Jose Haro/Divulgação
Jose Haro/Divulgação

Marcado para morrer

Com um prêmio em Cannes para a atuação de Javier Bardem e a pré-seleção como uma das 9 produções que vão concorrer às 5 indicações para o Oscar de filme estrangeiro, Biutiful estreia no País

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Foram motivos de foro íntimo - mas ele não abre o jogo - que impediram o mexicano Alejandro González-Iñárritu de viajar ao Brasil nesta semana, onde ele era esperado anteontem. "Espero não ter prejudicado ninguém, e muito menos o lançamento do filme. Tenho muitos amigos brasileiros, em São Paulo e no Rio, e gostaria de poder compartilhar esse momento com eles." Esse momento é o lançamento de Biutiful, novo longa do diretor de Amores Brutos e Babel, que deu a Javier Bardem o prêmio de melhor ator em Cannes, no ano passado. Compensando a frustração da não viagem, Iñárritu conversou na quarta-feira pelo telefone com o repórter do Estado. Estava feliz porque, algumas horas antes, Biutiful havia sido pré-selecionado como um dos nove filmes que vão concorrer às cinco indicações para o Oscar de filme estrangeiro.

O que representa a pré-seleção para você?

Por mais que o Oscar seja uma fogueira de vaidades, a estatueta para o melhor filme estrangeiro é um prêmio prestigiado, sério e ajuda no lançamento internacional de qualquer produção. Só posso ficar feliz com a pré-seleção.

Engano-me ou Biutiful está chegando mais tarde ao mercado do que seus outros filmes? São nove meses desde Cannes.

Um parto, não? Mas é impressão sua. Biutiful começou sua campanha internacional na França, em outubro, e em janeiro está saindo de forma compacta em diversos países. Se você conferir o histórico de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, verá que todos são filmes outonais. Não têm o histórico de filmes de verão. São obras mais voltadas ao recolhimento, à reflexão.

Por que a história de um homem que está morrendo?

O filme nasceu com essa disposição de contar a história de um homem que sabe que está morrendo. Todos os meus filmes tratam da morte, em geral de uma perspectiva próxima. Desta vez, resolvi radicalizar. Talvez tenha a ver com a doença de meu pai. Comecei a pensar no que faria se soubesse que meu prazo de validade está se esgotando. Mas tem a ver também com a descoberta do concerto para piano de Ravel. Biutiful nasceu embalado por essa trilha sonora.

Você sempre contou histórias multi plots, colocando na tela muitos pontos de vista e aqui vê o mundo pelo ângulo de Uxbal, isso é, Javier Bardem. Por quê?

Realmente, em Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, meus filmes com Guillermo (Arriaga), a estrutura narrativa era essa. Desde o começo, queria que Biutiful fosse diferente. Construí um roteiro linear...

...Mas apesar disso a estrutura é cíclica, como sempre. Influência de Arriaga?

Não creio que se possa antecipar que um filme terá uma estrutura cíclica. É uma solução que a prática já me ensinou - ela nasce na sala de montagem, quando fazemos a edição.

Uxbal tem visões premonitórias da própria morte. Não lhe parece que vive em outra dimensão?

Não sou particularmente religioso nem espiritualista, mas quero crer que meu cinema é habitado pela indagação metafísica sobre a vida depois da morte. Queria aqui começar como um sussurro, ao contrário de Amores Brutos, que começava com um impacto (o acidente de carro).

Pode-se aproximar seu filme do de Clint Eastwood, Além da Vida. O que você acha disso?

Não me diz respeito. Não tenho o menor desejo de controlar o que dizem nem de censurar quem quer que seja. Às vezes me surpreendo com o que leio sobre meus filmes, mas é a função da crítica.

Como chegou a essa Barcelona tão pouco turística?

Pesquisando. Tive o privilégio de morar lá por mais de um ano, na fase de preparação. Minha Barcelona dá as costas para o mar. Descobri esses imigrantes asiáticos e africanos que, na ficção, são explorados por Uxbal. Tentei criá-los de modo mais verdadeiro, mas o que me interessa, no cinema, nunca é a realidade e sim, a verdade. Isso torna as coisas sempre mais complexas. Javier (Bardem) foi um estímulo muito forte. É um ator que não tem medo de se expor, de ir fundo. Mesmo sem ter escrito uma linha de diálogo, ele é um pouco coautor de Biutiful.

QUEM É

ALEJANDRO GONZÁLEZ-IÑÁRRITU

DIRETOR, ROTEIRISTA E PRODUTOR

Nascido na Cidade do México em 1963, no início da carreira ele foi DJ e, a partir de 1988, compôs músicas para filmes de seu país. Sua conhecida e profícua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga rendeu prêmios e notoriedade à dupla. Biutiful é o primeiro trabalho de Iñárritu após o rompimento com Arriaga.

BIUTIFUL

Direção: Alejandro Iñárritu.

Gênero: Drama (EUA/ 2010, 147 minutos). Censura: 16 anos.

 

 

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