Marília Pêra estréia em SP musical "Vítor ou Vitória"

Lá pelas tantas, quando Vitória travestida de Vítor é obrigada a provar que "realmente" é homem, a personagem não vacila: dança brilhantemente um tango (uma versão apimentada de Paris by Night) com a senhorita Norma, arrebatando os presentes, homens e mulheres. O musical Vítor ou Vitória, versão brasileira de Cláudio Botelho, que estréia hoje sob direção de Jorge Takla, no Teatro Cultura Artística, vai revelar que à estrela do espetáculo, Marília Pêra, depois do tango, só faltava mesmo sapatear. E é o que ela também faz no espetáculo, esbanjando versatilidade no roteiro baseado no musical da Broadway de 95, da dupla Blake Edwards e Henry Mancini."As pessoas me perguntam: você ainda faz aulas? E eu respondo: ainda e sempre", diz a atriz de 57 anos e fôlego de adolescente. Além das aulas de alongamento e musculação, ela sempre fez aulas de canto - afinal, a atriz que pisou no palco pela primeira vez aos 4 anos, como filha de Medéia, atua com freqüência em espetáculos musicais ou musicados, como em Elas por Ela, Master Class e o recente Estrela Tropical. "Mas o sapateado é aprendizado recente", conta a atriz, que em São Paulo ganhou a coreógrafa Kika Sampaio como professora. Também aprimorou suas habilidades no tango, mas desenvolvendo o papel do homem, que é sempre o condutor da dança."Esse é o espetáculo certo para a atriz certa", afirma o diretor Jorge Takla, que a dirigiu em Master Class, no qual a atriz, interpretando a cantora Maria Callas, cantava. "Ela é uma atriz disciplinada e completa. Só quem tem o trágico pode fazer o cômico", elogia o diretor. Comédia romântica, Vítor ou Vitória subverte as noções dos papéis do homem e da mulher, focalizando com humor - ora rasgado ora pueril - as peripécias de uma cantora que para sobreviver num mundo pautado por regras masculinas é compelida a falsear sua identidade.O enredo de Vítor ou Vitória ficou notoriamente conhecido a partir do filme, de 1982, de Blake Edwards com Julie Andrews no papel de Vitória.Rapidamente, virou sucesso (curiosamente, o filme indicado para sete Oscar ganhou só o de melhor trilha musical. Mas em 82, o Globo de Ouro de melhor atriz faria justiça a Julie Andrews). Desfia-se a trajetória de Vitória Grant, uma cantora inglesa pobre, viúva e desempregada na Paris dos anos 30, que se transforma, por sugestão do amigo Toddy (no cinema, representado pelo ótimo Robert Preston), num personagem masculino, Vítor, príncipe polonês transformista. A burla, que a faz transformar-se num homem que se transforma em mulher, resulta em sucesso estrondoso, mas o sistema, por assim dizer, entra em colapso quando Vitória reconhece no viril King Marchan o amor de sua vida.O espetáculo é maestro de ditos espirituosos contra um mundo regido pelos preconceitos sexuais. Toddy, personagem carismático, amigo boêmio de Vitória, interpretado pelo cantor e compositor Léo Jaime, encabeça a lista de frases:Vitória - Eu não quero mais ser homem. Toddy - Eu sei. Eu também não. King também é dono de motejos românticos, como no primeiro beijo em Vítor, que remete ao antológico final de Quanto mais Quente Melhor (com Jack Lemmon, Marilyn Monroe e Tony Curtis), do imortal Billy Wilder:King - Eu não me importo que você seja homem. (Ele a beija.)Vitória - (sem fôlego) Eu não sou homem. King - Eu continuo não me importando. Já Marília Pêra, no papel da heroína romântica, suspira mais e brinca menos: "(Cantando) Eis o meu segredo: Nunca me esconder! Quem ficar na sombra só vai se perder." Ou quando avalia sua trajetória no desfecho feliz com King: "Pela primeira vez na vida, eu me sinto emancipada. Eu sou meu próprio homem.""Vítor ou Vitória tem um tom libertário, todos os personagens representam algo que não são o tempo todo, o que os leva a se conhecerem mais profundamente", atesta o diretor Jorge Takla, responsável por montagens como La Bohème (ópera), Master Class e Últimas Luas. Takla aposta na forte onda de produções de musicais no Brasil, promovidas sobretudo pelo grupo mexicano de entretenimento, a CIE (Les Misérables, Rent, O Beijo da Mulher Aranha). "Está se criando no Brasil uma escola de profissionais com grande aprimoramento tecnológico, o que favorece o teatro como um todo", diz. "Até pouco tempo atrás, ia se buscar um peruqueiro nos EUA. Hoje, já temos esses profissionais à nossa disposição", exemplifica Takla.Elenco - O elenco brasileiro de Vítor ou Vitória, formado depois de muitos testes, reúne 20 técnicos, 31 atores-dançarinos e 12 músicos, sob regência de Miguel Briamonte. A direção musical é de Luís Gustavo Petri. Na linha de frente, além de Marília Pêra e Léo Jaime, estão Daniel Boaventura (egresso da Cia. Baiana de Patifaria), no papel de King Marchan, o sedutor gângster de Chicago, confusa e perdidamente apaixonado por Vítor; Drica Moraes, como Norma Cassidy, a namorada estapafúrdia de King; Ricardo Graça Mello (filho de Marília Pêra), como o proprietário do Chez Lui, e Renato Rabelo, no papel de Squash, o fiel escudeiro de King.A versão brasileira conta com cerca de 200 figurinos (de Mira Haar e João Santaella Jr.) e 10 cenários. Takla optou por traduzir em brasilidade o roteiro da Broadway, recuperando a estética do teatro de revista (que por sua vez incorpora a linguagem dos musicais norte-americanos). Também atualiza a estética drag queen, abusando de figurinos exuberantes para Marília Pêra. "O brasileiro tem muita afinidade com o se travestir, o se transformar, é o mesmo princípio do carnaval", reflete o diretor, que num ato de total ousadia ainda é o único patrocinador do espetáculo, orçado em R$ 1 milhão. Até o momento, conta com apoio do Residence George V, da TAM, Localiza e Gama Gráficos.Vítor ou Vitória. Comédia Musical. De Blake Edwards. Músicas de Henri Mancini. Versão brasileira Cláudio Botelho. Direção Jorge Takla. Direção musical Luís Gustavo Petri. Duração: 2h20 (com intervalo). De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 30,00 a R$ 100,00. Televendas: 258-3344. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616. Até 25/11.

Agencia Estado,

17 de agosto de 2001 | 10h46

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