Marc Ferro: um historiador que entrou para a História

Professor emérito da prestigiada Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, Marc Ferro, um dos mais completos historiadores contemporâneos, desembarcou semana passada na Capital Federal pela primeira vez. Dono de um discurso rápido e fluente, encantou os alunos da Faculdade Euro-Americana, ao traçar paralelos entre as revoluções Francesa e Russa e o momento atual por que passa a humanidade. "Vivemos uma era globalizada, mas ainda somos herdeiros de estruturas políticas nascidas no século 18 e isso gera muitos problemas", afirmou.Ferro ganhou notoriedade no começo dos anos 60, quando começou a utilizar filmes - mesmo os de ficção - como documentos históricos. Sua atitude foi inovadora e provocadora porque, ainda hoje, o ato de historiar está dominado pela valorização do documento escrito. Para ele, que também é diretor cinematográfico, "o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História". A experiência fez com que se tornasse pioneiro na teorização da chamada relação cinema-história.Autor de inúmeros livros, entre eles os célebres Como Contar a História às Crianças e A Grande Guerra, uma História da Medicina, Ferro é conhecido também como apresentador de televisão. Há mais de sete anos, comanda o programa História Paralela, veiculado semanalmente, aos sábados, em horário nobre na emissora FR3. Ali, compara e discute fenômenos que marcaram o século 20. Projeta e interpreta filmes, realiza entrevistas e conquista uma audiência crescente.Marc Ferro é autor de inúmeras obras, que preenchem um vasto campo de interesses. Seus ensaios abrangem análises dos processos de colonização, passam pela história da medicina e esmiuçam a relação entre cinema e história. Muitos desses títulos estão traduzidos no Brasil. Destacam-se, entre eles: A História Vigiada (Martins Fontes), Cinema e História (Paz e Terra), História da Colonização: das Conquistas à Independência (Companhia das Letras) e O Ocidente Diante da Revolução Russa (Brasiliense).Versátil, ele dirigiu também alguns filmes em 35 mm, como A Grande Guerra, em 1964, Lenine por Lenine (1970) e Uma História da Medicina (1980). A biografia que escreveu sobre Pétain transformou-se em sucesso de público e também foi adaptada para o cinema.Aos 76 anos, com um estilo pessoal alegre - que em muitos momentos lembra Darcy Ribeiro -, Ferro chegou à Escola de Altos Estudos por meio de concurso e com indicação de Fernand Braudel, o inventor da Nova História. Professor visitante em universidades dos Estados Unidos e Canadá, sua biografia conta ainda com uma estada na Argélia, no período revolucionário. Quando regressou à França, ajudou a organizar comitês de solidariedade aos argelinos e essa experiência refletiu-se em sua maneira de ver a dinâmica internacional.Na entrevista, ele mostrou-se otimista quanto ao poder de reação das sociedades frente às agressões que sofrem, disse acreditar na possibilidade de outras revoluções armadas, exibiu sua descrença na capacidade de as atuais estruturas políticas enfrentarem o mundo globalizado e pregou o fortalecimento da atuação das forças internacionais. Quanto ao Brasil, mostrou-se surpreso com o fato de o país falar há 200 anos em reforma agrária e ainda não haver conseguido realizá-la. "Só com a reforma agrária o país resolverá a miséria", sentenciou.Agência Estado - O senhor especializou-se na história das revoluções, em especial a Francesa e a Russa. O mundo vive hoje um outro tipo de revolução, a da expansão da fronteira virtual. Como o senhor compara esse momento a outras fases da história?Marc Ferro - A palavra revolução tem uma extensão muito grande e hoje a grande revolução é a da uniformização do mundo. Mas este processo de uniformização é antigo, começou na época da colonização e não entre as duas grandes guerras, como muitos acreditam. Também no processo de industrialização aconteceram fenômenos que se assemelham aos que vivemos hoje, pois o telégrafo passou a exercer papel preponderante no mundo dos negócios e comunicações, parecido com o que hoje exerce a Internet. Da mesma forma, durante muitos anos, os camponeses europeus emigraram para outras terras porque não tinham possibilidade de controlar a via econômica global. Da mesma forma, atualmente os camponeses não entendem o que é globalização, não resistem aos seus efeitos e terminam por adoecer ou emigrar. A diferença é que antes a vida econômica se dava no interior da vida social e política e, agora, é a economia que manda nas relações sociais e políticas.O domínio da estrutura econômica sobre as relações sociais levará a humanidade à resignação?Ferro - A história nos mostra que as sociedades acham respostas para as agressões que sofrem. Os homens sempre dão um jeito de resistir àquilo que não podem controlar. Vejamos