Maracanã, 60 anos

Ao aniversariar, o ''gigante'' ganha filme que registra seus últimos dias antes de fechar para reforma - e depois renascer na Copa de 2014

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Anfitrião de milhões de espectadores. Detentor de um passado de momentos memoráveis como o milésimo gol de Pelé e de fracassos retumbantes como a final da Copa de 50. Entre shows de rock que superaram todas as marcas e até finais históricas, é símbolo de um país e de uma era. Em outras palavras, Maracanã.

Às vésperas de completar 60 anos ? na quinta ?, o velho gigante se prepara não para encerrar a carreira e sim para uma metamorfose da qual renascerá e voltará "em sintonia" com a "nova ordem mundial", apto a fazer bonito diante dos olhos atentos dos mais rigorosos agentes do padrão internacional de qualidade.

Com um prólogo como esse, parece ser obviedade das maiores afirmar: a história do Maracanã dá um filme. No entanto, como nem sempre o mais simples é o mais fácil, não há oficialmente registro de um longa-metragem sobre o "Templo do Futebol". Não havia. Há pouco mais de um mês, uma equipe de cerca de 20 profissionais documenta os "últimos dias do Maracanã". Filmando diversos jogos, às vezes com 12 câmeras simultâneas e divididos em várias unidades, o diretor Felipe Lacerda, o produtor Diogo Dahl e equipe registram simultaneamente o que acontece nos quatro cantos do Maracanã durante sua derradeira temporada, antes de voltar "pronto para a Copa do Mundo de 2014".

Com previsão de fechamento para a primeira semana de agosto, o Maracanã vai passar por uma profunda reforma e só deve reabrir em 2013, durante a Copa das Confederações, em uma espécie de ensaio para o Mundial de 2014.

Há dez anos, quando idealizou o projeto, Dahl não imaginou registrar fato tão crucial na história do Gigante. Mas, provando que quando se trata do Maracanã nada é tão previsível assim, Dahl levou outros dez anos para finalmente começar a filmar. "A ideia surgiu de um antigo sonho de fazer um filme quando o estádio completasse 50 anos, mas eu estava em início de carreira e não consegui tocar o projeto", conta.

A história quase se repetiu para estes 60 anos. "Havia planejado e cheguei a fechar com um diretor, mas, de última hora, ele teve de deixar o projeto. Fiquei sem diretor e pensei em desistir de novo", acrescenta Dahl. "Até que um dia, conversando com o Lacerda sobre outro documentário que ele dirigiu, Os Representantes, pensei: Ele pode ser o diretor do Maraca!"

Proposta feita, Lacerda, que codirigiu Ônibus 174 (com José Padilha) e montou filmes como Central do Brasil e Nelson Freire, aceitou. Mas não sem antes aumentar um ponto nesse conto. "Gosto de futebol, mas não sou boleiro. Para mim, ao registrar a morte e o renascimento de um símbolo como o Maracanã é também filmar a própria história atual do Brasil. O estádio é uma espécie de metonímia do que ocorre com o País. Estamos passando por um choque de ordem que nos torna, de certa forma, aptos a receber a visita estrangeira", explicava Lacerda ao Estado, a caminho do Maracanã em plena noite de Fla-Flu.

Em uma quarta-feira de maio, enquanto passava as últimas coordenadas para sua jovem e apaixonada equipe, o diretor tentava responder à pergunta: "Mas por que ninguém fez esse filme até hoje?" Mesmo em frente da rampa Belini, diante de milhares de torcedores do Flamengo, a resposta não veio. Já o filme virá em 2013. "Queremos lançar com a reabertura do Maracanã e levantar essas questões sobre a própria cultura brasileira", adiantou Lacerda.

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