Maratona de espetáculos no Festival de Teatro de Curitiba

Entre mostra paralela e oficial, são 123 as peças em cartaz neste sábado no Festival de Teatro de Curitiba que começou na quinta e termina no dia 1º de abril. A maratona começa às 9h30 da manhã com as apresentações de dois espetáculos ao ar livre - O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, no Largo da Ordem, vinda do Rio de Janeiro, e outra do palhaço mexicano Daniel Quesadas, na Praça Osório. E só termina de madrugada, já que nada menos do que nove espetáculos começam à meia-noite.Nos onze dias da mostra curitibana, a capital paranaense vai abrigar mais de 200 espetáculos, numa média de três apresentações por espetáculo. Na mostra oficial - em que as companhias são convidadas por uma comissão de curadores - serão 21 espetáculos. As demais se dividem entre infantil e o Fringe, a mostra paralela.Os números vistosos fazem do festival de Curitiba o maior festival nacional do País. Mas vale observar que entre as 180 peças do Fringe, 108 são daqui mesmo, de Curitiba. Muita vitalidade no teatro local? Talvez não seja bem assim. ?Há dez anos faço teatro nesta cidade e sempre, no festival, vejo surgirem espetáculos cujos diretores ou atores eu nunca ouvi falar?, diz Rodrigo Ferrarini, ator e produtor da companhia curitibana Pausa, cujo espetáculo Menos Emergências, estreou no Fringe na sexta-feira.Vale dizer que 90% dessas 108 peças curitibanas são comédias com títulos como Sou Ator mas Não Sou Gay ou Será que Eu Sou (Versão Feminina) ou ainda Será que Eu Sou (versão masculina).Sem contar aquelas peças que retornam ao Fringe, como As Confidências da Gorda e O Rato, de Curitiba, ou A Farsa do Mestre Pathelin, de Joinville. Para destacar especificidades diante de tantas peças locais, a companhia de Ferrarini juntou-se a outras três da cidade - Cia. Silenciosa, A Armadilha e Cia. Provisória - no projeto Novos Repertórios para apresentar suas montagens que têm como traço comum a dramaturgia contemporânea. ?Durante o resto do ano em Curitiba é impensável ter cem peças em cartaz?, diz Michele Menezes, produtora da Armadilha, que mostra no Fringe a peça Os Leões, texto de Pablo Miguel de la Veja y Mendoza. ?No auge da temporada, temos 20 peças em cartaz, se muito. Em novembro do ano passado, havia umas cinco apenas e ainda assim não havia público?, diz.No entanto, surpreendentemente, mesmo diante da imensa quantidade de peças, há público, ainda que reduzido, para todas as peças do Fringe. E estão lotadas as peças da mostra oficial, em média três por noite. Alguns espetáculos, como o solo Apareceu a Margarida e Besouro Cordão-de-Ouro já tinham ingressos esgotados antes mesmo da abertura do festival. Como se explica? ?O público que vai à mostra oficial, e mesmo ao Fringe, em sua maioria, só vai ao teatro durante o festival?, argumenta Michele. ?As pessoas querem ver as peças que vêm do Rio e de São Paulo?, diz. Por um lado, é mesmo uma oportunidade de ver o que está sendo criado fora da cidade. E, verdade seja dita, a peça curitibana que abriu a mostra oficial, Colônia Cecília, também estava lotada. ?Fiani, o diretor de Colônia Cecília, é o único que vive de bilheteria aqui em Curitiba. Faz teatro comercial, mas ele tem o mérito de assumir essa opção, não fica tentando se passar pelo que não é?, diz Ferrarini.Evento nacionalUma coisa é certa: o festival acaba tendo como ?efeito? uma ?falsificação? no panorama teatral curitibano e, por extensão, nos números do festival. ?Não há produção local que justifique 108 peças de uma só vez em cartaz?, afirma Ferrarini. Mas há outro aspecto. Um festival não precisa ?ser o maior?. Se tivesse ?apenas? 40 espetáculos, de boa média de qualidade, já justificaria sua existência. E o Festival de Teatro de Curitiba tem o mérito de ser o único evento no gênero inteiramente nacional a ter se firmado no cenário das artes cênicas. Todos demais são internacionais. Só por isso, merece aplausos. Tomara que não jogue fora tal conquista deixando de ser bom para ser o maior.No sábado, o Estado foi conferir no Fringe a estréia da produção paulistana Comendo Ovos, do autor e diretor Celso Cruz, que já havia se destacado na mostra do ano passado com o espetáculo Só As Gordas São Felizes. Nesse novo trabalho, o diretor retoma sua estética em que o despojamento da cena transforma-se em signo de uma ?precariedade? emocional e cultural que é parte integrante da vida de seus personagens, e afeta diretamente o seu comportamento. A maior qualidade de Comendo Ovos reside na forma - se não original, no mínimo rara - como aborda uma relação homossexual. Dois homens se desejam, mas nem por isso se tornam afetados. É o mundo masculino que está no palco, com a virilidade e violência que o caracteriza. Guilherme Freitas interpreta um policial ?de quinta? que se apaixona por um ?bandido de periferia? (Dill Magno), um puxador de carros, um ladrão sem poder, menos que um traficante, na verdade um viciado em coca. Os atores se entregam aos personagens como despudor na medida exata. É especialmente interessante a única cena em que eles se tocam fisicamente, pelo misto de violência e ternura, expresso num gestual tipicamente masculino.Bem diferente é o universo explorado em Línguas Estranhas, produção carioca que estreou no sábado na mostra oficial. Os personagens que sobem ao palco nesse texto de Andrew Bovell são casais de classe média às voltas com problemas como a traição de seus cônjuges, as crises do afeto, as dificuldades de envolvimento características dos agitados tempos atuais. No primeiro ato, uma dupla traição: Leon e Jane, ambos casados, se conhecem no bar e passam uma noite juntos. Por total coincidência, na mesma noite, seus respectivos cônjuges, Pete e Sonia, fazem a mesma coisa, num outro hotel.O público acompanha os diálogos de ambos os casais de forma simultânea, frases alternadas, por vezes entrecortadas. No segundo ato, o tom é de suspense, quando acompanhamos a história de uma psicanalista cuja carro enguiça numa auto-estrada. Aparentemente são histórias independentes, mas todos esses destinos se cruzam em algum momento. A maior qualidade do texto, sem dúvida, está na sua ?carpintaria?, na forma como o autor intercala as histórias e instiga o público a montar o quebra-cabeças, aspecto bem explorado na direção a quatro mãos de Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Carvalho. Quanto à temática, tipicamente de classe média, envolvendo os conflitos do casamento heterossexual e monogâmico, é explorada nessa peça de forma a remover sentimentos que estão um pouco abaixo da superfície. Se não chega a ser um peça para causar turbulência, tem potencial para provocar emoção e reflexão no seu público alvo. Sem qualquer carga pejorativa no termo, Línguas Estranhas poderia ser chamada de ?teatrão? no melhor dos sentidos, teatro para o público de classe média da alta qualidade.

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