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Ignácio de Loyola Brandão
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Maricas é quem me xinga

Entre os machões estava um de apelido Chola. Feroz, mandão, humilhava o tempo inteiro

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 03h00

Quando criança, lá em minha terra, um dos piores xingamentos era o de maricas. Significava que você era covarde, fraco, desprezível. O maricas – ou mariquinha – era ninguém, via-se isolado, fora do grupo. Naquela época ainda não existia o politicamente correto, os machões dominavam, ser macho era ser mandão, prepotente, dono do território, do falar e pensar, líder, chefe. Quanto mais arrogante alguém era, mais admirado. Ninguém queria ser maricas, homem-mulher. 

Para um menino, ser chamado de mariquinha era um terror. Carimbava. Fosse hoje seria demolido pela rede social, imaginem um efeminado, bicha, pederasta, guaxeba, boneca, jiló, gobira, viado, 3x8. O 24 era o viado no jogo de bicho. Todos tinham pavor de ser o 24 na lista de chamada da escola, virava motivo para bullying, era pior do que ter tuberculose, lepra ou gonorreia. Era ser humilhado com o riso das jovens, levava surra dos pais, ouvia o choro das mães. Fosse religioso, não obtinha a absolvição na confissão, não podia comungar. Ser maricas era um pecado.

Ser maricas ou mariquinha era tormento, a vida tornava-se um inferno. Tive vários amigos assim rotulados. Alguns deixaram a cidade, formaram-se, fizeram carreira. Outros foram destruídos, “carimbados” que estavam. O mundo masculino era implacável. Entre os machões estava um de apelido Chola. Nunca soube seu nome. O pai tinha abandonado a mãe, ele fora expulso da escola. Sua avó comandava o jogo do bicho no bairro. Feroz, mandão, humilhava o tempo inteiro. Ele tinha determinado dezenas de garotos como maricas, dizia que não servem para nada, não enfrentam uma briguinha de fim de aula, se pegam sarampo ou resfriadinho se apavoram com medo de morrer. Certo dia, quando a situação chegou ao insuportável, uniram-se os maricas e os supostamente mariquinhas, porque muitos dos não maricas assim tinham sido rotulados em algum momento de suas curtas vidas. A quadrilha do ódio era ativa. O grupo se armou com pedras, estilingues, cabos de vassoura com pregos e folhas serrilhadas de abacaxi, que cortam dolorosamente. Cercaram Chola no jardim. Intimidado, ele “pulou” para trás, deu o falado por não falado. Chola era conhecido, dizia sim, depois dizia não. Falava pau e depois dizia que era pedra, galo virava galinha. Dizia e desdizia. Atemorizado, ele negou:

“Vocês maricas? Que isso? São machos pra valer. Não! Nessa turma ninguém é maricas. Quem disse que eu disse isso?”. 

“Você disse, xingou. Escorraçou tanto que a gente nem podia sair na rua.”

Atemorizado com a folha de abacaxi ameaçadora diante do rosto, Chola saltou de banda, como se dizia, tirou da seringa.

“Vocês sabem! Me conhecem! Sabem até o que minha mãe diz? Que eu falar e um burro cagar é a mesma coisa. É assim mesmo, sou mentiroso.”

“Mas hoje você apanha ou ...”

“Ou o quê?”

“Vai tomar um vidro de sal amargo.

“Ou uma concha de óleo de rícino”, sugeriu Josué, de todos o mais tímido.

Para quem nunca ouviu falar, sal amargo e óleo de rícino eram os piores purgantes. Gosto horroroso, resultados tenebrosos. Era tomar, esperar um pouco, correr para o banheiro. Às vezes, vergonha, nem dava tempo de tirar a calça.

“Um vidro? Não, um vidro, não. Uma colherinha! Só uma. Uma, uma...”

“Uma para cada um que você xingou.”

E assim aconteceu. Nem calculam. Foram três dias passados na casinha. Depois Chola foi transferido para a Santa Casa onde o bondoso doutor Koury, santo homem, conseguiu estancar a cachoeira malcheirosa e nos garantiu:

“Como médico gástrico, em meus 87 anos, tenho visto que todos aqueles que posam de valentes, corajosos, machões, prepotentes, no fundo não passam de maricões camuflados, enrustidos, envergonhados. Na hora H se borram. Borram e negam tudo”. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ZERO’ E ‘NÃO VERÁS PAÍS NENHUM

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