Maria Rita dedica novo álbum ao samba

Produção dela mesma e de Leandro Sapucahy, o disco deixa claro que cantora caiu com gosto no samba

Patrícia Villalba, do Estadão,

13 de setembro de 2007 | 18h50

Maria Rita diz que sempre canta seu momento. E o que já foi introspecção é hoje expansão, leveza, música marcada no prato e faca. Influenciada por amizades queridas, ela freqüentou as mesas dos bambas, foi ouvir Fundo de Quintal, Beth Carvalho, ler os livros de Nei Lopes, e decidiu que seu terceiro disco não teria mais o ar dramático que a levou a ser tachada de diva inalcançável. Quis gravar sambas, um repertório particular que pode ser resumido pelo título do CD que chega esta semana às lojas - Samba Meu (R$ 39,50).   Ouça 'Samba Meu'    O samba de Maria Rita não flerta com a parafernália de estúdio ou com os experimentos da eletrônica. É o samba elegante de Arlindo Cruz, bamba dos bambas, que assina nada menos do que 6 das 14 faixas do disco. Sim, ela se cercou dos melhores: o jovem Edu Krieger, que fez a marota Maria do Socorro, Serginho Meriti, da contagiante Casa de Noca, Ronaldo Barcellos e Picolé, de Corpitcho, uma piada atual com um jeito gostoso de antigamente, além de Gonzaguinha, de quem ela grava O Homem Falou, acompanhada da Velha-Guarda da Mangueira.   Produção dela mesma e de Leandro Sapucahy, o disco deixa claro que ela caiu com gosto no samba, e que foi acolhida com amor. Mas isso não significa, diz ela, que virou sambista de vez É o momento.   Estado - A gente ouve o disco e percebe que você foi fisgada pelo samba. Como isso aconteceu?   Maria Rita - É isso mesmo. Essa história na verdade não é novidade, desde o meu primeiro disco (Maria Rita, 2003) tenho um namorico com o samba. De uns dois, três anos para cá, essa relação foi se diversificando. Primeiro, foi a Mangueira que me chamou para o show deles; a Mart’nália, que também me chamou para tocar na Lapa; depois, eu e o Leandro somos da mesma gravadora, ele me apresentou o Arlindo Cruz. Foi uma coisa muito natural. É um disco que não traz nenhuma pretensão minha de ser sambista, pelo contrário, tem mais a ver com a relação do que o samba tem trazido pra mim, alegria. É uma vontade de passar para frente essa alegria.   Estado - Por que um disco só de sambas? Não dá um medinho de apostar num só ritmo?   Maria Rita - Não tenho esse medinho, não. Como venho de relações com pessoas do samba, pessoas muito queridas, esse medo não existe. Como fui muito bem recebida por tanta gente do samba me senti muito à vontade. É um disco que encaro como um projeto especial. Poderia ser, sei lá, "Maria Rita Interpreta Cartola", mas não foi. Juntei à galera mais contemporânea da minha geração com o Leandro, que além de produtor é músico, cantor. A gente se identifica um com o outro. É mais uma declaração de amor. E também uma maneira de eu me divertir um pouco, senti que estava ficando um pouco presa àquele universo das coisas que vinha fazendo. Rolou uma coisa de "diva inalcançável", que não corresponde com o que eu sou. É um momento onde estou me sentindo mais segura.   Estado - São músicas bem leves, se comparadas ao que você cantava antes.   Maria Rita - Sim, por causa mesmo do momento que estou vivendo. Meu trabalho é muito representativo dos meus momentos. O segundo disco, por exemplo, é muito introspectivo, e eu estava mesmo muito introspectiva. E atualmente, como falei, me sinto mais leve, mais segura, mais livre. E acho que o samba tem muito isso, uma sensualidade que não está só na dança, mas no tocar dos instrumentos, nas letras. No disco, tem algumas músicas que falam sobre a sensualidade da mulher que há cinco anos eu não conseguiria gravar.   Estado - Para o intérprete, qual é a senha para cantar samba? Eu pergunto isso porque no começo do disco você pede licença para entrar. É preciso um quê especial para cantar samba?   Maria Rita - Eu escolhi essa música para abrir o disco porque não tenho a pretensão de ser sambista, mas só de expor um lado do que eu vivo, essa música caiu bem nesse sentido. Mas como cantora, peguei num desafio verdadeiro na gravação do disco. Os intervalos, a respiração, tudo foi um desafio.   Estado - Até de suavizar a voz, porque boa parte das músicas é bem-humorada.   