca trouxe há dois anos. A foto-pintura, aliás, era algo comum desde o século 19. Uma maneira de embelezar os retratos, aproximá-los da pintura e transformá-los em "arte". No meio de imagens de lambe-lambe, monoculistas e fotógrafos da praça, as imagens de d. Telma se sobressaem. Agora são seus retratos isolados do resto que podemos ver. Sua fantasia do que pode ser o mundo.   E foi essa fantasia que encantou outro fotógrafo, Cristiano Mascaro, que no ano passado conheceu d. Telma. Encantado com o que via, Mascaro resolveu registrar o entorno da fotógrafa, sua casa, seu mundo. E, assim, em 2007, foi para Crato conhecer de perto onde ela vivia. O resultado dessa incursão está nas 15 imagens presentes na mostra.   A casa de d. Telma também é um cenário. Aos 76 anos, ainda vaidosa, ela posa para o fotógrafo, mostra o estúdio, os lugares onde costumava ficar para fazer os retratos e conta ao fotógrafo como fazia: "Ela se maquiava, em seguida colocava frente a ela ao lado da câmera um espelho. Ele era seu guia. Só então disparava e fazia seu retrato. Tudo feito na sua casa." Muitos, ao verem suas imagens, lembram imediatamente de uma fotógrafa mais moderna, a Cindy Sherman, que também se auto-retratou como personagem de cinema. Mas d. Telma fez isso muito antes.   D. Telma conta a Cristiano Mascaro por que começou a se autofotografar: "Sou muito vaidosa!" Característica que ela carrega até hoje e que se pode perceber também em sua casa. Uma casa que foi montada e decorada da mesma maneira como seus auto-retratos, para satisfazer seus sonhos, suas fantasias.   Nisso as duas, d. Telma e Marilyn Monroe, realmente se encontram. Ambas estão atrás de uma fantasia! Cada qual, a seu modo, conseguiu realizá-la.     Marilyn Monroe - O Mito. Telma Saraiva - À Procura de Um Mito. Galeria Estação. Rua Ferreira de Araujo, 625, tel. 3813-7253. De 3.ª a dom., 11h às 19h. R$ 10. Até 23/3. Abertura 25/1, às 19h, para convidados.

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