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Marco Nanini exercita sua versatilidade como ator em monólogo

'A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir Um Aumento' é inspirado em Georges Perec

Ubiratan Brasil / RIO,

04 de setembro de 2012 | 21h56

Funcionário mediano de uma grande empresa, um homem decide pedir um aumento de salário. E, para evitar o famigerado "não", ele levanta antes todas hipóteses possíveis, a fim de se preparar para qualquer tipo de situação. Segue-se um emaranhado de probabilidades que impede o empregado de concretizar o pedido. Com esse fio de história, Georges Perec (1936-1982), um dos mais brilhantes escritores franceses contemporâneos, construiu um exercício de linguagem em A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir Um Aumento, publicado aqui em 2010 pela Companhia das Letras, com tradução de Bernardo Carvalho.

"O livro tem um esquema matemático bem ao gosto de Perec, o que permite também exercitar a linguagem teatral de forma estimulante", observa o diretor Guel Arraes que, fã das experimentações, compartilhou com o ator Marco Nanini o desafio de levar o texto para o palco. O resultado é um monólogo, que estreia sexta-feira, 7, no Teatro do Centro Cultural Correios, no Rio de janeiro.

Essa era a dificuldade enfrentada pela dupla, que já trabalhou em parceria em O Burguês Ridículo (1996) e O Bem Amado (2007): assumir o compromisso de montar um texto que não tem narrativa, tampouco uma história clássica. "As falas são basicamente as mesmas, sempre repetidas, com variações que demonstram os diferentes estados de humor do personagem", comenta Nanini que, em cena, ora apresenta um homem honrado pela posição em que ocupa na empresa, ora um empregado desgastado, que se julga desprestigiado pelo patrão.

A ideia de montar a peça surgiu quando ator e diretor trabalhavam em O Burguês Ridículo - Guel apresentou a Nanini uma versão teatral escrita pelo próprio Perec. "Adoro matemática e essa narrativa esquemática, que traz possibilidades de caminhos, me encantou imediatamente", conta Guel, que chegou a ver pessoalmente o escritor francês, em Paris. "Foi no fim da década de 1970, quando fui a um pequeno bistrô acompanhado de meu irmão", relembra. "Perec recém se tornara uma celebridade, com o sucesso do livro A Vida Modo de Usar, e era fácil reconhecê-lo, com aquela vasta cabeleira que praticamente se unia à barba."

Apesar do entusiasmo da dupla, o projeto não vingou naquele ano de 1996 e só voltou a ganhar força agora, graças ao Galpão Gamboa, criado por Nanini e pelo produtor Fernando Libonati em 2007, no Rio. Além de oferecer espaço para ensaios de grupos teatrais, eles organizaram um projeto social que leva cursos e oficinas para a população da zona portuária. Hoje, o Galpão é um sucesso, com mais de 30 espetáculos lá encenados.

"Como não sabíamos se conseguiríamos patrocínio para um monólogo tão diferente, começamos a ensaiar no Galpão Gamboa sem compromisso, pois, de qualquer maneira, já tínhamos um espaço para montar", conta Nanini, animado com o desafio de encenar um texto sem enredo.

A adaptação foi um trabalho cuidadoso. O primeiro passo foi transformar a ação em uma espécie de palestra de autoajuda - ou "antiajuda", como define o diretor. Assim, um homem vestido de forma conservadora ocupa o palco onde estão apenas uma mesa e minitotens. Da sua pasta, ele retira papéis os quais trazem apontamentos sobre o tema da palestra, justamente A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir Um Aumento.

Segue-se um intrincado manual combinatório de probabilidades para a hora em que vai procurar o seu chefe e pedir o esperado aumento. No decorrer das muitas tentativas, o texto sublinha o ridículo da situação e, ao retratar os meandros de uma grande empresa, ironiza a vida moderna e o mundo corporativo.

"Nossa intenção era tornar o texto mais popular sem descaracterizá-lo, daí a opção pelo humor", comenta Guel Arraes que, para isso, apoiou-se totalmente no talento de Marco Nanini. Com um timing perfeito, o ator utiliza todos seus recursos para, com gestos e inflexões de voz, revelar os diferentes estados de espírito do funcionário que passa a vida agarrado à chance de conseguir um aumento. "Há uma ironia sutil e também uma compaixão rondando esse personagem", comenta o ator.

Ao longo da palestra, recursos visuais também são utilizados - criados por Batman Zavareze, são projeções que ajudam a identificar o organograma de possibilidades apresentado pelo palestrante, além de reforçar os prós e os contras com o surgimento das palavras "sim" e "não". As imagens também permitem que o ator saia de cena por alguns momentos, marcando a mudança de cena.

O cenário serve como importante apoio, pois, formado por totens com tonalidade cinza, serve como tela e delimita o espaço do palestrante. "Minha inspiração foi o design modernista dos filmes de Jacques Tati", confidencia a cenógrafa Bia Junqueira. O monólogo ainda não tem prazo para estrear em São Paulo, pois já possui temporadas previstas no Galpão Gamboa (março) e no Teatro Ipanema (abril).

 

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