Mansões de Clodovil: 200 propostas no leilão

Os tempos são outros. Longe da televisão, Clodovil Hernandes anuncia retorno ao mundo da moda, diz que vai lançar um disco e estrelar um musical. Enquanto isso, coloca suas mansões à venda para levantar uns bons trocados. O lance mínimo pelos imóveis ? na Granja Viana e em São Sebastião ? é estimado em R$ 3 milhões. Os lances no leilão das residências de Clodovil se encerraram anteontem, e segundo o leiloeiro Célio Agnello, da Agnello Leilões, o seu site recebeu mais de 2.000 acessos e obteve 200 propostas, que serão estudadas junto ao estilista para "baterem o martelo".Em entrevista à repórter Deborah Bresser do JT, Clodovil diz: "Não quero nada de raiz. Não tenho pai, não tenho mãe, não tenho filho e não posso deixar nada para os cachorros?, avisa. Antonio e Castanhola, os puggs que circulam pela casa, não terão herança. Ele avisa que não tem divulgadora, nunca teve. Seu discurso atual para a mídia é afinadíssimo.Para suas melhores opiniões, no entanto, ele pede off ? recurso em que o entrevistado exige que a informação não conste da entrevista. Eticamente, o pedido deve ser respeitado. E vocês vão ficar sem saber a opinião dele sobre Amauri Júnior, Jô Soares, Ayrton Senna, Marília Gabriela, Adriane Galisteu, Ratinho, Edir Macedo. E dos projetos que anuncia, nenhum existe. Ainda. O disco? ?Banquei a gravação de uma faixa para mostrar à produtora o que eu quero fazer.? A coleção que irá desfilar? ?Está tudo na minha cabeça.? O musical? ?Noemi Marinho provavelmente irá escrever o espetáculo.? Sua próxima ?aparição? pública promete causar tanto fuzuê como o que fez no desfile de Alexandre Herchcovitch, onde esteve e até deu flores ao ?jovem? estilista. Clodovil mora naquele predinho coberto de heras, ali na República do Líbano, e o convite para encontrá-lo em sua casa foi tentador, já que daria para ver aquele apê de dentro. Mas o dele, certamente, não é parâmetro. Exceto a de entrada, a casa de Clodovil não tem portas ? e joga o interlocutor em uma redoma de intimidade desconcertante. Com vocês, os melhores momentos de Clô, para os íntimos. Clô, olhe para a lente da verdade.Quando você vê o que aconteceu na moda brasileira, não tem a sensação de que perdeu o bonde? Toda pessoa apressada ?goza? fora. Eu não tenho pressa. E a chance de voltar à moda? É um presente de Deus. Apanhei muito, falaram muito de mim, o Clodovil isso, o Clodovil aquilo, mas acho que agora tudo isso está esclarecido. Toda vez que eu estava no auge, era arrogante. Você sempre disse que sua mãe era um exemplo de elegância, apesar de ser simples. Como ela influenciou sua moda? Mamãe era uma mulher chique, polida. Conheci dona Antônia, mulher de um pescador, que era elegantérrima. As mulheres que conseguem unir as duas coisas, ser chique e elegante, são uma dádiva. Audrey Hepburn conseguiu. É como fama e prestígio. Elizeth Cardoso tinha os dois. E o disco, é para dar mais fama, prestígio ou dinheiro? Nada disso. É um prazer. Saí do banheiro e fui para a frente do microfone. Fiz aula de canto muitos anos, gosto de cantar, mas se eu desafino na vida, como não iria desafinar no estúdio? Gravei Da cor do pecado, que pretendo mandar para a Globo e ver se eles colocam na trilha da novela nova. Como é o disco? Tem músicas que têm a ver comigo, e são a base de um espetáculo que eu vou fazer, que se chama As Mulheres da Minha Vida. E filhos? Não tenho filhos pois sou severo demais. Até com os cachorros, que a gente consegue domesticar. Filho não dá. Filho tem índole própria. Você foi um bom filho? Fui agraciado. Eu era adolescente, tinha 13 anos e vi meu pai transando com outro homem. Nunca falei nada. Eu poderia ter usado isso como desculpa e estragado minha vida, mas não foi o que fiz. É índole, fui criado no interior , mas tenho essa coisa de Paris. Ou você é do mundo, ou é local. Meu pai me disse: ?eu não vou te deixar nada, porque nada eu tenho.Você vai estudar?. E foi o que eu fiz. E valeu? É claro. Quando perdi o emprego na TV, pensei: e agora? Eu não sou loira, não tenho silicone, mas tenho cultura. Fui dar palestrar sobre moda, sobre a vida, pelo País. Você quer voltar para a TV? Eu vou voltar para a televisão. Mas na Record eu não trabalharia nunca, pois não comungo da filosofia religiosa da emissora. E a moda? Como foi seu começo e vai ser sua volta? Deus me fez estilista. Quando cursava o normal, em Rio Preto (isso em 54), mandei um desenho para uma revista e eles publicaram! Era malfeito, não sabia desenhar! Fiz um vestido cinza, e dizia para usar com diamantes ou uma imitação ? e eu nunca tinha visto nem um diamante, nem uma imitação. Mas sua carreira começou para valer em São Paulo? É. Quando estava na Faculdade de Filosofia, levei 11 croquis à loja Florence, na Barão de Itapetininga. A dona comprou 6, e eu ganhei mais do que meu pai ganhava no mês. Voltei lá outras vezes, ela olhava os desenhos, mas não comprava. Uma noite vi a vitrine e descobri que ela ?copiava? os desenhos com os olhos cada vez que ia lá. Você nunca pensou em ser estilista no exterior? Nunca tive esse sonho. Mas sei que se tivesse ido para Paris, eu seria um deles. Só que eu não poderia viver longe da minha mãe. E a coleção, já está pronta? Está pronta na minha cabeça. Quero fazer um desfile de alta-costura itinerante, para estimular quem está começando. Vou licenciar meu nome, estou com o mesmo agente que cuida do Alexandre Herchcovitch, e vou terceirizar a produção. Não quero mais ser dono de nada, mas o corte e a execução, vou supervisionar. Moda não é só cheirar cocaína e fazer vestido. E a sua homossexualidade? Sempre achei que o natural era unir homem e mulher, que foram feitos por Deus para ter filhos. Qualquer processo diferente não seria de Deus. Até que me toquei que se tivesse algo errado, não existiram os estéreis. Você ainda quer viver um grande amor?Ninguém nunca transou comigo por amor. E fiquei seletivo ao envelhecer.

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