Maria do Saco inspira "Maria Peregrina"

Maria do Saco é uma figura conhecida na cidade de São José dos Campos, no Vale do Paraíba - durante quase 20 anos, ela viveu nas ruas do bairro de Santana, um dos mais antigos do município, tendo como abrigo apenas as árvores das praças. Ao morrer, em 1964, tornou-se uma figura mítica: a dona de uma pensão do bairro, conhecida por Maria Mulata, atribuiu a Maria do Saco o milagre de ter curado seu filho doente mental. Desde então, seu túmulo se tornou uma espécie de santuário, atraindo diversos peregrinos.A história de Maria do Saco despertou o interesse da Cia. Teatro da Cidade, de São José, que pediu ao dramaturgo Luís Alberto de Abreu a criação de uma peça. Entusiasmado com a idéia ele escreveu Maria Peregrina, que estréia amanhã, no Tusp. Como estava envolvido com a pesquisa de um teatro narrativo, que tivesse o saber e o encanto das histórias contadas à beira do fogão à lenha, Abreu chegou ao estudo da estrutura da dramaturgia clássica japonesa, o teatro nô, e propôs ao grupo de São José o desafio de se adotar uma nova forma de olhar o teatro."Aceitaram e fizemos uma forma teatral antiga, desenvolvida no oriente há mais de 500 anos que nos ajuda a dizer coisas de agora", comenta Abreu. A partir das reduzidas informações sobre Maria do Saco (não há registro sobre seu nome verdadeiro, idade ou mesmo fotos), o dramaturgo criou três histórias que buscam desvendar a origem de sua personagem, apoiando-se mais no ficcional que na verossimilhança.No início da peça, Maria Peregrina surge sem memória e é auxiliada por um romeiro a relembrar fatos de sua vida. A partir de suas divagações, surgem diversas hipóteses sobre seu passado. "Daí ela conta três diferentes histórias: uma de paixão, outra cômica (que me inspirei em um conto de Monteiro Lobato) e uma terceira que recria um texto do teatro nô, que adaptei como Às Margens do Rio Paraíba, comenta Abreu.As formas distintas de contar uma história permitem ao dramaturgo discutir um assunto que muito lhe interessa: a busca das origens. "Como Maria Peregrina, não somos todos personagens que aos poucos vão esquecendo a origem?", questiona Abreu, que se interessou especialmente pelo convite da Cia. Teatro da Cidade por ser um grupo do Vale do Paraíba. "Trata-se de uma região riquíssima de histórias, que estão se perdendo", argumenta. "A tradicional figura do caipira, por exemplo, está sumindo, o que é lamentável."A busca pela identidade é o fio condutor da peça, que aponta um problema vivido nas grandes cidades. "Vivemos sem um perfil definido e, como Maria Peregrina, somos um personagem em busca de sua história." A peça, dirigida por Cláudio Mendel, tem uma trilha sonora interpretada pelos próprios atores, composta por músicas populares e religiosas da região. (U.B.)Serviço - Maria Peregrina. De Luís Alberto de Abreu. Direção: Claudio Mendel. Duração: 65 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 15,00. Tusp. Rua Maria Antônia, 294, tel. 255-5538. Até 30/09

Agencia Estado,

06 de setembro de 2001 | 18h24

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