Thays Bittar/Divulgação
Thays Bittar/Divulgação

Marcelo Rubens Paiva expõe dilemas da sedução

'O Predador Entra na Sala' é um texto de 1994 cuja montagem estreia no Espaço Parlapatões

27 de julho de 2010 | 19h25

Maria Eugênia de Menezes

 

SÃO PAULO - A picaretagem tomou conta do Brasil. Quiçá, do mundo. Nas livrarias, o espaço dedicado aos romances só faz minguar. Das listas dos mais vendidos, baniram-se os grandes autores e passaram a reinar soberanos os manuais de autoajuda, os compêndios de informática, as aventuras açucaradas de novos e velhos vampiros. Mais importante do que o que está escrito dentro de um livro, passou a ser sua capa, a estratégia de marketing das editoras, a verba gasta em publicidade.

 

Quem faz a constatação é o escritor e colunista do Estado Marcelo Rubens Paiva e é disso que ele se vale para tecer o pano de fundo de O Predador Entra na Sala, montagem que estreia nesta quarta, 28, no Espaço Parlapatões. Escrito em 1994 e engavetado desde então, o texto capta justamente esse momento de "virada" no mundo das letras. "Até os anos 1980, era gente como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu que frequentava as listas de best-sellers", comenta Paiva. Mas a crise da indústria cultural serve apenas de moldura ao enredo, centrado nos conflitos de um escritor em crise (o parlapatão Raul Barretto), que recebe a visita de uma suposta filha (Anna Cecília Junqueira).

 

Na versão original, o protagonista era um remanescente dos hippies. E a filha adolescente, Cacau, uma típica representante dos punks. Passados mais de 15 anos, o dramaturgo sinaliza algumas atualizações em sua revisita ao texto. "Hoje, esse escritor de meia-idade não seria mais um antigo hippie, e sim um cara da minha geração. E a menina ficou parecendo mais fútil, porque os jovens de hoje são assim", diz o autor. Também ganhou fôlego o personagem de um editor, convocado para pressionar o escritor por um novo livro. Em essência, porém, o cerne da trama foi preservado e traz à tona "uma história de sedução", como o próprio Paiva gosta de definir.

 

Sem respostas. Ao espectador, são escassas as pistas oferecidas. Insinua-se um incesto. Pouco se sabe, contudo, da veracidade do discurso defendido pela jovem. Ela pode ser, de fato, filha do escritor. Como também não seria exagero supor que se trata de uma fã interessada em conhecer a intimidade de seu ídolo ou ainda de uma impostora contratada pela editora para demovê-lo de seu estado de torpor criativo.

 

O Predador é a segunda peça do autor de Feliz Ano Velho. Mas lá já estavam sinalizadas questões, como a do embate com o outro, que permeariam a dramaturgia das obras que vieram a seguir. É o caso de No Retrovisor (2002), em que narrava o acerto de contas de dois atores alternativos enquadrados pelo sistema, e da recente A Noite Mais Fria do Ano (2009), na qual examinava as relações amorosas contemporâneas em uma metrópole.

 

Com A Noite Mais Fria do Ano, Paiva lançou-se como diretor. Posto que volta a ocupar agora e do qual, garante, não pretende se afastar mais. Para este ano, o dramaturgo planeja encenar pela primeira vez um texto que não seja de sua lavra, a peça alemã Deus É Um DJ. "Quando estou na sala de ensaio fico mais diretor do que autor: deixo os atores interferirem, mudo o texto, corto tudo aquilo que parece excesso", observa ele. "Acho que descobri que gosto mais de dirigir do que de escrever."

 

O Predador Entra na Sala - Espaço Parlapatões (96 lug.). Praça Franklin Roosevelt, 158, 3258-4449. 4ª e 5ª, às 21 h. R$ 30. Até 2/9.

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