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Studio F4/Recife/Divulgação
Studio F4/Recife/Divulgação

Maracatu teatral

No décimo ano à frente da abertura da folia no Recife, Naná Vasconcelos traz novidades no som e no visual

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2011 | 00h00

A abertura oficial do Carnaval Multicultural do Recife é hoje no Marco Zero, com o percussionista Naná Vasconcelos regendo dez nações de maracatu, mas a folia já começou muito antes pelas ruas e praças do Recife Antigo, com blocos de frevo, rodas de ciranda,caboclinhos e até shows de música baiana, além dos ensaios de Naná com os maracatus.

O percussionista completa dez anos à frente da festa de abertura do carnaval da cidade e traz como novidade um aparato percussivo, que batizou de "baticum". "São tambores normais com pedal, com amarração de alfaia, sem tarraxas de metal", explica o músico. Ele costuma brincar dizendo que foram dois astronautas africanos que trouxeram o chip para ele colocar no instrumento, que reservou para um número solo hoje (leia mais ao lado).

A outra novidade é o toque mais teatral no espetáculo. Naná vai apresentar uma peça inédita, uma espécie de sinfonia "afro-espacial", também extraída do virtual chip dos astronautas africanos. "Trouxemos um diretor de teatro e uma parafernália de iluminação, que tem até o pessoal que trabalha com Roberto Carlos", conta.

Há menos nações na reunião este ano, mas o número de batuqueiros continua nos mesmos 500 dos carnavais anteriores. Desta vez eles não desfilam na passarela em frente do palco, honra concedida somente à corte dos reis e rainhas do maracatu. "Compactei mais, porque estava muito largo, quando o ritmo chegava à outra ponta já estava cruzado por causa da distância. Agora é mais fácil de controlar e também conto com os mestres de cada nação para me ajudar a segurar o ritmo."

O cortejo, como nos anos anteriores, começa na Rua da Moeda, com quatro grupos de caboclinhos antes das nações de maracatu. "Depois vêm 40 caboclos de lança, que representam o canavial, o maracatu rural. Cada nação de maracatu vai trazer a sua corte." Além das duas maiores nações do Recife, Estrela Brilhante e Porto Rico, vai ter Oxumirim, do bairro Afogados, estreando na festa. "Todo mundo quer participar", diz Naná. Encanto do Pina, o único maracatu conduzido por uma mulher, Joana d"Arc, participa pela segunda vez.

Desde o ano passado, Naná vem planejando trazer artistas africanos para participar da festa, mas ainda não agora. Por conta de compromissos com o projeto Língua Mãe, que reuniu em Brasília crianças de Angola, Portugal e Brasil, do lançamento de seu CD Sinfonia & Batuques e da conclusão do documentário Terra, Batuque, Trovão, de Eric Laurence, sobre sua relação com os maracatus, faltou tempo. "Se a organização do carnaval quiser, pretendo continuar. Queria muito fazer essa ligação com a África porque, para mim, é natural que ela exista. Preciso pesquisar quem trazer de lá, para que chegue aqui e fique confortável, que colabore e adicione alguma coisa."

O clarins vão anunciar o carnaval às 17 horas de hoje e, além dos maracatus e caboclinhos, a festa de abertura vai ter o Afoxé Oyá Alaxé, com participação de Isaar e Maciel Salu cantando Caboclo, Que Passo É Esse?, com acompanhamento da Orquestra do Maestro Duda. E naturalmente não vai faltar frevo depois dos maracatus. Nome tradicional do gênero pernambucano, Duda comanda o show com participações de Hermeto Pascoal, Carlos Malta, Yamandu Costa e Claudionor Germano, cantor que também cravou seu nome na história do frevo.

Vozes femininas. No mesmo palco do Marco Zero, a partir das 22h30, começa um desfile de cantoras dentro do programa Sob o Mesmo Céu - Mulheres do Brasil no Carnaval do Recife, reunindo veteranas e novatas. As nordestinas Elba Ramalho, Karina Buhr, Nena Queiroga, Isaar e Roberta Sá são exceção entre nomes que não inspiram muita animação carnavalesca: Céu, Maria Gadú, Marina Lima, Mariana Aydar. Zélia Duncan, Fernanda Takai e Pitty podem ter, mais familiaridade, digamos, com esse universo. Mas Naná, que já trouxe Elza Soares, Maria Bethânia e Marisa Monte, já não tem nada a ver com isso.

Dentro do conceito multicultural, aberto a todas as tendências da música brasileira, vale (quase) tudo. Poucas dessas cantoras, porém, têm a força da baiana Mariene de Castro, que fez gloriosa participação no show dos Mascarados, anteontem, no palco Fantasias. Antes dela tocou o Cortejo Afro, com repertório próprio e êxitos passados do Olodum, do Muzenza e outros blocos afros de Salvador. Deu saudade de um carnaval que a Bahia não tem mais. Mariene fechou a noite, comovendo o público e fazendo todo mundo dançar com seus sambas de roda, uma voz e um carisma imensos. A maioria das cantoras de sua geração não chega aos pés dela.

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