Marcel Duchamp, na comemoração dos 60 anos do MAM

'Uma Obra Que Não é Uma Obra ‘de Arte’ abre na 4.ª para o público e lançar olhar atento sobre obra do artista

Maria Hirszman, Especial para o Estado,

14 de julho de 2008 | 16h36

Difícil encontrar evento mais adequado para celebrar o 60.º aniversário do Museu de Arte Moderna (MAM) do que a exposição Marcel Duchamp: Uma Obra Que Não é Uma Obra ‘de Arte’. Além de lançar um olhar atento e iluminador sobre a obra de um dos artistas mais importantes do século 20, a mostra que será aberta nesta terça-feira, 15, para convidados e na quarta para o público é uma boa ocasião para refletir sobre alguns aspectos essenciais da modernidade, tema que a instituição pretendia acompanhar desde sua fundação. Aliás, poucos sabem, mas Marcel Duchamp desempenhou um papel curioso - mesmo que infrutífero - na elaboração dos projetos para a primeira exposição realizada pelo museu. Veja também: Galeria com fotos da mostra de Duchamp no MAM   Concebida como uma parceria entre a instituição brasileira e a Fundação Proa, de Buenos Aires - para onde segue em novembro -, a mostra procura encontrar um equilíbrio entre a difícil tarefa de introduzir o pensamento de Duchamp (1887-1968) a um público amplo e a busca de uma visão capaz de elucidar o caráter muitas vezes contraditório e provocativo de seu trabalho. Lançando mão de uma certa organização cronológica e de uma cenografia curvilínea, que procura simular espacialmente o caráter cíclico de sua produção, estão dispostos ao longo da grande sala do museu aproximadamente 120 itens, que vão desde pequenos objetos até aqueles trabalhos considerados suas grandes obras-primas. "Não vamos rebaixá-lo a uma versão light, mas também não desejamos uma opacidade total, compreensível apenas para um pequeno grupo de iniciados", explica a curadora Elena Filipovic. Especialista em Duchamp, ela procurou colocar em destaque alguns aspectos importantes em sua trajetória, que ficam ricocheteando ao longo de sua trajetória. São como nichos ou constelações de idéias, entre as quais é possível citar a questão da perspectiva, a transparência, o erotismo, o consumismo, a reprodutibilidade, etc... Transversalmente a todos esses fios condutores destaca-se o caráter bastante paradoxal dessa obra, que não raro espantou e afastou inclusive admiradores. Duchamp era alguém capaz de jogar por terra a noção de obra de arte (ao assinar objetos prontos, industriais; criando os readymades - objetos ‘prontos para usar’; elevando reproduções ao status de objeto de arte ou subvertendo acidamente ícones como a Mona Lisa, a quem adiciona bigodes) e que ao mesmo tempo passou os últimos 20 anos de sua vida construindo escondido de todos, a "pintura viva" Etant Donnés: 1.º La Chute d'Eau; 2.º Le Gaz d’Eclairage, (Sendo Dados: 1.º A Cascata; 2.º O Gás de Iluminação). Definida pela curadora como "uma das obras de arte mais inusitadas e enigmáticas do século 20", a instalação explora de maneira surpreendente as convenções da perspectiva ótica que ele tanto atacou. Uma reconstrução aproximada da obra pode ser vista na exposição. Não se trata de uma réplica (como no caso dos readymades e de outras obras destruídas e recriadas por Duchamp), mas de uma reprodução virtual que recria a obra mas não a ilusão de que estamos diante dela. Etant Donnés, obra que se tornou conhecida apenas após a morte do artista, em 1967, encerra a mostra do MAM. A exposição também tem um início preciso: o ano de 1913. É nessa data que Duchamp torna-se uma celebridade nos EUA, quando sua pintura Nu Descendo a Escada é exposta, com grande escândalo. Datam também desse período seus primeiros readymades - nome que adota apenas em 1915, quando muda-se para a América. Também são deste ano os primeiros estudos de La Mariée mise à nu par ses Célibataires, même (A Noiva despida por seus Celibatários, mesmo), também conhecida como O Grande Vidro.  Ponto de inflexão maior, mas não o único de uma carreira plena de avanços e retomadas. "Ele era um homem de ruptura, que mudaria a história da arte e sua própria arte, mas que vai sempre caminhar em círculos, numa espécie de turbilhão", procura sintetizar Elena. O tempo todo, os limites são esfacelados. Duchamp ressignifica a noção de autoria ao dar a objetos banais o status de obra de arte; critica acidamente as instituições mas se envolve ativamente em importantes projetos curatoriais; ignora a importância da obra original ao reproduzir novamente seus próprios trabalhos e ao mesmo tempo dá a eles um estatuto novo ao criar suas célebres caixas, que ‘repertoriam’ todo o universo duchampiano. Numa espécie de síntese entre contrários, Duchamp constrói com uma mão o que destrói com a outra, questionando na prática as definições e limites da arte.   Na mostra, preste atenção  ...nas três caixas realizadas por Duchamp com reproduções de suas anotações e trabalhos, como se fossem pequenos museus, que questionam e ao mesmo tempo reafirmam e desmistificam noções como a de autoria e de obra única. A primeira é conhecida como Caixa de 1914. A segunda, de 1936, é conhecida como Caixa Verde e contém facsimiles das notas e fotos relativas à obra La Mariée mise à nu... A obsessão é tanta que ele chega a contratar seu porteiro em Paris para rasgar as réplicas exatamente da mesma maneira em que estavam os originais. Por último vem a célebre Caixa Branca, de 1967, na qual copia o restante de suas notas e que possui uma versão luxo (presenteada a amigos e que incluíam obras originais, além de reproduções e miniaturas) e uma normal. Há uma de cada tipo na exposição.  ...na réplica de Mariée mise a nu... - O Grande Vidro, na qual recria de maneira extremamente cifrada e com forte influência dadaísta uma história de amor fracassado e de forte teor erótico entre uma noiva (representada pelas nuvens) e nove celibatários, que tentam atingi-la sem êxito. Uma das curiosidades da obra é a utilização de elementos estranhos como canhões de brinquedo para determinar o lugar das perfurações no vidro, além de pigmentos heterodoxos como a poeira, o chumbo e o óleo.

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