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Medo e tristeza foram os sentimentos iniciais de Débora Costa e Silva após imposição do isolamento social arquivo pessoal

Mapeamento revela que 53% dos brasileiros têm mais alteração de humor no isolamento social

Ao mesmo tempo, brasileiros descobriram formas de sobreviver ao caos provocado pela pandemia de covid-19 e manter a mente sã

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 10h00

Pare para pensar por um instante e tente se lembrar de como você estava se sentindo em meados de março, quando o Brasil praticamente parou por causa da pandemia do novo coronavírus. Comércio fechado, ruas desertas, algumas empresas adotando o home office. Todos tentando adaptar suas rotinas, seja cumprindo isolamento social ou, com a necessidade de sair para trabalhar, se protegendo contra a covid-19.

Um sentimento de fragilidade. De impotência diante do desconhecido. De ameaça. Assim estava a jornalista Débora Costa e Silva, de 34 anos, que é redatora publicitária. “O que tive foi muito medo, muito pesadelo, muita ansiedade. Fique apavorada e comecei a ter pesadelo com as coisas. Fiquei com mais medo e muita tristeza”, relembra. 

Um estudo conduzido pelo Instituto Bem do Estar e pela NOZ Pesquisa e Inteligência mapeou a saúde mental durante a pandemia. Realizado com 1.515 brasileiros de todas as regiões, idades e classes sociais, o levantamento avaliou questões como hábitos e rotinas, sentimentos e reações físicas, e impacto na alimentação e na libido de casados e solteiros entre 7 e 31 de maio de 2020. O perfil da amostra é composto por 21% homens, 71% mulheres e 7% não informado. A maior parte dos entrevistados (75%) mora no Estado de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil, e 25% distribuídos por todas as regiões do País. 

O medo foi o sentimento predominante durante o período analisado para 71% dos entrevistados, seguido do aumento da preocupação e insegurança. “Analisando os depoimentos coletados na pesquisa fica claro que o medo não é proveniente de um só fator mais de todas as consequências causadas pela pandemia, tanto relacionadas à saúde - ficar doente, contaminar alguém e até mesmo da morte -, mas também das consequências econômicas, como perda de renda e desemprego”, ressalta a pesquisadora Juliana Vanin. 

Um participante do estudo, cuja identidade será preservada, chegou a confessar: “Eu estou muito nervoso com essa situação. Eu me sinto preso. Tenho medo, me sinto sob pressão. Vejo tantas mortes e temo por pessoas próximas a mim. Isso é o que mais me deixa nervoso, ansioso e sob pressão. Estou vivendo um turbilhão de emoções e tento não surtar. Apesar de estar bem, a sensação de insegurança é um fantasma que me acompanha. Como queria que tudo isso acabasse”.

A engenheira florestal Gabriela Alejandra da Cruz Malpeli, de 36 anos, também identificou as mesmas emoções. “No começo da pandemia, eu estava mais preocupada com a doença, com o senso de proteção contra o vírus. Não fiquei tão preocupada comigo, com o que eu estava sentindo, então, estava mais focada no vírus e formas de me proteger contra ele”, conta. 


Antes do isolamento social, Gabriela saia para caminhar ou correr todos os dias em um parque na cidade de Piracicaba, onde mora. Mas o local foi interditado. “Logo no começo da pandemia o parque fechou e eu senti que precisava buscar alguma coisa. A academia não fechou no mesmo momento, mas depois. Foi questão de dias para as coisas irem fechando. Vi no Facebook uma amiga ioga online e ela me ofereceu. Ela é professora de ioga e me chamou pra fazer”, diz. Anne Rocha, amiga de Gabriela, foi a grande responsável por incentivar a prática em tempos de quarentena. “Senti as mudanças no mesmo dia. Sou uma pessoa que, quando fico emocionalmente ‘mexida’, sinto muita tensão no corpo, então, a ioga é uma forma que encontrei para relaxar. Depois da ioga consigo focar mais nos estudos”, ressalta a engenheira florestal, que agora faz outra graduação, online, de Engenharia Agronômica na Unifesp.

 


Sobre a realização de atividades ligadas à mente e à rede de apoio, 28% dos entrevistados da pesquisa Saúde da Mente & Pandemia apontam que estão praticando meditação e 13% ioga. “Notamos claramente os benefícios que atividade física pode gerar para a saúde mental, especificamente no período de isolamento. Quando comparamos a prática de atividade física e o aumento de sentimentos vinculados à depressão e ansiedade percebemos, por exemplo, que enquanto 61% dos que reduziram a atividade física se sentiram mais desanimados devido ao isolamento social, entre os que conseguiram aumentar muito a frequência esse número caiu para 38%”, informa Juliana Vanin, da Noz Pesquisa e Inteligência.

