Maria Adelaide Amaral encontra teatro de Saramago

A dramaturga Maria Adelaide Amaral tornou-se uma referência em adaptações televisivas com apenas dois trabalhos: as minisséries Os Maias, inspirada no romance de Eça de Queirós, e A Muralha, que tem como ponto de partida a obra da escritora Dinah Silveira de Queirós. No início deste mês, ela concluiu mais uma adaptação, desta vez para o teatro, arte em que teve sua primeira obra montada (Bodas de Papel) em 1978.O Evangelho segundo Jesus Cristo, baseado em texto do Prêmio Nobel José Saramago, deve ser levado ao palco pelo diretor José Possi Neto. A estréia está prevista para o dia 20 de novembro, no Sesc Vila Mariana. O elenco está sendo definido. As mais de 400 páginas do romance, que reconta a vida de Jesus e sua relação com Deus e o Diabo de modo nada ortodoxo, estão agora condensadas em 77 páginas de diálogos como este que segue:Jesus - E qual foi o papel que me destinaste no teu plano?Deus - O de mártir, meu filho, o de vítima, que o que de melhor há para fazer é espalhar uma crença e afervorar uma fé.Jesus (tremendo de frio e balbuciando) - Disseste-me que me darias poder e glória...Deus - E darei, darei, mas depois da tua morte.Difícil relação - "Sempre achei outro livro de Saramago Memorial do Convento, o seu melhor trabalho", conta Maria Adelaide. "Quando o li, comprei dezenas de cópias para presentear meus amigos." Mas a relação da dramaturga e escritora, nascida na cidade do Porto, com o conterrâneo passou por momentos complicados. "Ele me derrubou com Jangada de Pedra, que achei um porre. Tenho paciência de Jó e, para mim, é um desafio: nenhum autor me derrota, sempre quero ler até o fim. Mas, quando cheguei na página 30, pensei: também não preciso sofrer, e deixei de lado."O convite para adaptar Saramago, portanto, não foi, inicialmente, bem-vindo. Mas ela decidiu abrir o romance que recebeu da produtora, leu a primeira página e não pôde mais parar. "A relação de Jesus com Deus e o Diabo é fantástica, é um livro grandioso, uma grande obra da literatura universal; ele não precisaria ter escrito mais nada além de Memorial do Convento e O Evangelho para ganhar o Nobel."Como o crítico literário norte-americano Harold Bloom, autor de O Cânone Ocidental e de Como e Por Que Ler, Maria Adelaide acredita que ler Saramago é estar pronto para ser surpreendido, pois seus livros são completamente diferentes uns dos outros, é um autor que não se repete.No caso de O Evangelho segundo Jesus Cristo, ela nota uma qualidade especial nem sempre presente no autor, na sua opinião: os diálogos. Por isso, em vez de assinar a peça como adaptadora, escreve que o texto é de Saramago e a dramaturgia de Maria Adelaide.É algo bastante distinto dos trabalhos para a televisão recentes. Quando, numa reunião da TV Globo, sugeriu a realização da minissérie A Muralha, pensava que a obra que havia lido aos 14 anos passava-se no século 16. Ao reabrir o livro, viu que na verdade, o romance situava-se na São Paulo do século 18. Resolveu contar, então, a história dos avós dos personagens da trama. Durante o trabalho, afirma ter deixado a obra "de lado" - até por sua visão ufanista dos paulistas, uma construção mais ideológica que histórica (o livro foi lançado no ano do quarto centenário de São Paulo). Se há um autor que influenciou , A Muralha, explica, foi Almeida Garret, com sua peça Frei Luís de Souza. "Em vez de utilizar a linguagem seiscentista, ele construiu uma nova, clara suficiente para ser compreendida pelo público de sua época, mas com uma erudição que remetia ao passado; procurei fazer isso também com A Muralha", que acabou sendo ambientada no início do século 17.No caso de Os Maias, o processo foi outro. A obra-prima de Eça não saiu do lado de sua escrivaninha. "Na abertura da minissérie, coloquei ´inspirado em Os Maias para que os queirosianos não me chateassem", diz ela. "Mudei algumas coisas: fiz, por exemplo, Carlos Eduardo se despedir de Maria Eduarda, não havia no livro", continua. "Mas Os Maias não foi apenas adaptado: há diálogos ipsis litteris, era uma obra conhecida, citada, esse era o produto que estava vendendo."Embora a mudança no fim - que tornou Carlos Eduardo um personagem mais aceitável, do ponto de vista moral, e, talvez, mais romântico - e a inclusão de um núcleo baseado em A Relíquia tenha provocado polêmica, a minissérie apresentou, durante quase todo o seu decorrer, segundo várias críticas, um alto grau de fidelidade ao ambiente queirosiano. Para isso, Maria Adelaide cumpriu uma missão pouco comum aos autores de televisão: acompanhou a edição, atenta, especialmente, aos erros nas falas dos atores. "Eles freqüentemente misturavam o tu com você; se aqui isso é aceitável, em Portugal é horrível", conta. Quando isso acontecia, os atores eram chamados a dublar os trechos. Maria Adelaide também acompanhou a edição da versão que a Globo está vendendo no exterior da minissérie. Com menos capítulos, excluiu o trecho ligado ao A Relíquia - que se transformou numa minissérie à parte, com oito capítulos.

Agencia Estado,

22 de agosto de 2001 | 17h47

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