Manoel de Oliveira em dose dupla

Um filme estreia hoje no Brasil, outro foi exibido ontem no festival francês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Há um "princípio da incerteza" que ronda o cinema de Manoel de Oliveira. Deu título a um filme do mestre português em 2002 e transparece no mais recente que ele realizou. Mais velho diretor do mundo em atividade, Oliveira, aos 101 anos (e meio), vem conseguindo manter a média de um filme por ano. Há tempos que seus admiradores (muitos) esperam o milagre renovado de um novo filme. Oliveira está em Cannes mostrando, na seção "Um Certain Regard", O Estranho Caso de Angélica. Coincidentemente, ou não, outro filme que ele fez há três anos, Belle Toujours, estréia hoje no Brasil como Sempre Bela.

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Trechos de Sempre Bela

Belle dialoga com A Bela da Tarde, propondo uma sequência para o clássico de Buñuel, de 1967. O filme é distribuído no Brasil pela Mostra de São Paulo - e também a Mostra, leia-se Leon Cakoff e Renata de Almeida, são creditados como produtores de Angélica. O cineasta agradeceu a contribuição dos coprodutores brasileiros, que lhe permitiam inclusive contar com uma atriz do Brasil, Ana Maria Magalhães. Ela participou ontem à tarde da coletiva e à noite subiu ao palco da Salle Debussy com a equipe. Exibido no fim da manhã para a imprensa, Angélica inaugurou à noite a Certain Regard (Um Certo Olhar). Quase no mesmo horário, Hector Babenco abriu outra importante seção do maior festival do mundo - "Cannes Classics" -, com a versão restaurada de O Beijo da Mulher Aranha.

Neto do diretor. O Estranho Caso de Angélica segue-se a Singularidades de Uma Rapariga Loira. De novo, o neto de Oliveira, Ricardo Trêpa, faz o protagonista. Ele faz um fotógrafo obcecado pela mulher que foi chamado para retratar. Angélica morreu e sua mãe - a atriz "oliveiriana" Leonor Silveira - lhe pede que imortalize a filha, bem bonita, em seu leito de morte. Ao enquadrar a imagem, Trêpa vê, no visor, o que parece impossível: Angélica lhe sorri. A partir daí, fica cada vez mais possuído pelo mistério da mulher.

Angélica parece, do ponto de vista técnico, um filme antediluviano. Em tempos de Avatar, parece anacrônico, mas é o que faz seu charme e fascínio. A técnica de Oliveira é Lumière, Méliès, Griffith. Não lhe interessa a "modernidade" técnica, porque ela se liga ao desenvolvimento da ciência do cinema, e o que vale ao grande autor é a arte, o filme como forma de expressão.

Hitchcock já contou, de forma diferente, uma história parecida: Scottie (James Stewart) deseja Madeleine (Kim Novak), que morreu em Um Corpo Que Cai, e chega ao limite de reconstruí-la no corpo de Judy (Kim, de novo). A "história" também tem algo de A Fronteira do Amanhecer, de Philippe Garrel, no qual Louis Garrel também fazia um fotógrafo. O filme de Oliveira é melhor.

É melhor inclusive porque possui grande riqueza - de estilo, certo, mas principalmente, de temas. Angélica discute carnalidade versus espiritualidade - e Ana Maria Magalhães entra em cena justamente como uma engenheira que fala sobre a antimatéria. O tempo todo, Oliveira fica falando também da modernidade versus tradição. E já que boa parte da trama trata de espírito - e espíritos que voam -, é curioso como há um contraponto muito forte com a terra, o solo. O herói quer voar nos seus delírios de imaginação, mas segue, com a câmera, o sulco que um trator cava na terra.

Um confronto. Nada como o princípio da incerteza para animar a vida (a morte é que é certeza). Oliveira trabalha sempre com a noção de anticlímax. Belle Toujours é a prova. O filme é menos uma sequência de A Bela da Tarde do que um confronto do filme antigo com seus mistérios. Michel Piccoli reencontra Sévérine (agora Bulle Ogier), 38 anos mais tarde. Ela está viúva, tenta evitá-lo e o homem, persuasivo, lhe promete revelar um segredo - não propriamente o da caixinha do japonês, no cult de Buñuel, mas o que teria dito ao marido da "bela da tarde", antes que ele morresse.

De novo a incerteza. E mais. Ao longo de sua carreira, Oliveira várias vezes dialogou com o cinema de Buñuel. Existem parentescos entre A Caça e Los Olvidados, entre Passado e Presente e O Discreto Charme da Burguesia (feitos no mesmo ano, 1972); e Meu Caso, Os Canibais, A Caixa e Party remetem a obsessões sacrílegas que também intrigavam o mestre aragonês. Belle Toujours pode não ser para todos os gostos, mas é um regalo para quem se dispuser a verificar como um grande autor (Buñuel) pode inspirar outro (Oliveira). Para cinéfilos, é como uma festa de cinema.

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