Em relação aos sintomas físicos, entre os que diminuíram a frequência dos exercícios, 37% afirmaram sentir mais dores de cabeça. Outra reação que teve grande aumento foi a insônia: metade dos pesquisados, 51%, afirmaram ter dificuldade para dormir.

Assim como Gabriela, Débora Costa e Silva também fez de tudo para que a sensação de medo e insegurança não tomassem conta dela. Ao perceber que ficaria em isolamento social por muito tempo, a jornalista redescobriu uma paixão que estava relativamente ‘adormecida’: a música. Então, ela decidiu organizar as próprias lives, se apresentando para amigos nas redes sociais. 

“O que me ajudou foram as lives de música que fiz. Foi um alento porque me distraí, resgatei um prazer por algo que estava um pouco adormecido. Na quarentena pensei: ‘Puxa, vou usar esse tempo para fazer uma coisa que eu gosto’. E também tive aquele sentimento de urgência: ‘Ah, o mundo está acabando, a morte está à espreita e eu não estou fazendo o que eu gosto com todas as forças’. E realmente é um ânimo. Eu preparo um repertório, faço foto e tudo. Comecei a me soltar e virou um momento de diversão e de encontro com meus amigos. Então, faz bem pra mim. Achei quase que um propósito”, afirma. 

As lives de Débora foram ficando mais sofisticadas e ela chegou a transmitir apresentações temáticas, como um ‘bailinho anos 1980’ e uma homenagem às divas da música mundial.


Assista ao vídeo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Isabel Marçal, cofundadora do Instituto Bem do Estar, avalia que estamos vivendo um dos momentos mais desafiadores da história humana. “Um cenário de incertezas, medo, perdas, alteração substancial da nossa rotina diária e divergências  de informações sobre como se proteger. Diante deste panorama, as oscilações de humor são normais e mais frequentes, mas não podemos deixar de nos atentar a elas”, ressalta. 

Além disso, na opinião dela, a saúde mental agora precisa de ainda mais atenção: “Muito tem se falado e estudado sobre saúde mental pós-pandemia, com um aumento considerável de transtornos compulsivos obsessivos (TOC) e neuroses. Para diminuir o impacto da pandemia em nossa saúde da mente, precisamos adotar ações coletivas, como abrir espaços que impulsionem o debate, a troca de experiências e a escuta de novas visões e percepções em relação ao tema”. 

É preciso diminuir o estigma que a saúde mental carrega e dar voz para as pessoas falarem sobre o assunto, sem os julgamentos que acabam calando e sufocando o indivíduo. As próximas etapas da pesquisa Saúde da Mente & Pandemia, que acontecerão entre agosto e novembro, prevêem a ampliação no número de respondentes e do perfil da amostra, com particularidades e desafios das periferias, juventudes e novo ambiente de trabalho. 

Ao final do levantamento haverá cinco mapeamentos públicos: o primeiro em agosto com a análise desta primeira etapa; os seguintes referentes aos três recortes de perfis (novembro de 2020) e, em janeiro de 2021, o mapeamento final com a comparação dos dados levantados e uma análise propositiva do impacto do isolamento social na saúde da mente. 

“Observamos que entre as pessoas que estavam saindo menos de uma vez por semana durante o período que realizamos a pesquisa, 70% estavam se sentindo mais emotivos. Quanto maior o nível de isolamento, maior o porcentual de pessoas com aumento dos sentimentos e reações físicas ligados à ansiedade e depressão. Entretanto, é extremamente importante observar que entre os que estavam saindo cinco ou mais vezes por semana, que abrange as pessoas que mantiveram sua rotina profissional fora de casa, os porcentuais são intermediários. Além disso, o porcentual de pessoas com aumento da sensação de medo e preocupação excessiva foi bastante alto, 65% e 67% respectivamente”, conclui a pesquisadora Juliana Vanin.

Os dados sinalizam as possíveis consequências na saúde mental causadas pela pandemia e pela falta de políticas uniformes de isolamento, que provavelmente poderiam ter reduzido seu tempo e a taxa de contágio. Porém, essas tendências serão validadas nas próximas etapas do projeto que seguirão até janeiro de 2021 com o mapeamento final, “Sociedade de Vidro na Pandemia”, que contará com a comparação dos dados levantados e uma análise propositiva do impacto do isolamento social.

