JF Diório/AE
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Manu Chao e o boteco sônico

Em turnê nacional, franco-espanhol fala da guitarrada e dos paradoxos da nova ordem digital

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2011 | 00h00

As outras vezes em que o cantor e compositor franco-espanhol Manu Chao se apresentou no Brasil foi a bordo de sua big band, a Radio Bemba, com média de sete músicos. Desta vez, no show esta noite em um galpão na Vila dos Ipês, na Vila Nova Leopoldina, ele está munido apenas de dois violões e bateria. "É como se fosse no boteco", diz Manu, que está vivendo a sua fase mais botequeira de toda a vida - no sentido estético e filosófico.

Manu não quer mais gravar discos ou álbuns conceituais, afirma. Não tem vontade. No máximo, fará um combo de duas ou três músicas relacionadas entre si. Conta que fica satisfeito em ver as canções novas que toca por aí, nos bares, ganharem o mundo pela internet. Manu falou ao Estado também em um boteco, no Itaim, por mais de uma hora. É um interlocutor ligado, agradável e informado sobre tudo que acontece por aqui - tem um filho brasileiro, cearense, de 12 anos.

Sua turnê passou por João Pessoa (PB), no dia 29, depois Recife (dia 3) e por Brasília (domingo). Sexta é em Guaratuba. Ele volta a São Paulo no dia 13 para um show gratuito no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, a partir das 15h. Hoje, toca para 2,7 mil pessoas cercado de Madji (guitarra e violão) e Gambacito (bateria). "Todo mundo me disse que era loucura, sem baixo não dava, mas está funcionando."

Acaba de gravar com os mestres da guitarrada do Pará, com Mestre Vieira, e está fascinado pelo gênero nortista e pelo carimbó. Também gravou com pacientes de La Colifata (clínica de doentes mentais de Buenos Aires que aparece no filme Tetro, de Francis Ford Coppola), e o resultado é um disco duplo de download gratuito.

Utópico global, ativista militante, Manu Chao foi recentemente "convidado" a sair do México por se meter em assuntos políticos lá - o que é proibido a estrangeiros. Mas não se intimida ou autocensura. "Minha proposta sempre foi esta: um tipo de pacto entre o público e o artista. Que o público faça o esforço de comprar o CD ou qualquer matéria que o artista comercialize. Mas que o artista também faça o esforço, quando tiver todo seu investimento recuperado, de ter dado de comer à sua família, de dizer: está bom, então agora é de graça. É uma utopia que estou realizando ao meu nível".

"Há alguns anos, a gente fazia shows para vender CDs. Agora, a gente faz CDs para fazer shows. Daqui a pouco vai ser muito difícil viver de qualquer coisa gravada. Eu vendo até o ponto em que recupero o investimento. Lancei na França o disco Siberie M"Etait Contée (algo como "Se a Sibéria me fora contada"), 150 mil cópias apenas, com um livro de um artista gráfico polonês chamado Wozniak. Agora, a gente já recuperou os gastos do CD e do livro, e o disco pode ser baixado de graça na minha página."

Manu não se deslumbra nem com a tecnologia nem com as revoluções que ela promete. "YouTube? São ladrões. Eles ganham grana com sua obra, e não é justo. Mas qual é o Estado que mexe com o YouTube, para proteger a vida pessoal das pessoas, ou a obra dos artistas? E aí o YouTube segue fazendo grana com isso. É uma briga complicada", diz o artista, falando sobre as complicadas questões do direito autoral no mundo atualmente.

"Se tudo é livre para todo mundo, tudo bem. Mas e se alguém está fazendo grana com isso? De qualquer modo, é muito apaixonante o que está acontecendo. Tudo está mudando, todo o copyright da música, e da imprensa também, e nós estamos no meio do processo."

A nova situação não é vista com amargura pelo cantor, pelo contrário. "Sempre vão restar os shows. A nossa sorte é que tem esse recurso, a coisa viva. Isso é bom. O pessoal do cinema, no momento, enfrenta o mesmo problema, e é capaz de um dia terem de fazer teatro", brinca. Não acredita na democratização prometida pelos novos meios de comunicação. "O que aconteceu no Egito? A internet era muito livre, mas resolveram cortar e cortaram. Esse sentimento de liberdade não é tão verdadeiro. Quem controla o fluxo controla tudo. Fecharam a torneira, acabou."

Ditaduras. Prefere, no entanto, ser cauteloso sobre os conflitos no Oriente Médio e Norte da África. "Vi de longe, porque já estava por aqui viajando. Então, não estou muito ligado. Mas tinha de acontecer algum dia, não? Faz tempo que essas ditaduras tinham de cair. O povo lá está muito castigado, cara. Estive lá no Egito. Na Argélia, estamos esperando agora que aconteça lá, é uma situação dura, o povo está muito machucado, pisado. Ainda assim foi surpreendente", analisa. "Nos dois casos, foi o povo que se levantou. Minha dúvida é saber se foi orquestrado ou não. Se o Ocidente é que considerou que já era hora, se era melhor ajudar um pouco a fazer, para poder controlar. Até agora não é nenhuma revolução. Na Tunísia, permanecem os mesmos. Ainda é cedo para tirar conclusão. O Egito era o cachorrinho dos Estados Unidos. O que eu penso é que falta um pouco de tempo para ver se não há um maquiavelismo nisso. Mas é importante, porque o povo lá precisava de um pouco de oxigênio. Era insustentável."

MANU CHAO. Vila dos Ipês. Av. Mofarrej, 1.505, V. Nova Leopoldina, tel. 3835-8198. Hoje, 22h30, R$ 100. Centro Cultural Ruth Cardoso. Av. Dep. Emílio Carlos, 3.641, V. Nova Cachoeirinha. Dia 13, 15 h, grátis.

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