Marília Pêra dirige texto de Augusto Boal

A atriz e diretora Marília Pêra encontra-se pela primeira vez com o teatro de Augusto Boal. O encontro se dá nos bastidores, porque ela dirige um texto inédito dele, O Amigo Oculto, com um elenco de 13 atores, entre eles sua filha, Esperança Motta. A estréia está marcada para o dia 23, no Teatro Clara Nunes, no Rio, com ensaios abertos a partir desta semana. Ao mesmo tempo, Marília grava Garotas do Programa, da TV Globo, e prepara o show Estrelas Tropicais, que estréia, também no Rio, no segundo semestre.O Amigo Oculto é uma comédia que Boal prefere chamar de boulevard macabro. ?Tem a estrutura dos espetáculos leves que agradam ao público hoje em dia, mas fala de assuntos muito sérios?, explica o dramaturgo, que não pôde dirigir a peça porque está falando de seu Teatro do Oprimido em universidades americanas. ?Como o título indica, a peça é uma festa em que as pessoas se presenteiam, só que, em vez de se elogiar como acontece nessas ocasiões, fazem um jogo da verdade e falam coisas terríveis umas das outras.?Bibi Ferreira foi o primeiro nome pensado para a direção por ser uma especialista em comédias. Como ela havia assumido outros compromissos, o texto foi oferecido a Marília, que aceitou com a condição de poder mexer à vontade para deixar o espetáculo com sua marca. ?Isso acontece até em montagens de clássicos de Shakespeare ou de Ibsen, porque o teatro se faz no palco?, diz Marília. ?Se alguém comparar o texto original de Os Mistérios de Irma Vap com o espetáculo que ficou dez anos em cartaz, vai ver a diferença.?O encontro de Marília e Boal deveria ter ocorrido nos anos 60. Eles estavam se acertando, mas a ditadura militar atrapalhou os planos dos dois, com mandados de prisão que levaram Marília à cadeia e Boal a sair do País. Nos anos seguintes, ele radicalizou sua opção pelo teatro politizado, enquanto ela foi deixando de lado a militância. Mas Marília prefere se classificar como politicamente incorreta. ?Faço outro tipo de política, com atitudes inusitadas e não programadas que tomo de vez em quando?, ressalta. ?Revolvi dirigir essa peça porque gostei do texto, achei interessante.?Ela não fez exigências quanto ao elenco, que tem ainda Fafy Siqueira, Françoise Fourton, Reinaldo Gonzaga, Mário Cardoso e Débora Olivieri (a mãe da bela Paola na novela Terra Nostra). Só exigiu muita disciplina desse elenco. ?Gosto de trabalhar com gente boa de coxia, que chega na hora, com o texto pronto e muita disposição?, avisa Marília. ?Afora isso, tenho sensibilidade para as particularidades de cada ator, porque também sou atriz e sei quanto um diretor pode destruir-nos.?São poucas exigências para uma atriz que domina seu ofício. Afinal, está há 50 anos no palco, pois dava seus primeiros passos quando estreou numa Medéia montada pelos pais, também atores. ?O público gosta de coisas chiques, gente bem vestida, que tenham magia e mexam com a criança que cada um tem dentro de si?, ensina Marília. ?Acho que Irma Vap fez tanto sucesso porque era teatro de adulto encenado como teatro infantil ou vive-versa.?VedetesA peça de Boal não é o único plano de Marília para 2000. Na televisão, ela faz humor no Garotas do Programa, mas a menina dos seus olhos é o show Estrelas Tropicais, prometido para agosto. Será uma homenagem às vedetes brasileiras, como Mara Rúbia e Virgínia Lane, que marcaram um tipo de interpretação e povoaram os sonhos dos brasileiros até os anos 60. Ela preferia uma homenagem a Carmem Miranda, personagem que representou ?um milhão de vezes?, como gosta de dizer. Sem conseguir autorização dos detendores dos direitos sobre a imagem da Pequena Notável, resolveu estender sua homenagem.?Quero fazer um espetáculo bem dançante, alegre, mas por enquanto estou só conversando com o Roberto Menescal, que vai fazer a direção musical?, conta ela, que faz aulas de dança e canto quando não grava na Globo. ?Como não sou exatamente uma cantora, esses espetáculos me exigem muita disciplina.?Marília só se espanta se alguém pergunta se está fazendo humor rasgado pela primeira vez. Quando começou a fazer televisão nos anos 70, esse era o tom de seus personagens. ?E um dos primeiros espetáculos dentro do estilo que depois ficou conhecido como besteirol foi Doce Deleite, que fiz em 1980, com Marco Nanini?, conta a atriz. ?Como tive muitos personagens densos e fortes depois disso, as pessoas começaram a pensar que tenho esse estilo?, acrescenta. ?Mas o bom do teatro é a diversidade.?

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