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Manifesto contra o pop impessoal

Daft Punk lança 'Random Access', ode, com alta fidelidade e glamour disco, às qualidades orgânicas da música de pista

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h09

O tamanho da expectativa em torno de um lançamento do Daft Punk confere à dupla uma posição presidencial no mainstream da música de pista. Não são apenas hitmakers. Comandam um eleitorado atento, conectado e disposto a achar espaço em seu restrito gosto musical para o tipo de finesse pop que Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo praticam em Random Access Memories, o quarto e novo álbum da dupla, disseminado pela internet nesta segunda-feira.

"A dance music atual está na zona de conforto. Não tem caminhado um palmo", disse Bangalter no mês passado, à Rolling Stone, em meio aos teasers que aqueciam a frenética espera pelo disco. Eis que surge Random Access, um manifesto contra o pop impessoal e robotizado, de cliques milionários, que assistimos no YouTube, feito por dois robôs que ajudaram a criá-lo, portanto tem força para subvertê-lo. Random Access caminha na contramão através do convencional. Suas 13 faixas são uma elegante ode, com alta fidelidade e glamour disco, às qualidades orgânicas da música de pista - as guitarras, baterias e pianos que foram trocadas por máquinas durante a evolução do gênero, e tendem a ser caretas quando usadas de forma crua.

Mas na mão do Daft Punk, o careta é descolado. Vide o papel que o heroico Nile Rodgers tem nas faixas de Random Access. Sua guitarra, um som definitivo da disco music, recria Chic e Sister Sledge com uma pureza indescritível, feita possível através da visão do duo.

Nas duas primeiras faixas, Give Life Back to Music (cujo título resume a proposta de Random Access) e The Game of Love, protagonizam uma viagem sensorial por timbres cristalinos. O tilintar de um prato, um piano elétrico que aquece os instrumentos ao seu redor. Estas são as estrelas de faixas que não têm melodias ou refrões memoráveis, talvez propositalmente. Vão contra a ética do hit fácil e aguçam o paladar auditivo ao dar forma a um disco que pulsa com mais vida do que estamos acostumados a ouvir. Assim como em Giorgio, By Moroder, uma parceria com o messiânico produtor de I Feel Love, desafiam a atenção fragmentada do público para compor um trabalho que precisa ser mastigado para ser apreciado.

Random Access tem rock soft e progressivo em quantidades. Os detalhes são refinadíssimos. Um belíssimo arranjo de cordas em Giorgio, By Moroder, um piano sincero, quase Broadway, em Within. Lose Yourself to Dance arde branda e cresce em meio a uma polifonia de vozes sintéticas. Os hits chegam lá por meados do trabalho, com Get Lucky em um contexto muito mais agradável do que o single. Culminam em Doin It Right, com participação do Panda Bear, a melhor melodia e, curiosamente, a única música inteiramente sintética de Random Access.

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