um bom exemplo: vivemos diante do domínio dos meios de comunicação de massa dos Estados Unidos. Mas, mesmo assim, existem reações a esse imperialismo da mídia, estão sendo criadas contraculturas e, o mais importante, muitas vezes a crítica mais forte vem de grupos de dentro do próprio país. Não digo que economicamente essas reações sejam eficazes, mas elas demonstram que o homem é capaz de resistir ao que lhe desagrada. O ser humano tem uma criatividade tão grande como a dos micróbios.Poderia explicar melhor a comparação?Ferro - Com a descoberta da penicilina e de outros antibióticos, este século viveu a religião da ciência, desenvolveu o pensamento de que a ciência triunfa sobre a natureza. O que vimos é que os micróbios tornaram-se resistentes à penicilina e a outros medicamentos. São, portanto, mais inteligentes e criativos que os homens.A capacidade de resistência do homem poderá dar lugar a outras revoluções armadas?Ferro - Já tivemos outras revoluções, como a Islâmica, no Irã em 1979, e as ocorridas na América Central. A dificuldade é que os movimentos revolucionários correm o risco de serem esmagados rapidamente. Mesmo assim, acredito que vão ocorrer novas revoluções. Sou muito pessimista com respeito à África; ali certamente ocorrerão conflitos importantes. No continente americano também deverão surgir, de maneira espalhada, algumas revoluções armadas, mas não imediatamente. Toda revolução militar tem um conjunto de aspectos negativos para o mundo social e político, mas em muitas delas há aspectos positivos mesmo para o mundo social, como a possibilidade de integração social de parcelas da população antes excluídas.O Brasil terá algum papel a exercer dentro desse contexto?Ferro - Tenho a impressão de que o Brasil é um país bastante diferenciado, mais capaz do que os outros de resistir aos efeitos da globalização. É possível até que possa exercer zonas de autonomia no mundo globalizado, mas seria uma autonomia vinculada ao mundo cultural, ao universo dos costumes, relacionada à questão étnica. No campo da economia é difícil ele exercer papel relevante.Por que?Ferro - A Coréia e um bom número de países, em especial na África, privilegiaram a agricultura de exportação e isso significou uma catástrofe geradora de inúmeros problemas. O Brasil só terá alguma zona de subsistência se fizer uma efetiva reforma agrária; só assim ele será capaz de combater a miséria.O que lhe deixa mais pessimista na cena internacional?Ferro - A vida política de modo geral, pois continua organizada conforme princípios tradicionais. A maior parte dos países ainda mantém a divisão de poderes herdada do século 18. Ocorreram muitas mudanças, novos atores entraram em cena e nada mudou nessa esfera. Os partidos políticos, por exemplo, detêm hoje menos poder do que a mídia. Não é possível adaptar-se à globalização com essas ferramentas. É preciso levar em conta o poder da mídia, o científico, o dos capitais e o do Direito.Poderia explicar o papel do Direito?Ferro - É uma força internacional que tem um papel cada vez maior. O poder do Direito pode ser imenso quando os juristas decidem realmente defender uma idéia. Na Austrália, eles conseguiram devolver os direitos sobre a terra para os aborígenes. Penso que muitos outros países poderão conseguir o mesmo sem necessitarem recorrer às armas, apenas com o uso da força do Direito. É possível, por exemplo, criar mecanismos anti-truste radicais, no estilo boicote, para direcionar a indústria farmacêutica a produzir para todo cidadão que precise de medicamentos e não apenas os ricos como ocorre atualmente.Mas como seria possível fazer essa mobilização?Ferro - Tudo terá que ser feito a partir de forças internacionais. Neste momento, a Organização das Nações Unidas não desenvolve trabalhos como esse, mas poderia muito bem desempenhar a tarefa. Uma boa luta seria contra o efeito direto da globalização junto às populações pobres, que sofrem com a miséria e as doenças. A Organização Mundial de Saúde teria um papel importante se recebesse mais apoio para cuidar das epidemias na África, por exemplo. Mas é preciso que haja um esforço internacional. Um exemplo diz respeito às forças de paz da ONU: é preciso que quando elas se desloquem para as zonas de conflitos sejam realmente forças internacionais e não dos Estados Unidos.Como historiador, o que o senhor acredita que os homens querem?Ferro - Um número significativo de pessoas deseja viver do seu trabalho e do seu talento, junto às suas famílias. Temos de usar muito a imaginação para conseguir que todos tenham uma ocupação. Essas ocupações podem até não ter glamour, mas é preciso que sejam eficientes. Nesse aspecto, as mulheres têm demonstrado muito mais competência que os homens para enfrentar esse tipo de problema.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.