Bel Pedrosa/ Divulgação
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Marcelo Ferroni estreia no gênero policial e coloca um escritor na cena do crime

'Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam' narra 24 horas na vida de uma família isolada em uma fazenda onde ocorre um crime de quarto fechado

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 20h02

O editor Marcelo Ferroni, vencedor do Prêmio São Paulo em 2011 por seu romance de estreia, Método Prático da Guerrilha, não padeceu da síndrome do segundo romance. Isso porque antes de lançar seu livro que recria ficcionalmente os últimos dias de Che Guevara, premiado com R$ 200 mil e já traduzido para diversas línguas, ele tinha pronto o esboço de Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam, lançado agora.

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Claro, há a consciência de cobrança externa e a expectativa da recepção, mas o autor lida com essa ansiedade de uma forma bastante prática: escrevendo outro livro, que, diz, será diferente do segundo que, por sua vez, é diferente do primeiro. No entanto, ele vê neles uma unidade. “As situações não são levadas muito a sério. Nos piores momentos sempre há algo de patético.”

Das Paredes, Meu Amor, Os Escravos nos Contemplam é um romance policial. A ideia surgiu quando a família foi passar um fim de semana numa fazenda em Bananal, em 2009, e o escritor se viu no meio de desconhecidos. Logo pensou em um crime de quarto fechado. Com Método Prático finalizado e um segundo romance sendo escrito, ele arquivou a ideia do policial.

Perto do lançamento do livro sobre Che, a história da fazenda voltou e ele teve o estalo de quem seria o narrador. “Comecei a escrever como uma brincadeira para soltar um pouco da pressão que estava virando o outro livro. Fiz uma primeira versão descompromissada em dois meses”, conta. Foi quando abortou de vez o projeto anterior e se dedicou à nova trama. 

O processo durou quase três anos e foram feitas cinco versões para esta história com um morto e 13 suspeitos.

Na obra, um escritor na casa dos 30 e um pouco frustrado se envolve com jovem garota rica que o leva para um fim de semana na fazenda da família de industriais. Lá, Humberto, um estranho no ninho, ignorado pela moça e por suas irmãs, cunhados, primos e empregadas, a quem sequer apresentado, se vê envolvido numa trama de assassinato – o patriarca está morto – e tenta desvendar o mistério que ronda o casarão antigo e a família de novos – e fúteis – ricos.

Humberto está perdido e o autor quis que o leitor sentisse o mesmo. “Ninguém facilita para ele, e ele não facilita para ninguém. O leitor vai ouvindo os diálogos entrecortados, vai vendo as pessoas representarem e vai seguindo a narrativa dele.” A primeira parte é narrada em primeira pessoa. Quando o crime acontece, é como se ele tivesse sofrido um choque. “E ele resolve esse choque saindo da narrativa, que passa a ser em terceira pessoa”, explica. Mas depois retoma as rédeas da história.

Ferroni conta que usou a trama para falar, também, de literatura. “Nas quase 24 horas, muita coisa tradicional de literatura acontece com ele. Tem o crime de quarto fechado, uma sessão de mesa branca, ele desce ao inferno, participa de um duelo. Todos os chavões. Achei que eu podia me divertir com isso.” 

O livro deve muito a Raymond Chandler e Ian Fleming, diz. No processo, leu também autores clássicos (Agatha Christi, John Dickson Carr, Ellery Queen, etc.) e um livro com 1.280 casos do tipo que estava tentando criar. E procurou seguir algumas regras básicas do policial como não trapacear o leitor e dar pistas para que ele possa descobrir antes. 

Marcelo Ferroni lança este segundo romance às vésperas de completar 40 anos. Editor da Alfaguara, ele conta que quis fazer um livro diferente daqueles manuscritos que recebe diariamente e optou por uma base comercial – mas diz que se fosse para ter escrito um livro só policial comercial, o que não o interessava, teria criado diálogos mais claros e situações mais simples. “Fico muito preso ao trabalho que quando vou escrever tenho que sair de tudo isso e escrever só pelo prazer que a escrita me dá.” 

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