Maria Bonomi leva sua arte peregrina aos ingleses

Artista abre nesta terça-feira, na Galeria 32, sua primeira mostra individual em Londres

Flávia Guerra, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2009 | 09h55

Maria Bonomi ganha hoje sua primeira exposição individual na Inglaterra. A Galeria 32, interessante espaço anexo à Embaixada Brasileira em Londres, leva ao coração do West Side londrino uma significativa mostra da artista brasileira. Apesar de ser um espaço pequeno, se comparada à retrospectiva que ocupou a Pinacoteca do Estado no ano passado, a mostra da 32 faz um recorte preciso dos tópicos mais importantes da carreira da artista, que é referência quando o assunto é esculpir o tempo nos veios da madeira. Estão lá obras que ajudaram a definir o perfil de uma trajetória calcada na investigação da memória como ferramenta de criação de uma arte preocupada em dialogar com o público, sem a necessidade de perder seu caráter particular.

Se não tem o mesmo privilégio do público brasileiro, como a de poder se deliciar com o painel Epopeia Paulista em plena Estação da Luz, o público inglês tem a vantagem de conferir obras como a inédita Transformed. Com dois metros de altura, essa xilogravura foi criada por Maria para a ocasião. "Na verdade, ela faz parte de uma coleção maior de gravuras, a Integration, que há pouco foi adquirida integralmente pela Bolsa de Valores de São Paulo", explica Maria. Confeccionada sobre papel japonês, em tons de azul e cinza, a obra dialoga com as duras linhas geométricas das grandes metrópoles.

Outros destaques são Love Layers (2008), Tetraz (2003) e Tropicália (1994). "A Tropicália está aqui da mesma maneira que estava na Pinacoteca, com as matrizes e como gravura. Há também a Sex Appeal (1985) e Epigrama (1984)", conta ela. "Não tem um caráter de exposição diplomática. As gravuras estão presas com grampinhos, o papel está exposto para ser tocado. Tudo informal. Esta mostra é apoiada na seleção da Pinacoteca em uma escala menor, mas significativa."

Não por acaso, a mostra tem apresentação de Marcelo Mattos Araújo, diretor da Pinacoteca. "O Marcelo foi muito afetuoso e a curadoria, a cargo da Maria Helena Peres Oliveira e do João Guarantani, também me deixou muito feliz. Não é uma seleção ?cabeça?. O destaque está no sensorial. É cheia de libido, de emoção, em vez da razão de uma curadoria tradicional."

Para completar, a faceta ?arte pública? de Maria é revelada em quatro vídeos assinados pelo videoartista Walter Silveira. "Não poderia deixar de abordar essa vertente. Principalmente aqui, onde esse caráter é tão interessante. A Inglaterra tem sabor especial. Foi com um professor inglês, nos anos 70, que eu aprendi muito. Fui selecionada para um curso que abordava justamente a arte revolucionária. Esse professor nos aproximou da experiência das instalações, que na época era algo muito avançado. Foi então que percebi que havia uma vertente acadêmica que queria romper com os academicismos. Esse professor me dizia: Maria, no limits!"

Romper os limites é palavra de ordem quando o assunto é a arte pública de Maria. Muito por isso, descobrir onde se escondem, e se encontram, os artistas urbanos de Londres era uma das tarefas em sua lista de afazeres. Sempre atenta ao tempo e espaço em que navega, durante a conversa com o Estado na semana passada, Maria queria saber onde era o endereço da arte urbana londrina. "Não há muita arte pública nas estações de metrô da cidade?", pergunta ela. Diante da resposta negativa, começou a ter ideias para provocar e dialogar com o cosmopolita morador da cidade. "Esta cidade tem um lado muito duro, mas percebo a vontade de romper com tudo. É nesse sentido que a gente se encontra. E há tanto o que ser explorado aqui. As pessoas poderiam contribuir com as obras, com suas próprias histórias, como fizemos na Luz."

De fato. Não seria nada mal se Londres ganhasse sua Epopeia Londrina. Memórias e camadas de história não faltam.

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