Paulo Pinto/AE
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Maria Rita Kehl estreia como cronista no 'Caderno 2'

Psicanalista e escritora vai assinar coluna quinzenal aos sábados, dividindo espaço com Marcelo Rubens Paiva

Raquel Cozer, de O Estado de S. Paulo,

05 Fevereiro 2010 | 05h00

"Eu brinco que, hoje em dia, em 40 linhas consigo escrever até sobre física nuclear", diz a psicanalista, ensaísta e poeta Maria Rita Kehl, de 58 anos, que a partir de amanhã assinará uma coluna a cada dois sábados no Caderno 2, do Estado, em um revezamento com Marcelo Rubens Paiva. A escritora Adriana Falcão, que alternava o espaço com o colunista, deixará de escrever sua coluna para se dedicar a projetos pessoais e profissionais.

 

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As 40 linhas a que Maria Rita Kehl se refere dizem respeito ao aprendizado de seus primeiros anos de vida profissional, no início da década de 70, quando ainda cursava psicologia na Universidade de São Paulo (USP). Era esse o espaço que ela tinha para escrever em cada edição do Jornal do Bairro, então comandado pelo escritor Raduan Nassar, e no qual fazia desde reportagens sobre as mães que viviam na porta da Febem (atual Fundação Casa) até resenhas de volumes de filosofia.

 

Desde então, a paulista nascida em Campinas e criada na capital fez um caminho entre o jornalismo e a psicanálise. Depois de dois anos no Jornal do Bairro, no qual aprendeu fundamentos de reportagem com Nassar e o editor José Carlos Abbate, passou a trabalhar como editora de cultura no periódico Movimento - que, ao lado do Opinião e d’O Pasquim, foi um dos mais importantes órgãos da imprensa alternativa durante o regime militar. Participou também da fundação do jornal Em Tempo e escreveu como freelancer para veículos como Veja, Isto É e Folha de S. Paulo.

 

Após anos de dedicação exclusiva ao jornalismo cultural, Kehl decidiu, em 1979, cursar um mestrado. Optou pela área de psicologia social, embora sua tese, O Papel da Rede Globo e das Novelas da Globo em Domesticar o Brasil Durante a Ditadura Militar, tivesse uma forte ligação com o jornalismo.

 

Apenas depois dessa volta aos estudos Maria Rita Kehl se interessou pela ideia de exercer a profissão na qual se formara - ela havia optado pelo jornalismo durante a faculdade justamente porque, "naqueles anos mais repressivos da ditadura, com professores cassados e professores fugidos, o ensino na psicologia estava muito ruim".

 

Em 1981, começou a atender pacientes - e nunca mais parou. A experiência em sua área de formação a levou ainda, em 1997, a doutorar-se em psicanálise pela PUC-SP, com pesquisa que resultou no livro Deslocamentos do Feminino - A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (Imago, 1998).

 

Embora o título seja sobre psicologia, Kehl vê nele uma "marca dos tempos de jornalismo". "É psicanálise, mas com uma abordagem diferente. É uma investigação que não é nem exatamente de uma historiadora, nem de psicanalista, sobre quem foi a mulher freudiana, a mulher que Freud conheceu no século 19. E uma avaliação de o que naquela teoria está atual e o que não está mais. Acredito que, ao longo da carreira, desenvolvi essa característica de ser mais ensaísta que acadêmica", afirma.

 

Crônicas

 

Maria Rita Kehl é autora ainda de outros seis livros (quadro ao lado), incluindo três volumes de poemas - "do tempo em que eu ainda tinha coragem de publicar poesia" - e o recente ensaio O Tempo e o Cão (Boitempo, 2009), em que aborda o significado da depressão como sintoma psíquico da sociedade contemporânea.

 

Mas os leitores não devem esperar que ela aborde temas como depressão ou a mulher freudiana em sua coluna no Caderno 2. Ao menos não é essa, a princípio, a sua intenção. "A psicanálise é uma profissão à qual me dedico com paixão, mas acho que, se aceitei o convite para escrever nesse espaço, foi para tentar outra coisa. Só vou tocar em temas com os quais lido na profissão quando não tiver assunto, mesmo", brinca.

 

Apesar de se sentir mais à vontade no texto ensaístico e acreditar que se destaca por "um perfil mais analítico ou polemista", Kehl está disposta a experimentar agora um outro formato.

 

"Preferia anunciar isso depois, mas, tudo bem, vou arriscar. Gostaria de aprender a fazer crônicas. É um gênero belíssimo, que pode ser sério na despretensão, até mesmo para falar de política, por exemplo. Dizem que é uma forma menor, mas, para mim, é menor como o conto ou a poesia, no sentido de que trabalha muito mais com elipses, entre o dito e o não dito. É menor pela modéstia, não pela qualidade."

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