Maria Rita - Em algumas canções, sim. Eu carrego essa brincadeira na voz desde os outros discos. Pra Declarar Minha Saudade, por exemplo, eu sussurro, porque para mim ela é uma carta. Trajetória é um pouco mais rasgada, mais sofrida. Meu desafio maior foi mesmo a respiração, mas isso é muito técnico, muito chato para falar agora.   Estado - O CD traz seis músicas de Arlindo Cruz. Foram feitas por encomenda?   Maria Rita - Não, não telefono para compositor para encomendar música. Sou muito tímida, muito envergonhada para fazer isso. São músicas que o Arlindo me mandou. Eram sete, mas uma ele pegou de volta para o disco dele, que vai sair agora, no fim do ano. Foi só uma identificação muito grande. Ele é muito fera, muito gênio no que faz.   Estado - E quando estava produzido o CD, escolhendo repertório, ouviu muito samba?   Maria Rita - Sim, todo o repertório do Fundo de Quintal, e dá-lhe Arlindo, dá-lhe Paulinho da Viola, Chico Buarque, Dona Ivone. Meu iPod está cheião. Comprei livros também, fui logo adquirindo os do Nei Lopes.   Estado - O samba é um mundo à parte.   Maria Rita - Sim, é. É muito representativo da história do brasileiro, muito interligado com a vida do negro no País, ao desenvolvimento da cultura. É um elemento muito representativo da cultura brasileira, por isso acho que é preciso ter tanto respeito pelo samba.   Estado - Além de ser uma delícia de sambar, já aprendeu?   Maria Rita - Não vou ousar dizer que sei sambar, mas posso dizer que brinco.   Estado - Uma marca desse novo disco é o fato de que, ao contrário do que tem acontecido com nomes da sua geração você não quis dar novas roupagens ao samba, fez um disco de samba clássico. A parafernália de estúdio e a música eletrônica não a seduzem?   Maria Rita - Isso realmente não me fascina quanto as brincadeiras em estúdio, no primeiro disco tinha mais. Mas brincar com a sonoridade me interessa muito. Com relação ao clássico que você se referiu, eu quis fazer um disco mais próximo do que eu sinto. Ainda assim, há elementos no disco que são experimentos, não estão tão presentes no samba clássico, como por exemplo o baixo acústico, que pode criar uma confusão de graves com o surdo. O piano, baixo e bateria, que eu trouxe da base dos meus trabalhos anteriores. Isso veio e, você tem razão, tem mais a ver com o samba clássico. Mas também tem a ver com o tipo de som que venho colocando na rua.   Estado - A MPB tem uma galeria de intérpretes que se notabilizaram por lançar compositores. Clara Nunes foi assim, sua mãe, Maria Bethânia. O Marcelo Camelo, por exemplo, apesar do trabalho com o Los Hermanos, foi reconhecido como compositor mesmo depois que você gravou duas músicas dele no seu primeiro CD. Você se preocupa em dar espaço a novos compositores quando está montando repertório de um disco?   Maria Rita - Chego a pensar um pouco, sim. Não é uma condição, de que cada disco meu tenha novos compositores. Não é uma bandeira, claro, que não posso carregar essa responsabilidade toda. Mas poder agregar esse tipo de coisa ao meu trabalho é algo que me deixa realizada. E sempre gostei muito de sair na noite, de conhecer músicos novos. É um prazer mesmo, não uma bandeira.   Estado - É o seu terceiro disco em quatro anos. Para usar uma expressão do mundo do samba, isso é totalmente "deixa a vida me levar" ou é porque você é workaholic mesmo?   Maria Rita - Sou mesmo workaholic, adoro trabalhar. Mas não há planejamento. O segundo disco veio por necessidade mesmo. Porque a partir de um momento depois do lançamento do meu primeiro disco, aquele repertório começou a me pesar. Eu tinha perdido o Tom Capone (produtor, que morreu em 2004), me separei, tive um monte de questões na vida pessoal, e aquelas músicas estavam ligadas àquele peso. Eu senti com necessidade de passar para um novo projeto. Não foi planejado, graças a Deus eu consegui fazer as coisas até agora por necessidade criativa, e não por questões mercadológicas. Agora, também. É um novo momento na minha vida. Eu tinha combinado com a gravadora (Warner) de entrar em estúdio no fim deste ano para só lançar em abril, mas eles me pediram para antecipar. Eu falei "tudo bem, vamos lá", e acabou que todo mundo ficou feliz.   *A repórter viajou a convite da gravadora Warner

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