Marieta e Nanini juntos de novo no palco

Depois de cinco anos, Todd Duncan volta para casa e reencontra os problemas da família. O quadro deixa qualquer um boquiaberto: a mãe, Grace, além de alcoólatra, é uma compradora compulsiva. Arthur, o pai banqueiro, não consegue chamar o filho pelo nome verdadeiro e Emma, a irmã de 15 anos, desencontrada, tem dificuldades em lembrar que temum irmão. E ainda Tom, noivo de Emma, que, além de substituir aempregada que não apareceu, tem dificuldades em confessar seus sentimentos eacaba se tornando amante de Todd. Este, por fim, retorna na condição de soropositivo. Em linhas gerais, são esses os personagens do primeiroato da peça Os Solitários, que estréia sexta-feira, no Teatro Alfa. "Eis uma mistura de humor com violência como eu nunca tinhavisto", comenta o ator Marco Nanini, que empresta sua versatilidade parainterpretar dois papéis, Arthur e Emma. "É um texto que não poupa nada nemninguém e, por isso, deverá surpreender o público", completa Marieta Severo,que vive Grace. A surpresa com o relacionamento da família Duncan erajustamente o que Marieta e Nanini procuravam - terminada a temporada de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, eles buscavam um texto instigante. Mais:queriam algo diferente do que estavam acostumados a fazer. Admiradores da carreira do diretor Felipe Hirsch à frente daSutil Companhia de Teatro (A Vida É Cheia de Som e Fúria, A Memória daÁgua), consultaram-no sobre a possibilidade de trabalharem juntos. Atento às novidades da dramaturgia mundial, Hirsch ofereceu um pacoteexplosivo: o humor negro e perturbador do norte-americano Nicky Silver, autor cujotexto foi apresentado pelo jornal The New York Times como uma "absurdidade clássica". O efeito foi impactante na dupla de atores. "Há algo de Nelson Rodrigues na forma como Silver enfoca os valores familiares e sua degradação, algo ao mesmo tempo assustador e estimulante", observou Nanini, que pretende evitar qualquer semelhança com outros trabalhos (especialmente O Mistério de Irma Vap, em que a rápida troca de roupaera um dos atrativos da peça) ao interpretar dois papéis. E a primeira possibilidade de comparação, que são figurinos bem distintos, está descartada. "Não vou utilizar peruca para interpretar Emma", explica."A diferença estará na forma de expressar as sensações, especialmente de solidão e desespero." A mesma preocupação norteou o trabalho de Marieta Severo, quevive duas mães diferentes. Duas? Sim, ao estudar toda a obra de NickySilver, Hirsch propôs aos atores que o espetáculo se concentrasse em duaspeças. Assim, no primeiro ato, é contada a história da família Duncan, que éa trama de Pterodátilos, peça que alçou o dramaturgo ao sucesso. Passado o intervalo, surgem os personagens de um outro texto, Homens Gordos de Saia. "As características, porém, são as mesmas, ou seja, umaverborragia amarga, uma comédia ao mesmo tempo violenta e provocadora", observa Hirsch. No segundo ato, Marieta é Phyllis, que sobrevive a uma acidentede avião ao lado do filho de 11 anos, Bishop (Nanini), ambos ficandopresos em uma ilha. Para sobreviver, eles são obrigados a recorrer ao canibalismocom os demais passageiros. Com o tempo, Bishop transforma-se: de um menino gago para um animal levado por impulsos primitivos, marcado por um amadurecimento incomum. "Tanto a Grace como a Phyllis são mulheres obsessivas, mas a primeira é uma mãe fútil que se nutre do nada,enquanto a segunda descende de uma classe média insossa, presa a uma vida enclausurada." O fio condutor, porém, é o mesmo - se, no primeiro ato, oconflito entre os personagens revela a decadência familiar, no segundo é exibido umretrato ferino sobre a forma como as famílias se fragmentam. "São dois pólos distintos dentro da obra de Silver", observa o ator Guilherme Weber,membro fixo da Sutil Companhia de Teatro e que interpreta Todd Duncan noprimeiro ato e, no segundo, Howard, o pai do garoto Bishop. "Se o humor nahistória inicial é extremamente radical, no seguinte é mais agressivo." Tais opções adiou o reconhecimento da dramaturgia de NickySilver. Suas primeiras peças chegaram a ser produzidas por pequenascompanhias de Nova York e só eram assistidas por amigos e familiares. A escolhados temas (homossexualismo, canibalismo, alcoolismo) incomodava asplatéias, que se assustavam ainda com a forma verborrágica com que os diálogos eram proferidos. "O texto parece dizer que a função das palavras émais para ocultar que revelar", comenta Erica Migon que, além de participar da montagem como atriz, cuidou da tradução ao lado da irmã, Úrsula. "Masa insistência revela as minúcias do cotidiano", diz Wagner Moura, que completa o elenco.Uma parceria lapidada há mais de 20 anos Cumplicidade dos atores revela-se especialmente quando interpretam marido e mulher A afinidade entre Marco Nanini e Marieta Severo revela-se nas sutilezas da interpretação, lapidada há mais de 20 anos, quando ambos subiram ao palco juntos pela primeira vez. "Temos uma grandecumplicidade em cena", comenta o ator. "Especialmente quando interpretamos umcasal", completa Marieta. A primeira parceria ocorreu em 1975, quando interpretaram As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, sob a direção de Antônio Pedro. Curiosamente, encerrada a temporada, Nanini e Marieta sóvoltariam a se encontrar 20 anos depois, quando Carla Camurati os dirigiu emCarlota Joaquina, Princesa do Brasil, filme que marca a retomada do cinema brasileiro. O longa alcançou um sucesso de bilheteria e consagrou a interpretação de Marieta como Carlota e de Nanini, como um famintodom João VI. A confirmação da afinidade veio com a participação conjunta emtrês episódios do programa A Comédia da Vida Privada, exibido pela RedeGlobo. Satisfeitos com o resultado, Marieta e Nanini decidiram realizarum reencontro no palco e, por sugestão dela, interpretaram e produziram,em 2000, o clássico Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee,com a direção de João Falcão. A montagem já revelava a decisão da dupla em investir em espetáculos instigantes, tanto pela originalidade do texto como pelas inovações na direção. Assim, enquanto pesquisavam a produção seguinteao texto de Albee, Marieta e Nanini formavam um novo casal na televisão,desta vez na reedição do seriado A Grande Família, um dos melhoresprogramas lançados pela Globo no ano passado. Decididos a trabalhar com um grupo jovem e com um repertório já consagrado, eles acertaram com a Sutil Companhia de Teatro, de Felipe Hirsch e Guilherme Weber, a encenação de textos inéditos de NickySilver, embalados sob o título Os Solitários.

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