Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Marcelino Freire cria dramalhão com agilidade e domínio da escrita em 'Nossos Ossos'

Escritor desenvolve uma receita própria para contar saga dos que trocam o rural pelo urbano

Moacir Amâncio - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 20h33

Nossos Ossos, novela de Marcelino Freire, conta a história de Heleno, um autor de peças teatrais que troca, primeiro, o interior pernambucano por Recife, e depois, por São Paulo, onde faz sucesso, mas isso não é suficiente. Falta-lhe a realização amorosa: a rigor, ele vem para esta capital atrás do ex-namorado, que perde na cena paulistana, trocando-o por um garoto de aluguel. Mas ainda ama o ex, e quando finalmente vão se reencontrar, ele dá um banho de loja no michê para, de modo infantil, provocar o ex, que se mostra arrependido por ter deixado Recife e sua grande paixão.

A narrativa começa com a busca do escritor pelo corpo do michê, assassinado. Não se sabe de maneira explícita quem fez o presunto, mas Heleno sente-se culpado, saca as economias e investe o curto resto da sua vida em levar o corpo do rapaz até a cidadezinha de origem, também em Pernambuco, indenizar a família e preparar-se para o suicídio. Contraiu aids, para completar. Não passa de um romântico que se entrega em holocausto pelo mal causado e pelo mal deste mundo infinitamente sórdido. Um processo de purificação, portanto, sem garantia de resultado. A trajetória da volta a Pernambuco levando o cadáver do prostituto é uma Pietà em ritmo de paródia.

Enfim, tremendo dramalhão contido pela agilidade e domínio do escritor, que com isso recria o grotesco e o sublime numa narrativa policialesca: a piada é trash, mas não o estilo. Freire buscou seu próprio caminho na velha saga dos que deixam o suposto paraíso rural ou semirrural em busca da utopia urbana e quebram a cara nas bocas do lixo. Resta o sonho da volta, desta vez vivido por Heleno – de comiseração também se vive e morre.

A partir da experiência, como já ocorreu com outros, Freire poderá, ao que parece e se quiser, produzir em série novelas do tipo, pois tem a técnica e a receita. Questão de opção.

MOACIR AMÂNCIO É AUTOR DE ATA (RECORD), ENTRE OUTROS, E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA (USP)

NOSSOS OSSOS

Autor: Marcelino Freire

Editora: Record (128 págs., R$ 28)

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