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Maratona Pynchon

Torrencial, digressivo, perifrástico, o autor não é mesmo para qualquer bico

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 02h00

Costumo dizer que parei de ler ficção recente com mais de 350 páginas porque a vida é curta para me ocupar por muito tempo com problemas e alegrias de pessoas que não conheço e nem reais são. O Último Grito tem 589 páginas, mas é um livro de Thomas Pynchon. Seu cartapácio anterior, Vício Inerente, tinha 459 páginas. Seu mais volumoso romance, Contra o Dia, rompeu a barreira das mil páginas. Foi sempre assim, desde o primeiro, V. (492 págs.), com a honrosa exceção de O Leilão do Lote 49, que era uma novela. 

Torrencial, digressivo, perifrástico, por vezes abstruso, Pynchon não é mesmo para qualquer bico e leitores impacientes. Se devidamente sintonizado, nem as partes enfadonhas - que as há, sem dúvida - prejudicam a viagem. Pynchon, além de brilhante, é diversão garantida; sobretudo se você conseguir pescar as enciclopédicas referências que são o sal e a pimenta de suas narrativas. 

Antes da invenção do Google, era incomparavelmente mais trabalhoso acompanhá-lo e saborear toda sua erudição e toda sua mordacidade. Atravessei as 785 páginas de O Arco-Íris da Gravidade, talvez sua magnum opus, a consultar anotações sobre dezenas de personagens secundários, mais a Enciclopédia Britânica, dois historiadores da 2.ª Guerra Mundial, um dicionário de alemão e alfarrábios de cinema. Identificar quem é quem ou o que é o que, eis um dos maiores prazeres que nos oferece a ficção de Pynchon. 

Os sites de busca da internet facilitaram sua fruição à beça, mas quanto maior a intimidade do leitor com, por exemplo, a cultura pop (cinema, música, TV, quadrinhos) e a história contemporânea, mais fluida será a leitura de qualquer obra do escritor. Em todo caso, a blogosfera está cheia de hermeneutas da prosa pynchoniana para consultas emergenciais.

Não desanime se não encontrar informações sobre alguns nomes, lugares e produtos, citados, pois eles podem ter sido inventados pelo autor, não necessariamente para nos deixar ainda mais complexados diante de seu eclético conhecimento de praticamente tudo que de relevante (história, geopolítica, ciência, filosofia, arte, informática, urbanismo) e irrelevante (telesséries antigas, velharias musicais, videojogos, karaokê coreano, sorvete russo, dieta kosher, etc.) existe entre o céu e a terra. Até hoje, por exemplo, nem eu nem o crítico de cinema Jonathan Rosenbaum conseguimos identificar o “Kenosha Kid” de O Arco-Íris da Gravidade. Minha imediata suspeita (o menino prodígio George Orson Welles) era infundada.

Logo nos capítulos iniciais de O Último Grito, cruzamos com pelo menos duas enigmáticas personalidades - Otto Kugelblitz e Nicholas Windust - que pertencem ao repertório fakeficcional do autor. Kugelblitz, apresentado como um pioneiro da psicanálise que foi expulso do círculo mais íntimo de Freud, emigrou para o Upper West Side de Manhattan e encheu a burra cuidando da psique de ricaços, não passa de um compósito de Otto Rank com Jacques Lacan. Windust, agente da CIA com bons serviços prestados a ditaduras latino-americanas, é um avatar de Dan Mitrione, aquele mestre em torturas justiçado pelos tupamaros três anos antes de Yves Montand encarná-lo no filme Z. 

A CIA é uma instituição onipresente na paranoica ficção de Pynchon, movida a fraudes, conspirações e golpes, não fosse a paranoia, para ele, “o alho na cozinha da vida”, ou seja, nunca é demais. Sua fixação na Guerra Fria só tem dois concorrentes do mesmo naipe: Don DeLillo e, pouco mais abaixo, Robert Coover. Sinta-se à vontade para fazer desse trio um quarteto, com o acréscimo de Terry Southern. Há quem acredite que o principal motivo da obstinada (e bem-sucedida) reclusão de Pynchon é seu receio de ser molestado pelo FBI. Subversivo ele é. Nenhum outro escritor contemporâneo submeteu os governos dos EUA, a sociedade americana e a ganância corporativa a tantas e tão sarcásticas espinafrações.

 

O frenesi de Vício Inerente tinha como pano de fundo a Amerika dos primeiros meses de 1970, quando Nixon dava as ordens na Casa Branca, Ronald Reagan governava a Califórnia e Charles Manson aguardava julgamento. O Último Grito cobre os vícios inerentes ao final do segundo governo Clinton e ao início do bushismo, culminando com o apocalipse de 11 de Setembro, mas indo além dele. 

Desta vez, até o golpe financeiro de Madoff entra na dança, pois a trama tem como eixo e prima donna uma daquelas mulheres poderosas ou apenas muito espertas (Oedipa Maas, Sasha Fay Hepworth) que só parecem brotar na cabeça de Pynchon: Maxine Tarnow, metida em maracutaias ao sabor do estouro da bolha da indústria ponto-com, na virada do século, quando ainda se jogava Tetris no computador e se navegava na internet a bordo do Netscape.

Por mexer com tantas coisas, os romances de Pynchon deveriam vir providos de notas de rodapé e índice remissivo. Para mim, aliás, qualquer romance com muitos personagens só teria a ganhar se pudéssemos localizá-los e também as situações em que aparecem no texto mediante uma simples consulta analógica, do tipo em que página o World Trade Center é mencionado pela primeira vez em O Último Grito. (Resposta: 119.)

Por seu delírio verbal, Pynchon é um desafio ininterrupto para os tradutores. Sorte nossa ele ter caído aqui nas mãos do poeta Paulo Henriques Britto, que, salvo engano, só não traduziu Vício Inerente, entregue ao know-how de Caetano W. Galindo. Britto dribla todas as armadilhas e não se intimida com o aparentemente intraduzível. Ao ler este trecho (“Nunca se meta com gente da Jamaica, que quando você fala em baseado na lei eles pensam que é legalização da maconha”), não resisti à tentação de confrontá-lo com o original: “Do not, ever, associate with nobody from Jamaica the island, he thinks joint custody means who brought the ganja”. De tirar o chapéu.

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