Maravilhas relativas

O Brasil é o Estados Unidos onde eu vivo.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h07

Millôr Fernandes

Os Estados Unidos são uma maravilha. Mas são uma merda. O Brasil é uma merda. Mas é uma maravilha.

Tom Jobim

Como já disse aqui, em mais de uma ocasião, sou daquelas que preferem estar enganadas, se a escolha é entre, A - estar correta, B - ser feliz. Para uma carioca e torcedora ignorante do Fluminense (escrevo antes do jogo com o Atlético de Goiás), a última semana ofereceu boas chances de marcar a segunda opção.

O Rio hospedou dezenas de milhões de dólares em obras de arte de qualidade variada, recebeu milhares de visitantes e uma dose evidente de otimismo, entre a ArtRio e a OiR, para quem não sabe, Outras ideias para o Rio. Pelas minhas conversas com americanos em Nova York, há um outro evento em curso o ano inteiro, conhecido informalmente como Se-for-no-Rio-eu-vou.

Ao contrário do saudoso Millôr, os Estados Unidos têm sido o Brasil onde eu vivo. Nova York é um lugar de impermanência, onde cavo pequenas trincheiras de resistência culinária, musical, emocional. Depois de 27 anos fora, cada breve volta ao Rio é marcada pelos sobressaltos de quem vai ao encontro do namorado da juventude. Será que exagerei na maquiagem ou fiz o comentário errado? Hão de me querer mal por ter mudado? No Rio que deixei, a gente não achava natural uma pintura de Tarsila do Amaral trocar de mãos por R$ 15 milhões, nosso imaginário não chegava a tantos zeros. Luminares estrangeiros do cinema, música e das artes não tropeçavam uns nos outros por uma fatia da atenção de um recém-enriquecido público, disposto a pagar preços extorsivos por ingressos. No meu Brasil nova-iorquino, pude me fartar ouvindo o arcanjo chamado João Gilberto durante mais de duas horas no Carnegie Hall, e o ingresso me aliviou, no máximo, de uns US$ 80. No Estados Unidos brasileiro, como justificar o ingresso de R$ 1.400 pela turnê cancelada em 2011?

Acho que o nosso capitalismo hipercafeinado carece de parâmetros de mercado. Até em Manhattan os brasileiros cobram fortunas pelo que fariam por uma fração perto de casa. Um mineiro, depois de segundos de reflexão, me cobrou US$ 1 mil para descascar e pintar um quarto de 10 m², desde que eu comprasse o material.

Na ArtRio, fiquei impressionada com o estoicismo de quem pagava R$ 25 por um sanduíche semicongelado, que incluía o direito de mastigar com vista para a Ilha Fiscal. Mas a economia do nosso mercado cultural tem outra característica que testaria a ideia marxista do fetiche da mercadoria. O cobiçado, aqui, é de graça. A elite espera ser convidada para tudo e presenteada com objetos culturais, roupas, bugigangas.

Quando o Brasil não era a sexta economia do mundo, quando devíamos as calças aos bancos americanos, era mais fácil para esta carioca cruzar os percalços da rotina de trabalho. Agora, é um pouco estranho negociar cortesia e profissionalismo a poucos metros de uma escultura sublime de Richard Serra, cujo desembarque por estas praias há de sinalizar pujança econômica. Mas os zeros no cheque do felizardo que levar o Serra para casa não compram educação, bom senso ou civilidade. Esses não chegam de navio. Depois de uma semana de trabalho aqui, me pareceu que o Rio de Janeiro dos eventos globais precisa, urgente, de um banho de boas maneiras municipais. Lembro que sou carioca primeiro e prefiro estar enganada.

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