Márcia Carlos seduz público e crítica de Paris

Por excesso de modéstia e de pudor, a escultora carioca Márcia Carlos levou tempo para admitir a idéia de realizar uma exposição individual. E não tem por que se arrepender, agora, do fato de haver, enfim, aceito o desafio de começar suas experiências nesse domínio - e de modo ambicioso: expondo uma síntese de seu trabalho direto em Paris, na conceituada Galeria Debret, próximo dos Champs Elysées, até o dia 18.A originalidade, a força simbólica, a ousadia das formas e o sentido de liberdade que informam suas criações em vidro reciclado com incrustações de ouro, platina e hieróglifos, estão seduzindo o público e a crítica parisienses. Com o título Translúcida, a mostra já foi objeto de elogiosas reportagens da TF-1, principal televisão francesa, e da Rádio France Culture. É recomendada nas revistas e guias de arte mais exigentes da cidade.A exposição compreende 16 peças esculpidas em vidro natural, transparente: são representações de larvas, tótens, peixes e furacões, com dimensões variando entre 80 centímetros e 3,80 metros. Esse mesmo conjunto integrará o acervo da grande exposição que a artista realizará, no próximo ano, na Casa França-Brasil no Rio.Os colecionadores e instituições que já adquiriram peças expostas na Debret concordaram no ato em colocá-las à disposição da Casa França-Brasil para a nova mostra. Os preços variam em média entre US$ 450 a 5 mil para as peças de tamanhos pequeno e médio, mas podem chegar a US$ 50 mil (no caso do grande Totem com inscrições hieroglíficas).Na sua saga com o vidro, Márcia compõe um mundo primitivo, inquietante, agressivo mesmo, mas do qual o público descobre a suavidade, a leveza e a magia por meio das formas modeladas, de seus movimentos, das superfícies ligeiramente onduladas e dos jogos de luz, que dão vida e calor ao material originalmente "inorgânico" ou "congelado", segundo a expressão da artista.O toque de sofisticação vem das aplicações em ouro e platina, inclusive das inscrições hieroglíficas, para cuja elaboração ela se inspirou no grafismo moderno. Tais aplicações enobrecem o vidro de sucata e/ou recuperado nas ruas pela escultora e depois fundido nas formas sugeridas pela sua imaginação criativa. Artesã - Na verdade, Márcia não esconde a origem modesta de sua matéria-prima nem o aspecto artesanal de sua criação. Disso a prova imediata são a lona sucatada, manchada, que reveste o solo da exposição parisiense, e as caixas de embalagens das obras que servem de suportes para a exibição destas.Sem medo de transgredir as convenções que o mercado de artes plásticas se dá, sobretudo no que se refere ao aspecto ornamental - "cada um faz o que quer com minhas peças -, misturando elementos dos gêneros abstrato e figurativo, combinando o vigor e a fragilidade, a transparência e a opacidade, jogando com os paradoxos, a escultora resta, contudo, muito atenta à unidade estética e estilística de suas criações. E, afinal, por conseguir transpor barreiras para explorar outras vertentes de expressão pelo vidro e inovar numa arte tão antiga quanto a humanidade, Márcia está recebendo em Paris o reconhecimento pelo seu espírito libertário e provocador. Publicidade - Autodidata, a escultora carioca não reivindica influências ou referências: desenvolveu solitariamente as próprias técnicas de fusão para reciclar o vidro em seu ateliê de Humaitá, no Rio. É ao mesmo tempo artista e artesã, criadora e designer. Guardou a veia polivalente que desenvolveu na publicidade, profissão que exerceu até 1997 como diretora artística e com a qual obteve prêmios, inclusive do International Film & Television Festival de Nova York na categoria filmes institucionais."Parti para a escultura a fim de poder criar em toda a liberdade, sem ter em mente as possíveis amarras ou restrições do consumidor", Márcia se felicita em declarações ao Estado pela autonomia conquistada. Com os pés no chão, todavia, ela não negligencia a importância das "mediações práticas, prosaicas e imediatas" que interferem positivamente no itinerário de um artista. "Como, por exemplo, a cortesia da TAM, transportando para Paris a meia tonelada de peças expostas em Paris", faz questão de lembrar e de agradecer publicamente.

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