Mapa poética da cena

Ensaios de Sílvia Fernandes permitem uma visão panorâmica da atividade

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Da Gaivota. Peça com Fernanda Montenegro

 

Pode-se dizer que a psicose é uma doença de fragmentação da mente. Memórias e vivências estão todas lá, mas se perdeu a capacidade de fazer conexões. Diante da diversidade da cena teatral contemporânea, múltipla e pulverizada - temporadas cada vez mais curtas com poucas sessões semanais - é preciso agudeza de análise para escapar do olhar psicótico. Afinal, entre cerca de duzentos espetáculos em cartaz semanalmente na cidade há vertentes, filiações, movimentos estéticos e éticos, linhas evolutivas. Difícil é percebê-los.

Daí a importância de um lançamento como Teatralidades Contemporâneas, editado pela Perspectiva, que reúne da pesquisadora Silvia Fernandes, ensaios, prefácios e artigos escritos num decorrer de dez anos. A maioria foi publicada na imprensa de forma dispersa e há alguns inéditos. Lidos em sequência, permitem visão panorâmica da cena contemporânea analisada por essa pesquisadora de olhar arguto, clareza de argumentação e o conhecimento de quem acompanha de forma muito próxima as concepções e a prática cotidiana da atividade teatral.

Olhar. Não é um livro apenas para especialistas. Ao frequentador das salas teatrais a leitura dessas páginas propicia o prazer de revisitar alguns dos mais marcantes espetáculos das últimas três décadas a partir do olhar crítico da autora. Entre eles estão Da Gaivota, montagem da peça de Chekhov dirigida por Daniela Thomas com Fernanda Montenegro, Fernanda Torres e Matheus Nachtergaele no elenco; a concepção de José Celso Martinez Corrêa para o Boca de Ouro de Nelson Rodrigues; toda a trilogia bíblica do Teatro da Vertigem - O Livro de Jó, Paraíso Perdido e Apocalipse 1,11 - e ainda BR3, encenado no Rio Tietê; espetáculos da Sutil Companhia dirigida por Felipe Hirsch, entre eles Avenida Dropsie e Os Solitários, com Marco Nanini, e ainda seis criações da Cia. dos Atores, entre elas A Bao a Qu e Melodrama.

A cada montagem, porém, ou conjunto delas no caso das companhias, a autora tece uma rede de ligações fundamentais para que possam ser compreendidas de forma conectada à arte e à vida de seu tempo. Silvia abre o volume com um ensaio sobre as matrizes fundadoras da cena de Gerald Thomas, em seguida analisa Da Gaivota, de Daniela Thomas e depois vem um artigo sobre a Sutil Cia. de Felipe Hirsch. Não é escolha aleatória e essa simples ordem já revelaria uma filiação detectada pela pesquisadora no discurso autônomo com relação ao texto, no hibridismo de linguagens ou no que chama de teatro "pastoral" em que a paisagem substitui o drama.

Ao avançar na leitura do volume depara-se com novas questões trazidas pelos grupos que se sedimentam na cena na década de 90. No artigo Teatros do Real, escrito para um seminário, toma como exemplo Apocalipse 1,11, apresentado num presídio, e Bastianas, da Cia. São Jorge, encenado num albergue, para detectar uma vertente da cena que nega o realismo, mas busca se aproximar do real. Aponta a diferença de procedimentos entre a cena engajada da década de 60 e atual, que se traduz num teatro de intervenção urbana que sai do palco e invade espaços públicos contaminados de forte carga política e simbólica. Assim as encenações dos anos 80, "de alto calibre estético e baixa voltagem política", são substituídas por outras poéticas. É apenas um traço no mapeamento da cena que esse livro permite visualizar.

Teatralidades contemporâneas

Autora: Sílvia Fernandes.

Editora: Perspectiva (277 páginas, R$ 82).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.