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Medo, sociedade e cultura: Como lidamos com o sentimento no mundo contemporâneo

Manipulação das massas provoca perda da consciência individual, mas é possível driblar a ansiedade diante do desconhecido

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 05h00

O medo é um mal necessário, na medida em que precisamos dele para tomar atitudes preventivas. A criança que coloca o dedo na tomada e se machuca, por exemplo aprende a não repetir a ação. O medo é uma das seis emoções básicas dos seres humanos em uma definição já apresentada por Charles Darwin em um livro menos conhecido, A Expressão das Emoções em Homens e Animais

Para desvendar essa emoção nos seres humanos e na sociedade e como reagimos diante do medo, o Estado conversou com o psicanalista Christian Dunker, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, e a professora de Sociologia da FAAP Crislaine de Toledo Francisco.

“O que caracteriza o medo é uma prontidão para a ação. Quando a gente sente medo, vão se intensificando os sinais corporais, o foco da atenção, e isso caminha para uma espécie de encruzilhada: ir em frente, atacar, recuar, fugir. Encontrar defesas para aquele objeto que é a causa do medo”, avalia Dunker. O psicanalista e uma série de especialistas debateram o tema na edição especial da Revista Humboldt, uma publicação digital do Goethe-Institut e que estabelece um diálogo contemporâneo entre a Alemanha e a América do Sul. A publicação conta com análises sobre o medo na política, na literatura, cultura e sociedade. 

Historicamente falando, o ser humano sempre sentiu medo. Na Era Antiga, existia medo de ser escravizado ou morto. Na Idade Média, o receio de não estar protegido dentro de um feudo. 

No mundo contemporâneo, o estado conquista a ‘tutela’ em relação ao manejo desta emoção. “Na modernidade, o estado toma para si a política de construção do sujeito e vai construir isso através das instituições, das escolas, família, empresas, economia, cultura e o estado passa a meio que administrar um pouco estas emoções das quais o Christian se referiu”, avalia a professora de Sociologia da FAAP Crislaine de Toledo Francisco. 

O medo precisa ser algo que faça o indivíduo se sentir seguro. Na visão da socióloga, o estado precisa manter seus cidadãos sob o efeito de uma seguridade social. “É a segurança dada por um ‘estado pai’, porque, de alguma forma, esse sujeito não pode ser levado ao pânico. Ele precisa de instrumentos subjetivos para conter esse pânico e se manter dentro de si, para que não caia na loucura”, diz.

Nesse ponto, há uma sincronia entre a filosofia política e a psicanálise, como lembra Christian Dunker. “O uso político desse afeto tem uma certa administração do futuro. Assim como a raiva é um sentimento que nos projeta ao passado, o medo nos leva ao futuro. Os regimes modernos, por exemplo os tirânicos ou os escritos por Maquiavel, se especializaram em criar uma experiência de medo para dizer: ‘olha, vocês precisam de alguém’ ou ‘olha como o mundo é inseguro, quantos perigos não existem por aí’. Em seguida, após esse desamparo, oferecem o paternalismo. Em resumo: se entregue aos cuidados de alguém mais poderoso, porque sozinho você não consegue”, afirma.

Christian Dunker acrescenta que este é o cenário ideal para o surgimento do populismo e das tiranias no mundo. “Vai aparecer aquele sujeito que vai vender proteção em troca do medo que ele mesmo causou. ‘Venha com esse que tem tanto poder’, que, para ter tanto poder, precisa parecer com uma figura ameaçadora, ‘esbravejadora’. E a gente fica numa encruzilhada: vou com ele e me coloco sob esse guarda-chuva ou fico sozinho e posso ser objeto da raiva deste pai? Esse é o ‘pai hostil’ do complexo de Édipo, a quem eu tenho, no fundo, sentimentos hostis, mas eu suprimo esse sentimento em troca da proteção que ele me oferece”, avalia.

