Mar, Mata Atlântica e clássicos em Trancoso

Festival mistura gêneros em uma semana de concertos no monumental Centro Cultural, recém-inaugurado

REGIS SALVARANI , TRANCOSO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2014 | 02h08

Apesar de contar com a participação de músicos consagrados, vindos de vários países, a abertura do Festival Música em Trancoso, no último sábado, ficou a cargo de Josy Santos, uma mezzo-soprano, nascida em Araras, na Bahia, e criada em Caraguatatuba, litoral paulista. Josy emocionou a plateia presente na abertura do festival, não só por cantar o difícil hino nacional brasileiro com precisão, mas por representar o espírito do que acontecia lá. Josy é bolsista do Mozarteum Brasileiro e estuda canto lírico na Alemanha, e o grande sonho de Sabine Lovatelli, fundadora da instituição e curadora do festival, sempre foi desenvolver a educação musical e o gosto pela música clássica entre os brasileiros.

Na noite seguinte, a cantora foi aplaudida de pé ao interpretar as árias Habanera e Seguidilla, da ópera Carmen de Georges Bizet, sempre acompanhada pela competente Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, sob regência do maestro Cláudio Cruz. Ela deu um toque brasileiro, uma pitada de "malemolência" para a cigana Carmen. "O meu diretor cênico na universidade dizia que a Carmen é cheia de clichês, e ele queria ver a Josy e não a Carmen. Isso me deu um estalo", comentou.

O festival está em sua terceira edição e esta é marcada pela inauguração de um ousado Centro Cultural, que inclui dois teatros: um ao ar livre, e outro coberto, exatamente embaixo do primeiro, e com a mesma capacidade, 1.100 lugares. O concerto inaugural ocupou os dois espaços. Não que estivesse previsto, mas a chuva, durante a quarta música, fez com que músicos e plateia corressem para o teatro de baixo. Em menos de quarenta minutos, o concerto recomeçou, e ambas as estruturas foram aprovadas.

O Centro Cultural tem linhas muito originais e se coloca como um monumento em meio à mata Atlântica e o mar. O projeto, que inclui ainda um prédio com lanchonete e salas de ensaio, é do arquiteto de Luxemburgo, Fraçois Valentiny. Ele investigou as pessoas, os hábitos, os sabores, as paisagens de Trancoso para trazer a alma do lugar para a construção, que segue as linhas da paisagem local, para harmonizar estética e acústica. O espaço é permanente e estará aberto para receber outros eventos após o festival.

As duas primeiras noites foram dedicadas à música erudita. Na segunda feira, o show foi comandado pelo pianista e arranjador César Camargo Mariano com seus convidados, Ivan Lins entre eles. "Quando eu comecei a tocar piano, eu comecei a tocar bossa nova e jazz, e o César era meu ídolo na época, por que os trios que a gente ouvia eram Sambalanço (grupo de César), Bossa Três, Zimbo Trio, e Tamba Trio. Então, meu primeiro acorde já tinha sétima, nona, décima primeira... já veio envenenado", comentou Ivan.

O compositor convidado começou a apresentação pouco a vontade como "crooner", porque o piano ficou a cargo do anfitrião. Mas aos poucos se soltou, e acabou cantando Madalena, sua grande composição gravada por Elis Regina, no bis. Um momento muito especial.

Ainda entre os convidados de César, destaque para o harpista colombiano, radicado em Nova York, Edmar Castañeda, que desenvolveu uma técnica própria para tocar jazz na harpa.

Na quarta, a noite foi reservada para a atração mais original do festival, que reúne músicos clássicos e jazzistas na mesma apresentação. "Eu queria tentar uma coisa nova e os músicos clássicos diziam que não poderiam improvisar, mas aqui em Trancoso, com esse espírito aberto, eles criaram coragem, e hoje todos esperam a jam session", diz Sabine. Ontem, o programa foi dedicado à ópera e hoje a orquestra será regida pelo maestro espanhol Antonio Méndez. O festival tem ainda uma série de master classes dos solistas convidados.

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