Mapas traçados no tempo e no espaço

Em História da Eternidade (1936) e Atlas (1984), que voltam às livrarias, Jorge Luis Borges explora seus universos

Wilson Alves-Bezerra, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Em 1932, num texto agora célebre, O Escritor Argentino e a Tradição, Jorge Luis Borges (1899-1986) se perguntava acerca da tradição cultural argentina, para terminar constatando que "ser argentino é uma fatalidade", e que "devemos pensar que nosso patrimônio é o universo". Era a libertação do escritor das amarras da identidade nacional; opção drástica para quem insistira nos temas e na mitologia portenhas e chegou a ensaiar um Idioma dos Argentinos (1928). Tal inflexão é plena de consequências para sua obra, pois é quando dá início ao exercício de catalogar o universo.

É este Borges da vertigem, surgido em Discussão - livro de onde foi recolhido o ensaio acima -, que também está presente em História da Eternidade (1936), agora relançado. Trata-se do autor que se permite manejar a filosofia universal, passando de um autor a outro com a desenvoltura de quem embaralha os livros da própria biblioteca, e faz do paradoxo seu cotidiano de escrita.

Embora o tema da eternidade já houvesse sido ensaiado antes por ele, aqui ele é fartamente explorado. Já no ensaio que dá nome ao livro, revisitando as filosofias platônica, neoplatônica e schopenhaueriana, Borges faz um catálogo de belas imagens - como por exemplo "A eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança" - para finalmente concluir que a eternidade não é a sucessão dos tempos, e sim "uma coisa mais simples e mais mágica: é a simultaneidade desses tempos", inconcebível "sem o auxílio da morte, da febre ou da loucura".

Os demais artigos procuram o eterno em lugares inusitados: nas metáforas da poesia da Islândia, na doutrina do eterno retorno de Nietzsche, na concepção do tempo circular, para desembocar num artigo primoroso em que coteja diversas traduções das Mil e Uma Noites. A noção da simultaneidade é um dos pilares do anacronismo deliberado de Borges; se os argentinos, segundo ele, têm direito ao universo, ao abolir-se o sucessivo, tudo passa a existir num puro presente.

Por falar em tempo, no já distante 1984, quando publica Atlas - que ganha nova tradução para o português -, Borges é um homem cego e frágil de 85 anos, que revisita empírica e literariamente as terras que conheceu, com a sua jovem esposa e secretária María Kodama, para fazer um livro turístico sob o signo da morte. Soa algo paradoxal uma obra aparentemente de ameno turismo familiar, tecida por uma sucessão de fotos de casal e textos que remeteriam àquelas experiências.

O leitor pode se lembrar de Los Autonautas de la Cosmopista, a narração de uma viagem de Kombi de Julio Cortázar e esposa pelo interior da França, em 1982. Os textos deste último Borges interessam, entretanto, não pela incômoda sensação prosaica que o livro suscita, com as fotos privadas do autor. A sua vida foi sobretudo literária, e não causa comoção vê-lo à deriva numa praça em Veneza. O que chama a atenção na coletânea são as descrições sensoriais do autor cego, que ao embarcar num balão não se seduz pela paisagem, que lhe é invisível, mas pelo "vento que nos levava como se fosse um lento rio nos acariciava a testa, a nuca ou a face (...) uma felicidade quase física". Nas descrições, há uma celebração dos sentidos que é rara de se ver em sua obra. Borges não se revela nas fotos de Kodama. O escritor, como sempre, se revela por meio de suas próprias palavras.

A cartografia do Atlas borgiano inclui também a morte. Os amigos evocados - como Macedonio, Lugones e Xul Solar - são relembrados a partir da morte, sem patetismo e de modo irônico. Pode-se até incorrer no lugar-comum de dizer que para Borges a morte é libertar-se da literatura: "Suicidou-se Leopoldo Lugones, que terá sentido, talvez pela primeira vez na vida, que estava livre, afinal, do misterioso dever de procurar metáforas, adjetivos e verbos para todas as coisas do mundo."

Para ele, a morte será um salutar esquecimento: "Não há quase nada aqui, sob os epitáfios e as cruzes. Eu não estarei aqui. Estarão meus cabelos e minhas unhas, que não saberão que o resto está morto e continuarão crescendo e serão pó. Eu não estarei aqui, serei parte do olvido que é a tênue substância de que é feito o universo."

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR), TRADUTOR E AUTOR DE REVERBERAÇÕES DA FRONTEIRA EM HORACIO QUIROGA (HUMANITAS/FAPESP)

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