Marília Pêra reconta uma história de amor

Atriz estrela o monólogo musical 'Herivelto Como Conheci', sobre a relação entre Herivelto Martins e a aeromoça Lurdes Torelly

O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2014 | 02h05

Quando encenou o musical A Estrela Dalva, em 1987, em homenagem à grande cantora Dalva de Oliveira, a atriz Marília Pêra manteve um contato mais próximo com o trabalho da famosa dupla formada por Dalva e Herivelto Martins, representantes da época de ouro do rádio no Brasil (anos 1940 e 1950). "O espetáculo falava deles, mas não se referia a Lurdes, mulher de Herivelto", conta Marília, que fecha o ciclo com o monólogo-musical Herivelto Como Conheci, que terá apenas três apresentações no Theatro Net, de hoje a domingo.

Com adaptação e direção de Claudio Botelho, o espetáculo é baseado no livro homônimo de Cacau Hygino e Yaçanã Martins (também responsáveis pelo texto da peça), lançado em 2010, e revela detalhes do romance entre o compositor e músico Herivelto Martins (1912- 1992) e sua terceira esposa, a aeromoça Lurdes Torelly, prima do famoso escritor e humorista Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Desquitada, ela já tinha um filho do primeiro casamento e, com Herivelto, teve mais dois, entre eles, a atriz e escritora Yaçanã.

"Em cena, vivo o papel de Lurdes e conto a história da sua relação com Herivelto e as canções que ele compôs em sua homenagem", conta Marília. "Mas também falo de Dalva, pois é impossível esquecê-la."

Herivelto Martins teve uma vida que certamente inspiraria um melodrama circense - a começar pela infância, pois, aos 13 anos, ele fugiu com uma dupla de circo. Trabalhou como palhaço e barbeiro até gravar, em 1932, uma composição sua, Da Cor do Meu Violão, feita para uma namorada discriminada pelo pai do músico justamente por ter a cor do título da música. Numa época em que sambistas eram vistos com desconfiança, suas músicas falavam de relações inter-raciais (tanto Da Cor do Meu Violão como Nega Manhosa) e da vida difícil na favela (Ave Maria no Morro).

"As músicas de Herivelto são deslumbrantes, com letras arrebatadoras e retratam uma época em que se matava por amor, em que os corações arrebentavam de tanta paixão", observa Marília que, em cena, é acompanhada pelos músicos Thiago Castro e Marcio Castro. E, durante a narrativa, as falas de Herivelto são ditas em off pelo diretor, Claudio Botelho.

A aeromoça Lurdes era de família gaúcha tradicional e conheceu Herivelto a bordo de um avião. Embora enamorada, ela tentou não ceder aos seus encantos. Mas não conseguiu. Em meio a tantas cartas de amor, a relação entre eles durou 40 anos e só terminou com a morte de Lurdes, em 1990.

Ela desejava que a troca de cartas que manteve com Herivelto entre 1947 e 1949 fosse queimada, mas a filha Yaçanã não teve coragem de destruir aquelas declarações de amor, que culminaram no livro e no espetáculo.

"Conheci pessoalmente Lurdes e Herivelto, pois, nos anos 1980, quando me preparava para montar o musical A Estrela Dalva, frequentei a casa deles, na Urca, no Rio", relembra Marília. "Lurdes e Herivelto formavam um casal delicado e religioso. Com eles, fiz algumas orações e deles recebi bons fluidos. Lurdes era uma mulher meiga e serena. Eu, envolvida como estava com a vida e com as músicas de Dalva, ficava surpreendida com o equilíbrio desse casal que, no passado, tinha mergulhado junto com Dalva no olho do furacão, no vórtice das paixões."

Marília conta que Herivelto assistiu a algumas apresentações de A Estrela Dalva para confirmar se ela realmente cantava nos tons originais. "Fiquei contente quando ele confirmou."

O repertório de Herivelto Como Conheci inclui 19 canções como Caminhemos, Ave Maria do Morro, Atiraste uma Pedra, Camisola do Dia, Dois Corações, Pensando em Ti, Culpe-me, e Segredo, entre outras.

O espetáculo marca o retorno de Marília Pêra aos palcos, depois de um período de oito meses cuidando de um problema lombar e na perna que a deixou imobilizada.

"Voltei cautelosa e, com receio de não me lembrar de tudo (são várias canções e muito texto), pensei até em usar ponto eletrônico", fala. "Mas, ao retomar os ensaios, aos poucos fui recuperando tudo até me sentir plenamente segura."

De fato, no palco, Marília cita diversos trechos das cartas escritas por Lurdes como fala da personagem. E, antes de chegar a São Paulo, o espetáculo ficou em cartaz no início do ano no Rio e foi apresentado durante uma semana em Lisboa. / U.B.

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