Fabio Motta/AE
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Maria Paula: 'Fui revoltada, passava dias no quarto, trancada e chorando'

A brasiliense que ganhou fama no 'Casseta & Planeta' fala sobre livro 'Liberdade Crônica', que acaba de lançar

Aline Nunes, Jornal da Tarde

21 de novembro de 2011 | 14h20

Depois de 17 anos fazendo piada com política e satirizando novelas, Maria Paula chega aos 40 anos seguindo filosofias tibetanas, para manter o equilíbrio de corpo e mente e ser uma boa mãe para os dois filhos - Felipe, de 3 anos, e Maria Luiza, de 6, frutos do relacionamento com João Suplicy, de quem se separou há um ano. A seguir, ela fala como as crianças já aprenderam a meditar, que já tietou o dalai-lama e lembra da infância em Brasília - em que estudou em colégio católico e, nas horas vagas, tomava passe espírita. Ela conta sobre as reflexões que faz no livro Liberdade Crônica (Ed. Faces), que acaba de lançar.

Por que você quis discutir assuntos que rodeiam a liberdade?

Eu sou formada em psicologia e durante um tempo trabalhei com terapias corporais. Depois comecei teatro, tomei outros rumos. Aí, em 2005, fui contratada pelo Correio Brasiliense para escrever numa revista e voltei a me interessar por psicologia.

Mas o que te motivou a escrever o livro Liberdade Crônica?

Então, eu fiquei 17 anos entrando na casa das pessoas, (com o Casseta & Planeta), daí comecei a sacar que eu poderia usar essa imagem para falar de coisas fortes, como as escravidões às quais nos submetemos, como o home m valoriza o ‘ter’ em detrimento ao ‘ser’. Tem uma crônica em que eu falo que, na idade da pedra, o homem tinha o predador no cangote e, hoje, o predador é o medo da exclusão, de não ter a roupa da grife, de não estar jovem como se deve.

Então como você enxerga o botox, as plásticas? Você aprova?

Ah, hoje a mulher chega aos 50 anos e está condenada a parecer jovem. Daí ela acaba se automultilando. Cheia de plástica, botox, silicone… Algumas parecem que enxertam banha na boca. Isso nem é humano, né? Todo mundo só vai para as revistas para sustentar essa escravidão da imagem: “Ai, tive um filho há dois meses e já estou sarada de novo”. É um delírio coletivo, uma neurose. A consequência disso são as jovens anoréxicas.

Já se envolveu nessas neuroses?

Eu nunca fui da neurose, tanto que nunca fiz uma plástica. Mas, obviamente, essas questões me assombram, o predador também está no meu cangote. Eu tenho o maior cuidado para separar a minha vida pessoal da minha vida pública. Você nunca me viu em capa de revista falando das minhas intimidades, de corpo. Eu só penso: o mundo vai envelhecer, e o corpo vai cair.

E há 20 anos você tem um psicanalista, é isso mesmo?

Sim! Eu acho que a gente vive num mundo muito doido. Procurar ajuda é absolutamente saudável. Sou super a favor de terapia para todo mundo. As pessoas andam focadas em estética e se esquecem da mente. Eu sempre digo: é bom meditar mais, alimentar a alma, malhar o cérebro….

E como foi o primeiro contato seu com esse psicanalista?

Eu já estudava psicologia, estava me formando… Eu estava trabalhando no Hospital Psiquiátrico Charcot, em São Paulo, e ele era o meu supervisor, meu mestre, meu amigo. Disso resultou muita coisa bacana. Inclusive a coisa da reciclagem emocional.

No livro você fala disso quando lembra a infância em Brasília…

Sim! Tenho muitas histórias lá, de família, amigos. É o lado nostálgico da cidade em que cresci. No livro, faço a revisão da minha vida.

Essa ideia de se reciclar você adquiriu com meditação?

