Marcello Quintanilha esquadrinha os subúrbios

'Minhas histórias vêm muito da literatura', diz artista que vive na Espanha, autor da HQ mais festejada de 2009

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

21 de janeiro de 2010 | 06h00

Quintanilha: artista usa grafite e aquarela para obter 'simulação da realidade'. Foto: Acervo Pessoal

 

SÃO PAULO - Se o leitor perguntar a experts em quadrinhos qual foi o melhor álbum de HQ publicado no Brasil no ano passado, pode esperar uma unanimidade: Sábado dos Meus Amores (Editora Conrad), trabalho do niteroiense Marcello Quintanilha. A excelência do trabalho de Quintanilha não é exatamente uma novidade - vivendo desde o início da década em Barcelona, Espanha, fazendo desenhos freelance para jornais como El País e La Vanguardia, ele foi considerado pelo escritor Aldir Blanc como "o Rossellini tupiniquim", por conta do estilo realista.

 

A partir deste fim de semana, Marcello Quintanilha passa a publicar uma tira no Caderno 2 aos sábados. "Cara, eu adoro essa ideia, acho uma coisa superimportante. É uma coisa que sempre gostei, sempre tive vontade de fazer, exatamente do tipo (de tira) que mandei para você. Que não fosse uma tira de humor, uma tira de piada, mas que tenha outro tipo de entrada, outro tipo de diálogo com o público", diz o artista. "Muitas vezes aquilo ali vai levar o leitor a ter uma sensação, (levá-lo a) coisas que ele conhece, que ele lida, que ele viveu, que conheceu, e que não vê nos jornais atualmente. Pelo menos não vê muito. Pelo menos não via até algum tempo atrás. Sei que nos Estados Unidos começaram a fazer algo assim com a turma que faz quadrinhos alternativos."

 

Quintanilha desenvolveu para o Estado uma "tirona" hiper-realista com um timing narrativo de crônica. "No caso do jornal, isso andou durante um tempo meio esquecido, esse tipo de história. Se dava mais prioridade à tira de humor. A tira de jornal é uma coisa que, digamos assim, cada vez se publica menos. Fica relegada a um canto do jornal - e pode ser qualquer jornal, viu? Aqui também (na Europa)."

 

A primeira tira parece dar sequência ao trabalho dos álbuns "de carreira", por assim dizer, do artista, com seu admirável mergulho na periferia brasileira. "É o meu universo. Tenho muito apego a isso. E as histórias são sobre esse mesmo universo, toda uma forma de lidar com os quadrinhos em relação a esse tipo de iconografia. Sábado dos Meus Amores tem toda uma iconografia brasileira dos anos 1970, que não é limpa, é curtida, às vezes com umas cores que tendem a umas combinações um pouco estranhas, pelo qual eu sou fascinado. Vejo filmes como Bye Bye Brasil, por exemplo, e toda aquela atmosfera, aquela luz, são coisas que me fascinam muito. No caso dessa primeira história para o Estado, Meu Pai Foi Lá e Pimba!, ela também tem a ver com isso, embora nessa história eu tenha tentando usar cores mais ácidas, como o azul-turquesa, por causa da introdução da história, que começa nos anos 60, na Base de Suez, onde o Exército brasileiro teve uma base."

 

O autor já assinou histórias no Brasil sob o pseudônimo Marcello Gaú. E explica: "Quando eu comecei, nos anos 1980, achava que nunca ia viver de quadrinhos, seria algo à parte de minha vida jurídica, ou seja: a HQ seria algo autofinanciado, não faria parte do meu mundo diário. Mas depois passei a viver exclusivamente dos quadrinhos, e o apelido perdeu o sentido", conta. Gaú porque ele era chamado de "gaúcho" na adolescência, embora seja de Niterói.

 

Salvador: artista desenhou sua visão da cidade para a série 'Cidades Ilustradas'. Foto: Reprodução

 

Ele também se declara totalmente influenciado pela literatura brasileira, de Machado de Assis e Lima Barreto, mas especialmente pelo gênero da crônica, de autores como Rubem Braga. "Uma coisa importante a se destacar é que, ultimamente, as histórias curtas perderam muito espaço, o que acho lamentável, porque sou um grande seguidor desse gênero", diz.

 

Quintanilha conta que foi para a Espanha primeiro porque adora a cidade onde vive, e não propriamente em busca de um Eldorado da ilustração. "O mercado espanhol não está muitos passos na frente do mercado brasileiro no que diz respeito a quadrinhos. Aqui, da mesma forma que no Brasil, as principais editoras concentram seus esforços em editar material norte-americano, francês ou japonês", ele pondera.

 

"O aspecto principal do meu trabalho é lidar com temas como futebol, desamores, cotidiano de bairros populares que são sempre recorrentes nas minhas histórias e que estão intimamente ligados à vida brasileira. E minha intenção é a comunicação; chegar até pessoas que se identifiquem com esse universo, que o reconheçam como parte de si mesmas", explica o autor.

