Mariella: O Show como obra viva

Cantora baiana traz a São Paulo seu 'modo de fazer' jazzístico

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Estação primeira do Brasil, a Bahia nunca foi conservadora. Quem faz a observação é a soteropolitana Mariella Santiago, uma das cantoras-compositoras mais predispostas a ultrapassar os limites das convenções musicais em Salvador. Moderna, versátil, performática, ela traz suas ousadias cênicas para São Paulo em dois palcos, shows e situações diferentes na próxima semana.

Na terça, ela é atração do projeto Cedo e Sentado, do Studio SP, em que dá ênfase às canções de seu EP virtual In Tudo Que É Canto (www.myspace.com/mariela santiago), lançado em fevereiro. No próximo sábado ela canta na íntegra o repertório do disco Bicho de Sete Cabeças I (1983), de Itamar Assumpção, dentro da série de lançamento da Caixa Preta, no Sesc Pompeia. Seu convidado é Chico César, que assina uma parceria inédita com ela: Calunga Exuberante. No Studio, quem faz participação especial é o guitarrista Luiz Chagas, da Banda Isca de Polícia, de Itamar. Está tudo interligado.

Na terça, além das novas canções ela vai interpretar também Oseujadá e Cuidado com a Propaganga (parceria com o DJ Dolores), de seu único álbum, Mariella. Lançado em 20o1, o CD teve participações de Gerônimo, Hermeto Pascoal, DJ Dolores e Carlinhos Brown. Nos últimos meses ela vem gravando material novo que pode se transformar num disco, mas diante da situação do mercado, com poucos recursos para produção, sua prioridade é o palco - onde, aliás, ela impressiona.

"Nesses quase dez anos desde o meu primeiro disco, com esse negócio de pirataria e música distribuída na internet, as pessoas voltaram a investir mais nos shows. Isso me influenciou de maneira muito positiva, porque domino muito mais a parte musical, de composições e arranjos, e um pouco da comunicação do meu trabalho, do que a produção. Então, o lance é fazer show. Pouco importa lançar o CD amanhã ou no ano que vem."

Ela começou a trabalhar no disco em 2007 com Arto Lindsay e inscreveu o projeto em leis de incentivo, sem sucesso. "Talvez porque ele não seja convencional", diz. "Quem não tem expressão midiática não existe", ironiza. "Sempre que tem uma verba eu gravo alguma coisa, não paro. Eu me auto-financio, sou auto-sustentável." Baseada nessa realidade, ela pretende fazer um registro ao vivo, "como era nos anos 70". "Vejo o show como uma obra viva."

Além da carreira solo, Mariella toca outros projetos. Um deles é o grupo espanhol de eletrojazz Wagon Cookin", com quem gravou a dançante Everyday Life.

Influência do jazz. Mariella lembra que quis colocar tudo o que sabia no primeiro disco. "Chamei todos os amigos, as pessoas que admirava. Nesse que vai ser o segundo - e adiantei com o lançamento do EP - já tem Som de Aruanda, que é nesse estilo. A poesia do meu trabalho mudou, está mais cotidiana. Influência do jazz sempre tem, porque é o que eu comecei a fazer. O jazz pra mim é mais um modo de fazer música, com liberdade de improviso, não um estilo. Se eu pego um samba-de-roda pra fazer, pode ter certeza que no meio vai ter uma improvisação." Além das investidas jazzísticas, o novo trabalho tem uma marca rítmica muito forte, com funk e soul misturado com ritmos afro-baianos, como o samba-reggae.

A banda que a acompanha é formada por Ângelo Santiago (contrabaixo), Bruno Aranha (teclados), Gilberto Santiago (bateria/vibrafone/samplers) e Lucas Viera (percussão).

Como outros bons novos baianos (veja na galeria de fotos abaixo), Mariella é mais uma boa expressão da música pop baiana "off circuito" desta década, que vem batalhando por seu espaço - a despeito da opressiva imposição da axé music. Surpreendentemente, ela diz que tem até uma galera que em vez de gritar "toca Raul" em seus shows pede "toca Itamar". Isso porque ela participou em 2003 do lançamento de Pretobrás - Isso Não Vai Ficar Assim em Salvador. Como ela era a única que poderia cantar seu repertório lá, foi convidada.

"Itamar causava um estranhamento, esse é o primeiro ponto em que eu me identifico com ele. O fato de ele ser aquela figura esguia, sempre com aqueles figurinos... Eu também crio os meus. Nunca o vi cantar, aqui também não se encontrava os discos dele, mas toda oportunidade que eu tinha ia atrás das coisas dele. O encontro do meu trabalho com a música de Itamar foi uma das coisas mais bacanas que aconteceram na minha trajetória."

MARIELLA SANTIAGO

Studio SP. Rua Augusta, 591, 3129-7040. 3ª, 21 h. Grátis

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Sábado (23/10), às 21 h. R$ 7, R$ 14 e R$ 28

Áudio. Ouça trecho de Cuidado com a Propaganda em

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.