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Marieta Severo domina a festa

Atriz, que pode ser vista na comédia Vendo ou Alugo, recebe um Calunga especial na 17ª edição do Cine PE

LUIZ CARLOS MERTEN / RECIFE, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2013 | 02h08

Marieta Severo foi a dona da festa na segunda noite do 17.° Cine PE. Homenageada pelo Festival do Recife, recebeu seu Calunga especial das mãos de Nathália Timberg. Não foi apenas o encontro de duas gerações de intérpretes. A jovem Marieta tomou-se de amores pela arte da representação ao assistir, em seus verdes anos, à Antígona de Nathália. Sua estreia no cinema foi em Society em Baby-Doll, de 1965, no qual Nathália fazia sua mãe. A outorga do prêmio foi, portanto, marcada pelo simbolismo.

A homenageada acrescentou que tem um gosto especial pelo humor - na arte como na vida. Fez justiça no palco do Cine-Teatro Guararapes, que não tem andado cheio, ao contrário de anos anteriores. Marieta diz que seu amor pelo cinema brasileiro começou nas chanchadas da Atlântida. Ela amava Oscarito e Grande Otelo, mas amava, mais que todos, Violeta Ferraz, e aí fez justiça, porque foi realmente uma grande comediante brasileira (a maior, entre as mulheres). E veio a comédia Vendo ou Alugo, de Betse de Paula, sobre quatro gerações de mulheres de uma família arruinada como a casa em que vivem. Marieta e Nathália fazem de novo mãe e filha. No caso, a avó e a bisavó. Sílvia Buarque é a filha de Marieta (como na vida) e Beatriz Morgana (filha de Betse), a caçula da família.

É preciso vender a casa com urgência. Ela é vizinha de uma favela, que está sendo pacificada. Entre tapas e beijos, tiroteios e incursões sexuais (de Marieta com o traficante Marcos Palmeira, irmão da diretora), a coisa esquenta. Para incrementar a trama, que se passa quase toda num único dia, existem três amigas jogadoras - Carmem Verônica rouba a cena - e um bolo recheado de maconha, que deixa todo mundo louco. Vendo ou Alugo começou a nascer há 12 anos, quando Betse mostrou O Casamento de Louise no Recife e encontrou a produtora Marisa Leão. Combinaram de trabalhar juntas. As comédias de Betse sempre foram boas de observação, mas se ressentiam de uma produção precária. Marisa proporciona agora à diretora os meios de que ela precisava. O filme flui melhor, é engraçado, politicamente incorreto - e pensa o País, dialogando de forma bem interessante com Giovanni Improtta, que abriu o Cine PE na sexta-feira.

O longa de Wilker baseia-se num personagem que Aguinaldo Silva criou em livro, antes de transportá-lo para a telenovela Senhora do Destino. Improtta é bicheiro, patrono de escola de samba. É acusado do assassinato de um promotor, numa trama urdida pelo cunhado, que é pastor. O tal pastor bate na porta de outro bicheiro - Milton Gonçalves -, que não liga para as suas prédicas, porque é de umbanda. Há outro pastor, interpretado por André Mattos, em Vendo ou Alugo. Ex-presidiário, quer transformar a casa de Marieta em templo. Ela, precisando de dinheiro, prefere fazer um despacho para Iemanjá. A rainha do mar não apenas a ajuda a vender a casa como lhe arranja um amante fogoso. O pastor é só um detalhe, mas questão evangélica ganha relevância em Vendo ou Alugo.

O 17.° Cine PE engatinha, recém começou e já ensejou discussões interessantes. Cacá Diegues é produtor e faz um papel em Giovanni Improtta. Com sua autoridade de cineasta consagrado e crítico (que nunca deixou de ser), fez um alerta. Há um repúdio generalizado da crítica às comédias que fazem sucesso. O alerta de Cacá é que as chanchadas também eram desprezadas nos anos 1950 e hoje são revalorizadas. No futuro, para se entender o Brasil de hoje, comédias como De Pernas pro Ar 2 e Vendo ou Alugo (agora é o repórter que diz) vão fornecer ferramentas importantes para análise. Já se pode fazer isso. É só, como sempre no cinema, uma questão de olhar.

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