Maria da Graça

O toque imaculado da pianista Maria João passou por SP

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h09

Apolo e Dionisos juntos, no mesmo concerto; a beleza clássica, exalando uma perfeição que beira o absoluto, no caso do concerto n.º 17 para piano de Mozart; e a praticamente expressionista sinfonia n.º 8 de Shostakovich, imponente "lápide" sonora escrita em 1943, denunciando toda forma de terror, sobretudo o stalinista, sob o qual viviam os russos, ainda por cima sitiados externamente pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial.

O público saiu para o intervalo inebriado com a notável pianista portuguesa Maria João Pires, em plena forma aos 68 anos. Dedos levíssimos, articulação precisa, fraseado encantador - e um toque imaculado, tanto quanto a música de Mozart, joia máxima da coroa do período clássico europeu entre 1760 e 1800, quando no continente inteiro compositores e músicos respiravam a mesma linguagem, os mesmos ideais, o mesmo tipo de estilo musical.

Na verdade, aquele foi um momento breve, entre dois grandes períodos - o barroco que o antecedera e o romantismo que já estava ali, às portas, como a João demonstrou no momento mais eletrizante do concerto de anteontem na Sala São Paulo. O extra transformou-se num instante mágico. Sete minutos - é o que dura o segundo dos quatro improvisos opus 142, D.935, de Schubert. Começa e termina como um melancólico lied com o tema principal exposto em acordes, encaixando na parte central um trio tecido com arpejos rápidos do trio e tercinas (três notas, em vez de duas, em cada tempo) de colcheias. É uma das peças isoladas mais tocadas e massacradas por estudantes; por isso mesmo, dificílima de ser interpretada com a magia que a João lhe imprimiu. Respirações em suspenso, comunhão completa de palco e plateia pela música - e um maldito celular tocou duas vezes, tirando todo mundo do transe (você pode ouvir este e os outros três impromptus op. 142, e também os quatro do op. 90 num álbum duplo de 1998 da Deutsche Grammophon).

No concerto n.º 17, K. 453, o momento culminante sem dúvida foi o Andante central, objeto de um artigo atrevido e delicioso de Susan McClary na revista-programa bimestral da Osesp. Faltou dizer, como faz Simon Keefe em outro belo artigo não disponível em português, que Mozart obtinha dos sopros um efeito desproporcional em seus concertos para piano. Ou seja, sua escrita faz poucos instrumentos ocuparem um espaço sonoro gigantesco, em contraposição às cordas. Neste caso, pares de flautas, oboés, trompas e fagotes.

O maestro holandês Lawrence Renes, de 42 anos, substituiu muito bem seu compatriota Jaap van Zweden, originalmente escalado para este concerto. Colocou os sopros à esquerda, em destaque em Mozart - e de certo modo provou, na prática, a tese de Simon Keefe. Em Shostakovich, deslocou os metais para a direita do palco, do ponto de vista do público, e os contrabaixos para o fundo.

Aos que foram embora no intervalo ou saíram depois de cada movimento da sinfonia, fiquem sabendo que perderam outro momento memorável da Osesp: Renes, que já comandou a orquestra da BBC nesta sinfonia, possui uma regência clara, precisa. E os músicos responderam ao empenho do maestro com uma performance muito boa, sobretudo das madeiras. Renes soube manter a tensão em nível extremo durante os mais de 25 minutos do Adagio-Allegro-Adagio inicial, sem o que este mamute soa fragmentado, tedioso.

Nos três movimentos seguintes, Shostakovich empilha três marchas bem a seu estilo. E conclui em pianíssimo, ou melhor, não conclui a sinfonia segundo os moldes do jdanovismo soviético. Por isso foi muito criticado na época. Hoje, como escreve Lauro Machado Coelho em sua excelente biografia do compositor (Editora Perspectiva, 2006), a oitava se impõe como "a mais impressionante" entre "as grandes obras inspiradas pela Segunda Guerra Mundial".

Crítica: João Marcos Coelho

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