Como agir diante do medo durante a pandemia do novo coronavírus

Em maior ou menor grau, o indivíduo se depara com o medo durante a pandemia do novo coronavírus. No início, o inimigo comum era a covid-19. Agora, alguns líderes se aproveitam do momento para manipular a situação em benefício próprio. “A grande estratégia dos totalitaristas é dividir a realidade em duas: ‘Você está do meu lado ou é meu inimigo’. Nesse momento de pandemia, a princípio, a gente começou com um inimigo invisível chamado novo coronavírus. Mas, com as políticas de enfrentamento a essa pandemia, muito rapidamente os grupos humanos vão se colocando em lados opostos. E esses grupos sociais, políticos, vão se dividir em dois grupos: ou você está do meu lado ou é um inimigo da nação, da vida”, ressalta Crislaine de Toledo Francisco.

Para o indivíduo, solitário em seus pensamentos, lidar com o medo parece pesado demais. A angústia provoca processos de projeção: aquilo que não conseguimos reconhecer em nós mesmos, colocamos no outro. “Manipulado politicamente, esse sujeito consegue se conectar com o outro que nos habita, com o que está dentro de nós, que são nossos complexos, nossa tendência a negar aquilo que é fonte de muita angústia. A gente cria inimigos. No estado em que a gente se vê atacado por dentro e por fora, a gente regride e volta a um funcionamento mais simples, uma infantilização. O estado de massa implica em redução cognitiva, demitir-se da sua responsabilidade. A gente faz coisas que nunca faria se estivesse sozinho. Naquela conversa de bar, você fala o que raramente falaria se estivesse sozinho com o outro”, pondera Dunker.

Apesar de sermos, de certa forma, forçados a nos dividir, a socióloga Crislaine de Toledo Francisco esclarece que é possível driblar o medo. “Você não está perdido na massa, apesar de as políticas muitas vezes tentarem fazer isso com a gente, nos dar uma possibilidade ilusória em aspectos como consumir, se entorpecer. Lembre-se: seu mundo interior está povoado, está recheado de repertórios significativos que devem e podem ser resgatados agora com firmeza para que você consiga se preservar nesse momento de recolhimento. Para que você consiga, na volta ao seu convívio social, não se esquecer de quem você é, de quem está aí dentro, apesar dos inúmeros estímulos que podem querer te levar ao pânico ou ao medo do incontrolável”, conclui.

Na opinião do psicanalista Christian Dunker, é preciso encarar o medo de frente: “Não faça aquela ‘operação avestruz’ de deixar o resultado do exame em cima da mesa ou o extrato do banco esperando e aí um dia você vai descobrir o tamanho da encrenca. Olhe de frente, se informe, use máscara. A máscara contém uma fórmula ética para o momento. Máscara é para você não passar para o outro. Então, o começo da reflexão é: você está sofrendo, mas não está sofrendo sozinho”.

Assista a entrevista com Christian Dunker e Crislaine de Toledo Francisco para a TV Estadão:

O medo no cinema latino-americano

Na indústria cultural, o medo foi, por muito tempo, importado para a América Latina. Produções cinematográficas do terror eram mais presentes em países da Europa ou nos Estados Unidos. No Brasil, a referência sobre o tema foi José Mojica Marins, conhecido como Zé do Caixão, personagem que criou em 1963, mesmo ano do surgimento do filme que marcou sua carreira: À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O ator e cineasta morreu em fevereiro deste ano. 

Na Argentina, por exemplo, três filmes ganham destaque, na opinião do crítico de cinema Diego Brodersen, diretor de programação da Sala Leopoldo Lugones, do Teatro San Martín, em Buenos Aires. “Há um trio de filmes inevitáveis: Una luz en la ventana (1942), de Manuel Romero, com Narciso Ibáñez Menta no papel principal; El extraño caso del hombre y la bestia (1951), de Mario Soffici, em seu duplo papel de diretor e ator; e as Obras maestras del terror (1960), de Enrique Carreras, baseadas em relatos de Edgar Allan Poe”, afirma. 

Brodersen ressalta que o México, por exemplo, possivelmente é o país da região que mais se empenhou em produzir horrores cinematográficos. “A gente tem clássicos muito pioneiros como La llorona (1933), de Ramón Peón, ou títulos como El vampiro (1957), de Fernando Méndez, e Hasta el viento tiene miedo (1968), de Carlos Enrique Taboada, marcam uma afinidade com temáticas e estilos importados dos Estados Unidos e da Europa, mas assimilados ao folclore e aos relatos populares regionais”, finaliza.

Serviço:

Revista Humboldt - Especial sobre o Medo

A origem do medo e interferências na política, sociedade e cultura, com artigos de autoras e autores da América do Sul e da Alemanha. 

Para conferir a edição digital completa, acesse o site.

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