Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Marco Nanini estreia monólogo

Ator faz curta temporada de 'A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento'

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2013 | 02h14

Pedir aumento não é uma tarefa fácil, assim, para facilitar, um homem preparou uma espécie de manual com dicas para evitar o famigerado "não". Eis o ponto de partida de A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento, monólogo com Marco Nanini que estreia nesta sexta no teatro do Sesc Vila Mariana, depois de cumprir temporada por diversas capitais brasileiras.

"O desafio é apresentar um texto que não tem narrativa e com falas que são basicamente as mesmas, sempre repetidas, com variações que demonstram os diferentes estados de humor do personagem", conta o ator, que participou ontem de uma entrevista ao vivo na TV Estadão. Em cena, ele vive um instrutor que, diante de uma plateia imaginária, apresenta as diferentes formas de se pedir um aumento de salário.

Por conta disso, Nanini oferece ao público generosas doses de seu grande talento, pois ora apresenta um homem honrado pela posição em que ocupa na empresa, ora um empregado desgastado, que se julga desprestigiado pelo patrão.

O texto da peça foi originalmente publicado em livro em 1968, por Georges Perec (1936-1982), um dos mais brilhantes escritores franceses contemporâneos, e lançado no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras, com tradução de Bernardo Carvalho. Trata-se de um intrincado manual combinatório de probabilidades para o momento em que um empregado decide procurar seu chefe e pedir a retribuição que considera justa. No decorrer das muitas tentativas, o texto sublinha o ridículo da situação e, ao retratar os meandros de uma grande empresa, ironiza a vida moderna e o mundo corporativo.

E quem conhece a obra de Perec não se assusta ao se deparar com um texto tão matematicamente esquematizado. Morto precocemente aos 46 anos, em decorrência de um câncer no pulmão, o francês deixou uma obra de poucos volumes. A importância, porém, não é proporcional à quantidade - se tivesse escrito apenas A Vida Modo de Usar, livro aclamado como uma espécie de continuação de Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, Perec já ocuparia um lugar de honra ao lado de nomes como James Joyce e Jorge Luis Borges.

"A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento traz algo totalmente diferente do que estamos acostumados a fazer. O texto não tem narrativa, não existe uma história clássica, mas tem aquilo que sempre nos ligou: o humor", comenta o diretor do espetáculo, Guel Arraes, em seu terceiro projeto teatral com Nanini, depois de O Burguês Ridículo (1996), codirigido por João Falcão, e O Bem Amado (2007), em que dividiu a direção com Enrique Diaz.

Para o encenador, mais que autoajuda, o que se vê no palco é uma palestra de 'antiajuda'. "O livro tem um esquema matemático bem ao gosto de Perec, o que permite também exercitar a linguagem teatral de forma estimulante", comenta Guel, que partiu de uma versão feita pelo próprio Perec para o rádio para montar o espetáculo.

Perec era um escritor que tinha o controle formal como necessidade básica - na verdade, uma exigência. Durante anos, ele foi o responsável pelas palavras cruzadas publicadas pelo jornal Le Point, ou seja, não era um sujeito que se sentisse refém das regras autoimpostas, mas, ao contrário, vivia estimulado. Por conta disso, logo se tornou membro do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, laboratório de literatura potencial), grupo formado em 1960 pelo escritor e matemático Raymond Queneau e pelo enxadrista François Le Lionnais, do qual também fazia parte Italo Calvino, entre outros, e cujo principal interesse era a aplicação de qualquer tipo de restrição à literatura. Para eles, era preciso impor uma disciplina à criatividade, pois somente o rigor e o controle permitiam ao autor renovar.

"Guel sempre se interessou pela obra de Perec e acabou me apresentando a ela", conta Nanini, que apresentou o monólogo em diversas cidades e capitais brasileiras, colecionando experiências diversas. "Notei que as pessoas para quem um aumento salarial provocaria uma mudança significativa em suas vidas é que entendiam melhor o texto", observa o ator que, em cena, conta com recursos visuais - criados por Batman Zavareze, são projeções que ajudam a identificar o organograma de possibilidades apresentado pelo palestrante, além de reforçar os prós e os contras com o surgimento das palavras "sim" e "não". As imagens também permitem que o ator saia de cena por alguns momentos, marcando a mudança de cena.

Na entrevista à TV Estadão, Nanini comentou também sobre fatos atuais, como a ação dos black block e a reação da polícia ("Eu me assusto como a violência passou a dominar os encontros") e a questão das biografias autorizadas ("Não apoio a censura prévia, mas a justiça deveria ser mais rápida para reparar danos morais").

A ARTE E A MANEIRA DE ABORDAR

SEU CHEFE PARA PEDIR UM AUMENTO

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000.

6ª e sáb., 21h; dom., 18h. R$ 6,40/ R$ 32. Até 1º/12.

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