Maravilhas em cera de abelha

Os que amam a história da Renascença florentina estão a par dos acontecimentos que cercam o atentado contra Lourenço de Médici, em abril de 1478. Durante missa na Catedral metropolitana, os dois irmãos Médici são apunhalados. Juliano, seu colaborador no governo, é assassinado por Francisco Pazzi. Refugiando-se na sacristia, Lourenço sai apenas ferido. No atentado, os banqueiros da família Pazzi, inimigos dos Médici, contaram com a cumplicidade do arcebispo de Florença e até do papa Sisto IV, figura já suspeita por ter formalizado tanto a Inquisição espanhola quanto as descobertas de terra pelos portugueses. Também estão a par da repressão levada a cabo pelos aliados dos Médici, que fecha o conflito sangrento entre banqueiros rivais pelo poder em Florença.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2013 | 07h22

Na tarde de abril de 1478, com o pescoço envolto em curativo e com as roupas esfarrapadas e cobertas de sangue, Lourenço, o Magnífico, aparece no balcão do Palácio dos Médici. "Meus ferimentos não são graves", esclarece. Aconselha calma à multidão e pede clemência para os conspiradores.

Os que amam a história da Renascença florentina talvez não estejam a par do fato de que familiares e amigos dos Médici encomendam ao artista Orsino Benintendi (futuro responsável pela famosa máscara mortuária do governante) três imagens votivas de Lourenço, esculpidas em cera e no tamanho natural. Três ex-votos, três "voti in figura". Junto às massas, o realismo da efígie em cera ("pare veramente più che vivo"), aliado à eleição da mídia popular, atesta a favor das graças recebidas de Deus pelo governante.

Manchadas de sangue e dilaceradas pelo punhal assassino, as roupas do Magnífico vestem um dos três ex-votos. Sabe-se que foi o que ganhou lugar no convento Santa Regina Coeli, ao lado do milagroso Crucifixo pertencente ao beato Chiarito. A segunda efígie é confiada à Igreja da Santíssima Anunciada, cujo átrio já estava entupido por uma variedade infinita de esculturas em cera, e a terceira, enviada a uma basílica de Assis.

Os que amam a história da Renascença florentina não estariam a par (et pour cause...) do chocante silêncio que recobre as peças esculpidas em cera naquele período. O historiador da arte Giorgio Vasari (1511-1574) é praticamente a fonte única, só retomada em 1910/11 por Julius Von Schlosser com História da retratação (Porträtbildnerei) em cera, ensaio hoje clássico.

O escandaloso intervalo de quatro séculos emudece o surgimento, o apogeu e o desaparecimento das peças artísticas esculpidas em cera. Na modernidade, Aby Warburg conjeturou que no silêncio intervalar estaria o "elo perdido", que ata a Antiguidade clássica à sua "sobrevivência" (Nachleben) no século 15 florentino.

O silêncio recobriu a avaliação justa e a apreciação estética do volumoso artesanato em cera. Refiro-me a efígies, esculturas de animais, modelos para conjuntos em mármore, como no caso de Michelangelo, etc. Sucessivos incêndios estão por detrás do desaparecimento da maior parte dos acervos em cera e do silêncio crítico. Um dos mais trágicos ocorreu em 1630 na Igreja da Santíssima Anunciada. Inventário feito naquele ano diz que lá estavam encasteladas mais de 600 figuras em cera, muitas no tamanho natural.

Devido aos incêndios e ao desgaste no tempo, as magníficas esculturas renascentistas derretem literalmente. Voltam a ser cera e, a partir de 1786, alimentam definitivamente a produção de velas votivas. A ceroplastia fora expulsa do campo das belas artes. Cede o lugar prestigioso às peças vazadas em bronze.

Os historiadores da arte saudaram com entusiasmo um simpósio organizado pelo Getty Research Institute de Los Angeles, no ano de 2005. O tema proposto, "Duração", privilegia a cera de abelha, único material escultórico natural e, por isso, maleável e perecível, voluptuoso na textura e frio ao tato. E traz à baila uma notável produção florentina, em vias de desaparecimento eterno no século 20, não fossem as pesquisas de Schlosser (o ensaio seminal mencionado acima é então traduzido pela primeira vez ao inglês) e de Warburg, retomadas por contemporâneos como o francês Georges Didi-Huberman.

Privilegia a cera e contempla também as esculturas que, a partir do século 18, comunicavam com o ensino de anatomia, obstetrícia e patologia. Nos anfiteatros das Escolas de Medicina, os simulacros das entranhas humanas, em cera e a cores, driblavam a dissecção dos corpos. Pareciam "reais" e não expunham aos olhos a putrefação da carne. Não se sentiam as exalações fétidas dos cadáveres. Contempla ainda os acervos esculpidos em cera, que retratam as grandes figuras da história oficial e criminal para expô-las ao público, como o Museu de Cera Madame Tussaud, precursor da nossa estética pop.

O tema proposto tem seu contraponto na contemporaneidade. Contempla os intrigantes retratos do fotógrafo Hiroshi Sugimoto, encomendados e expostos em 2000 no Guggenheim de Berlim. Toda a série de Portraits tem por modelo notáveis figuras da política e da arte ? todas esculpidas em cera. Destaco hoje o estupendo retrato de Jean Harlow. Finalmente, articula as esculturas neovanguardistas em cera ? como as do inglês John Isaacs, dos americanos Robert Gober e Kiki Smith, e do brasileiro Ângelo Venosa ? com a história da arte. Nossos contemporâneos dialogam, por sua vez, com o escultor barroco Gaetano Giulio Zumbo (1656-1701) que, em cera, fez da arquitetura clássica moldura para a decadência física dos homens e as representações da carne doentia e moribunda.

Essa profusão de temas instigantes e afins está à espera do leitor nos vários e diferentes ensaios acadêmicos lidos no simpósio "Duração", hoje reunidos na coletânea Ephemeral bodies (Corpos efêmeros). Sob a supervisão da historiadora da arte Roberta Panzanelli, o livro foi publicado pelo Instituto de Pesquisas Getty.

E-mail: silviano.santiago@estadao.com.br

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