Maria Bonomi cria obra no Memorial da América Latina

Nos arredores do Memorial da América Latina, o movimento diário pode chegar a cerca de 30 mil pessoas - tanta intensidade de gente se dá todos os dias, principalmente, porque ao lado do extenso conjunto de prédios e concreto arquitetado por Oscar Niemeyer está o terminal da Barra Funda, com metrô, ônibus e trens, um dos maiores da metrópole. A criação de uma obra de arte pública numa região dessas seria, para qualquer artista, um privilégio. Melhor ainda se se trata de ser uma artista do calibre de Maria Bonomi. Desde o fim do ano passado ela e sua equipe vêm-se dedicando à criação de um painel permanente para ficar abrigado no túnel da entrada principal do Memorial da América Latina. "Para mim, é a obra mais importante da minha carreira", diz a veterana artista, de 70 anos. É um projeto de fôlego, que trata de um tema para o qual muita gente fecha os olhos: a questão indígena (mais ainda, a presença indígena em nosso território e sua contribuição para a formação de nossa cultura). O próprio Niemeyer reconhece que o Memorial precisa de ter em seu espaço uma obra sobre esse tema (leia texto abaixo). "É uma história verdadeira, que tem de ser contada", defende a artista. Sua obra, intitulada Etnias: Do Primeiro e sempre Brasil, será formada por três fases, em cerâmica, bronze e alumínio, para contar essa história das etnias, sua presença e evolução. No centro do túnel, placas interativas, formando um corredor de 30 metros de comprimento, se transformam em espaço para o público passar e se inteirar nesse universo contado - não poderia ser esta apenas obra de contemplação estática. O trabalho funcionará como um grande fotograma da história, chegando até a uma visão contemporânea do tema - ele ainda se completa com espelhos, colocados nas paredes paralelas do túnel, o que contribui para a infusão total de público e obra. Mas interessante é também o processo de fatura da obra. Desde março a artista criou um ateliê livre no subsolo da Galeria Marta Traba do Memorial. Além de artistas de outros países, Maria Bonomi convidou índios de reservas próximas a São Paulo para também criarem algumas das placas, trazerem suas visões de dentro. No dia em que a reportagem do Estado esteve no ateliê, Lisio Kuaray Mirim, da Aldéia Tenondê Porá, e Tupã Mirim Karaí de Oliveira Paulo, da Aldéia Krukutu, ambos de origem guarani, estavam ainda finalizando algumas placas em argila, que depois serão fundidas. Lisio conta que um dos trabalhos era a representação de um calendário guarani - o ano-novo para eles se inicia em julho. "A outra fala da situação de nossa aldeia. Estamos lutando pela ampliação da terra, estamos sendo encolhidos", diz Lisio - sua aldeia fica na região de Parelheiros, a cerca de duas horas da cidade . Ele também aponta para um detalhe da obra, os peixes representados mortos por causa da poluição dos rios. Há espaço para esse tipo de denúncia, mas há também muito de poesia: em outra placa, um pajé está representado com seu cachimbo e dele as palavras sábias saem pelo ar até chegar ao sol. Maria Bonomi coloca, enfim, uma obra de criação coletiva - inegável que lá em outra placa está sua marca de grande gravadora, das mais importantes do País, mas a grande força desse trabalho está na diluição de conceito e experiência conjunta, na divisão da autoria e fatura. Tantas pontos fortes num mesmo trabalho, mas, infelizmente, até agora a artista não conseguiu patrocínio para essa realização. Desde novembro, quando Maria e sua equipe montaram o ateliê livre no Memorial mesmo, as despesas vêm sendo bancadas pelo Atelier Maria Bonomi - infelizmente, também, hoje o ateliê livre será desalojado do subsolo da Galeria Marta Traba porque a instituição necessita do espaço. "Mas esse painel vai sair, temos de fazê-lo", diz a artista - as placas em argila já estão prontas para serem fundidas. O projeto Etnias, aprovado pela Lei Rouanet em setembro do ano passado, está orçado em R$ 1,7 milhão. A artista propõe uma divisão desse total em 34 cotas de R$ 50 mil - além da obra em si, o projeto inclui um livro e os patrocinadores poderão escolher placas para si, "placas de uma obra infinita, tombada", como reforça Maria Bonomi.

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