Tudo o que escrevi foi pela minha busca espiritual, emocional, então, eu sou muito influenciada pela filosofia tibetana, oriental… Eu também tenho uma formação em medicina chinesa, estudei os meridianos e como a energia circula nos órgãos. Então, estou sempre lendo, fazendo workshops de meditação. Já fui para a Califórnia (EUA) estudar isso…

E como é essa meditação que você aprendeu? Leva isso para seus filhos ou é difícil?

Então, não é difícil, é mais uma atitude meditativa, que se baseia em selecionar pensamentos, sabe? A meditação é muito isso, ver o que está se passando na sua cabeça. Então, as minhas crianças são os primeiros beneficiários porque assim eu crio um clima agradável em casa. Claro que eu não vou pedir para os meus filhos sentarem em posição de lótus (com as pernas cruzadas).

É curioso que hoje você se apoie nessas filosofias, sendo que na infância você estudou em colégio católico e tomava passes…

Foi uma mistura! Por isso, minha formação é psicanálise, meditação, espiritualismo e tudo junto. Eu sou a somatória dessas diferentes linhas. O dalai-lama veio ao Brasil e fui encontrá-lo. Essas coisas eu não perco de jeito nenhum (risos). Fui a primeira a chegar, às seis da manhã. Fiquei no auditório sentada, feliz da vida…

 

 

Essa atmosfera leve que você busca ajuda a educar os filhos?

Sim, mas aquisição do limite é fundamental. A criança precisa saber que tem alguém cuidando. Mas as pessoas confundem isso com ditadura. Eu tomo o maior cuidado do mundo. Quando vou falar uma coisa séria com algum deles, eu me abaixo, me ajoelho, para ficar do mesmo tamanho que eles, para olhar nos olhos e falar com firmeza, mas com delicadeza. A gente educa na base do jeitinho, não adianta ir na base do tapa. Aprendi isso em casa. Eu sou a caçula (de três irmãos) e minha mãe sempre foi carinhosa. Nunca apanhei. Por isso quero ser uma mãe legal.

Você tem uma fazenda em Goiás. Seus planos de vida envolvem envelhecer por lá?

Ah, eu adoro ir ao teatro, ver uma filarmônica tocando… Vou ficar um tempo lá, curtindo o silêncio, mas com um pezinho aqui para também ir a um Rock in Rio…

Você se define como tranquila. .. Mas já viveu uma fase Maria Paula louca, né?

Eu fui uma adolescente normal, que era revoltada, que passava dias no quarto, trancada e chorando… Eu sou exagerada e dramática (risos). Já fui desajustada, já me senti inadequada, mas a gente vai se ajustando, aprendendo.

Nessa fase, alguma vez já tomou porres ou usou drogas?

Eu não sou do tipo que tem culpa de nada. Eu já bebi, fumei, fiz coisas que não são saudáveis, que não me fizeram bem. Mas, graças a Deus, eu aprendi que aquilo não era bom e mudei os meus padrões. Hoje em dia, não fumo, não bebo, sou mega atenta ao meu corpo. Só não adianta ficar se lamentando. Não deu certo, não deu. Daqui a pouco vai dar…

Você ficou por 17 anos no ‘Casseta’ satirizando a política. O que acha da administração atual?

Tá feia a coisa, né? Eu fico sem acreditar que até hoje a gente vive num País em que as pessoas roubam, superfaturam, fazem coisas ilegais… O problema é a mentalidade, sabia? A nossa sociedade desvaloriza tanto quem não tem, que esse pensa que, quando tiver, que, ao invés de corrigir o errado, vai fazer pior. Então fica desejando ter uma oportunidade e ir lá e roubar mais do que os outros. A gente precisa prestar atenção na gorjeta para o guarda, no emprego que você vai oferecer para o seu cunhado…

Você diz que sonha com o dia em que as pessoas vão se relacionar sem medo. Você se refere ao lado sexual?

Também. Sou uma pessoa família. Eu trabalho para dar boa educação aos meus filhos e ter uma estrutura familiar. Não sou muito de oba-oba. Eu sou focada nas relações resistentes, que passa também pela sexualidade, entende?

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