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Marias latinas

Outubro tornou-se o mês do rosário na tradição católica. São Pio 5o criou a festa para celebrar o êxito cristão na batalha de Lepanto contra a esquadra turca, em 1571.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 03h00

No Brasil colonial, a Virgem do Rosário foi associada a irmandades negras. As brancas buscavam a invocação de Nossa Senhora do Carmo.

No dia 12 de outubro abriram-se as reflexões e festas para os 300 anos do achamento da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Em 2017, com o tricentenário da pesca no Rio Paraíba do Sul, que iniciou a devoção à virgem morena, viveremos uma nova etapa de romarias e festas.

O Brasil descobriu esse culto mariano no período em que a colonização entrava no apogeu do ouro. O México celebra a aparição de Guadalupe logo ao início da conquista espanhola.

As duas virgens, Guadalupe e Aparecida, são morenas. Ambas se identificam com indígenas e negros e reforçam o apelo popular e nacional. O rio da devoção das Marias coloniais iniciou-se de forma singela: um oratório privado do bispo Juan de Zumárraga no México e a humilde capela de pescadores do Paraíba do Sul. Um dos primeiros milagres de Guadalupe foi transformar as rosas colhidas por São Juan Diego numa imagem “achiropita” (não feita pela mão humana) impressa no manto do indígena. Os poderes iniciais de Aparecida são belos na sua simplicidade: velas que se acendem sozinhas, correntes que se partem, pesca abundante e cavalos que emperram na porta da igreja.

Há outro aspecto em comum às tradições. As duas imagens foram alvo de atentado violento. Em 1921 , uma bomba explodiu na basílica de Guadalupe. Os estilhaços maiores foram amparados por um crucifixo que hoje está na nova basílica. Retorcido numa urna, o Cristo testemunha a metáfora do filho que defende a mãe.

Em 1978, a imagem de Aparecida sofreu um ataque devastador. Um indivíduo a espatifou no solo da basílica. A reportagem sobre a restauração e seus inusitados percalços pode ser lida no excelente livro Aparecida, de Rodrigo Alvarez.

Estive muitas vezes estudando a devoção mariana no México e no Brasil. Fiquei horas acompanhando as pessoas olharem para o manto na sua moldura dourada na cidade do México. O mesmo fiz na basílica de Aparecida. É uma experiência única. Naqueles espaços ocorrem fenômenos sociais de fé, de entrega, de alegria comovente, de gratidão e, também, de comércio.

As Virgens morenas da América sintetizam as sociedades latinas em quase todos os aspectos. É fácil ser crítico do que ocorre nos lugares de veneração. O olhar cético verá uma explosão supersticiosa orientada para o lucro e controle de almas ingênuas. As muitas lojinhas parecem clamar por um novo Jesus a virar as mesas dos vendilhões do Templo.

Há muito mais. Aparecida traz ao altar o diálogo com nossa raiz africana. Guadalupe é uma virgem ameríndia. Há que se recordar de outra raiz: em 2017, também lembraremos os cem anos da aparição de Fátima. Ao mundo afro-ameríndio, junta-se o lusitano.

Tenho a sensação de que os cultos de Guadalupe, Aparecida e Fátima contém, como obras abertas, muito daquilo que formou o mundo colonial ibérico. Sociedades complexas, marcadas por racismos e exclusões, chegam aos pés das suas virgens com a totalidade do seu ser. O fiel mariano é o homem na sua inteireza: aproveita um passeio, vive sua fé, traz a família, chora, compra uma lembrança, acende uma vela, reza e usufrui do fast food local. Por fim, ele volta, feliz, a sua casa.

As salas dos ex-votos traduzem uma percepção de mundo e de Maria como advogada dos desvalidos. Há quadros com pintura naïf, cabeças de cera, panelas de pressão retorcidas que explodiram e até diplomas de doutorado. Abundam violões e vestidos de noiva, maquetes de uma casa própria e muitas fotografias. É um museu do desejo coletivo e simples, uma genética latina sobre guarda e amparo. Ali toma forma uma gramática do dom, da proteção e da realidade sobrenatural que paira sobre as pessoas.

Sempre imagino que uma parte expressiva de como funciona a sociedade brasileira está lá. Os políticos tupiniquins deveriam frequentar mais a basílica de Aparecida. Não como fazem tradicionalmente, para ostentar uma fé eleitoreira e seu verniz de tartufismo, a falsa piedade. Deveriam estar lá para radiografar a alma do cidadão anônimo, entender suas demandas mais profundas e aspirar à compreensão daqueles a quem, a rigor, servem com seus cargos.

Já são quase 300 anos que o Brasil profundo faz sua anatomia em público diante da imagem. O volume de pessoas e a história precisariam mover mais estudiosos. O tricentenário brasileiro deveria propiciar maiores pesquisas sobre o fenômeno.

Euclides da Cunha afirmou que o movimento de Canudos era o encontro do Brasil do século 19 com o Brasil do século 17. Talvez fosse. Eu gostaria de provocar imaginando que Aparecida é o encontro do Brasil do século 18 com o Brasil do século 21. Só que o 21 é aquela fé e o 18 é o iluminismo cético. Quem tiver compreensão que entenda. Um bom domingo a todos vocês.

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