 

O trabalho de Quintanilha está mais impregnado de Brasil do que na maioria dos autores contemporâneos. Ainda assim, raros trabalhos parecem se inserir com tanta sem-cerimônia no universo visual das HQs europeias - por vezes, lembra muito Miguelanxo Prado, gênio da Galícia, mas ele não vê grande conexão, a não ser pela técnica. Quintanilha parece dar seguimento a uma tradição que foi brilhantemente iniciada com pioneiros como Ângelo Agostini e depois Jayme Cortez e Flavio Colin.

 

"Como meus mestres, se podemos dizer dessa forma, posso citar artistas como John Buscema, Garcia-Lopez, François Boucq, Crepax, E.P. Jacobs ou Frank Hampson", ele afirma. Ou seja: ele vai de Conan, o Bárbaro, ao erotismo voyeurístico de Valentina. "Flavio Colin, por outro lado, é uma referência não só para mim, mas para todos os que estão ligados aos quadrinhos no Brasil, pela honestidade que sempre teve para consigo mesmo, assim como para com seus leitores. Por seu amor incondicional aos quadrinhos, por seu estilo único, que só poderia ser definido se se pudesse traduzir em papel a madeira entalhada."

 

De reportagens a capa de disco

 

Entre os trabalhos destacados de Marcello Eduardo Mouco Quintanilha (nome completo do autor, de 38 anos) está a homenagem que fez à cidade de Salvador no projeto Cidades Ilustradas, da editora Casa 21. Quintanilha retratou os monumentos, ruas, feiras, praias e praças da capital baiana em um livro ricamente ilustrado, no qual a paisagem é importante, mas a paisagem humana é mais importante ainda.

 

Cidades Ilustradas é um projeto editorial que buscou realizar uma série de livros cujo tema são as principais cidades brasileiras vistas através do traço e arte de desenhistas nacionais e internacionais. O inglês David Lloyd (de V de Vingança) desenhou São Paulo. O francês Jano desenhou o Rio de Janeiro.

 

Quintanilha explora, como diz, "bastidores do futebol; histórias oudesestórias de amor; cotidiano". Começou a carreira na Editora Bloch, desenhando Mestre Kim. Após publicar na Heavy Metal, ganhou prêmios nas Bienais de Quadrinhos do Rio de Janeiro de 1991 e 1993. Ilustrou para revistas, como Trip, Bravo!, República, Vip, Sabor, entre outras; fez capas de livros, como da biografia do sambista Martinho da Vila, para a Editora Record; e desenhou um encarte de um CD do grupo Planet Hemp; entre outras atividades.

 

Nos anos 1990, quando ainda assinava Marcello Gaú, Quintanilha começou a conquistar muitos leitores no Brasil com seus trabalhos publicados nas revistas General, Nervos de Aço e Metal Pesado e no álbum Fealdade de Fabiano Gorila (que tem o hipercitado prefácio do músico Aldir Blanc, no qual ele compara o quadrinista a Rosselini). Fealdade foi um dos primeiros títulos de quadrinhos da então emergente Conrad.

 

Atualmente, além de trabalhar na série de quadrinhos Sept Balles Pour Oxford, em parceria com Jorge Zentner e Montecarlo (para a editora belga Editions du Lombard), ele faz ilustrações para revistas brasileiras e foi premiado nas bienais de quadrinhos do Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Também colabora com a revista virtual Zé Pereira, que tem várias HQs dele postadas.

 

"Trabalho basicamente com grafite e aquarela. O grafite é um eco da imprensa do século 19, de imagens litográficas, e cujo objetivo é recuperar essa estética, esse grafismo, como ponto de partida para uma proposta pessoal. Aliado à aquarela, a intenção é simular o efeito de realidade que acho tão importante."

 

Sábado dos Meus Amores, no ano passado, veio coroar uma carreira de grande coerência. Há um grande componente lírico na obra, para que os leitores não pensem que o título é mero efeito. Por exemplo, na história do amor de uma moça simples semianalfabeta por um pescador sagaz, que é especialmente tocante. "Tiago é macumbeiro eu sou evangélica mas eu vou rezar pra Iemanjá trazer o barco dele de volta são e salvo", ela escreve em sua cartilha.

 

Com mais de 20 anos de carreira, sempre se batendo para publicar num mercado rarefeito, não avalia com entusiasmo desmesurado o momento brasileiro de quadrinhos. "Esse mercado ainda é incipiente e as iniciativas de muitas editoras em lançar títulos na esteira da visibilidade que os quadrinhos têm hoje não necessariamente colabora para sua consolidação. É difícil dizer o que pode decorrer do momento que vivem os quadrinhos no Brasil, quando os títulos migram cada vez mais para as livrarias e lojas especializadas, mas, sem dúvida, pode ser um passo importante para conquistar novos leitores."

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