Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Mania de grandeza

Saldo dos três dias de festival nos campos de Itu: 150 mil pessoas, 700 artistas e dez convites para levar o SWU a outros países. Tudo está perfeito? Não, concorda o próprio mentor Eduardo Fischer

JOTABÊ MEDEIROS, ROBERTO NASCIMENTO, BRUNO SALVAGNO, LUCAS NOBILE E FRED LEAL, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

O empresário Eduardo Fischer, mentor do festival SWU, fez questão de ir de calça branca para falar com os repórteres na tarde de ontem, último dia do evento SWU, em Itu. "Eu vim de branco hoje para dizer a vocês: cadê a lama?"

 

Leia cobertura completo no blog Estadão no SWU

O bom humor de Fischer tinha razões. Eis os números que apresentou de sua empreitada megalomaníaca de três dias no meio do mato: 150 mil ingressos vendidos; 800 ônibus; 600 mil refeições; 600 mil latas de cerveja e 700 artistas. E um último detalhe que o deixa eufórico: dez convites de outros países para levar o SWU ao exterior.

Sobre os problemas das enormes filas no banheiro dos acampamentos, Fischer reconheceu: "Vamos ter muito mais chuveiros da próxima vez."

PIXIES. Foi como se um sacerdote pagão rezasse uma missa negra, só que em ritmo de frenético rock"n"roll. O show do Pixies no SWU, na noite de ontem, foi impecável. Som perfeito, sincronia perfeita dos músicos (Frank Black, vocal e guitarra, e Kim Deal, baixo, até sorriram um para o outro), um lote inatacável de canções - foi um dos grandes destaques de um festival que primou pela qualidade musical, como há muito não se via.

Ao abrir a noite, às 23 horas, com Bone Machines, Frank Black, ou Black Francis, parecia evidenciar aquela velha máxima do mundo artístico: há momentos históricos irrepetíveis que geram coisas influentes, perfeitas, acima dos padrões. É o caso dos Pixies. O show pegou fogo com Debaser, a primeira faixa do seu álbum clássico Doolittle, de 1989, que deu régua e compasso para todo o rock seguinte, principalmente o grunge. A banda não é de outro planeta, é um combo clássico de duas guitarras, baixo, bateria e voz, mas o que sai dali nunca poderia ser chamado de som ordinário.

Os berros lancinantes de Frank Black pela noite bucólica pareciam realinhar os ventos, a lua com seu sorriso do gato de Alice. Kim Deal ensaiou um português diplomático. "Obrigado. É a primeira vez no Brasil." Não era a primeira vez, já estiveram aqui antes, na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba. Mas o deslize não turva a importância dessa nova visita. É uma banda fundadora, originadora (como diria Little Richard).

O velho rock vibra de forma sombria e ao mesmo tempo eufórica na revisão dos Pixies, como em Here Come''s Your Man, o primeiro grande hit a balançar o pasto da Fazenda Maeda. Não há pausas, não há intervalos para respirar. Os Pixies estão na área, e a coisa vai esquentar.

QOSA. A apresentação do Queens of the Stone Age sofreu um atraso de 50 minutos para começar. O Estado apurou que a decisão de adiar o show foi da produção, para que uma grade de segurança próxima à área premium fosse consertada.

O Queens subiu ao palco dando uma geral na carreira. A banda de Josh Homme, de formação sempre mutante, teve tempo para emplacar mais uma série de hits - entre eles, o que viria a se tornar o maior de todos: No One Knows, cantado a plenos pulmões pela plateia.

Satisfeito com a recepção, Homme, não poupou elogios ao país, afirmando que "estavam todos esperando há muito por isso."

YO LA TENGO.Em uma tarde que antecipava bandas de heavy metal, os veteranos do Yo La Tengo deram uma aula soberana de rock moderno que passou longe do gosto da plateia. Pérolas aos muitos que gritavam "Cavalera", "Avenged Sevenfold" e "vai tomar no c.", enquanto a banda tocava suas melodias intimistas sob véus contagiantes de distorção, num show que estará entre os melhores do festival.

CAVALERA. O fim da tarde de ontem recebeu a maior porrada sonora que o SWU poderia esperar a tal hora do dia. Com um show de uma hora, os irmãos Max e Igor, oriundos do Sepultura, causaram um vendaval no interior de São Paulo.

No meio de tanto bate-cabeça na plateia, a primeira metade do show foi marcada por uma chuva de fanáticos juvenis que eram socorridos pelos bombeiros e levados para o posto médico desmaiados entre a pista comum e a premium. Ainda no início do show, um fã tentou pular de uma área para outra e foi retirado.

CSS. O show do Cansei de Ser Sexy foi um acontecimento. A banda brasileira, que ganhou muita notoriedade no exterior, parecia gringa mesmo. No grosso do repertório, as letras em português foram minoria. Independente do idioma, a apresentação do grupo foi uma das mais lotadas do Palco Oi Novo Som, na noite de ontem.

Além de mostrar um dos sons mais pegados do festival entre as atrações nacionais e internacionais, passeando por sua discografia, o Cansei de Ser Sexy justificou sua fama no exterior também pelo carisma e pela irreverência de sua vocalista Luísa Loverfoxxx. Incendiando a plateia, ela jogou uma camisinha no público - que havia sido atirada no palco -, disse que estava curiosa por saber quem morrerá na novela Passione , prometeu a volta da banda ao País no próximo ano, com disco novo, e levantou a camiseta, exibindo o sutiã preto por duas vezes ao encerramento do show.

Mombojó. Antes de soarem os primeiros acordes, a plateia que lotava o palco Oi parecia tímida e desinteressada, com a grande maioria sentada no chão. Tudo mudou quando o Mombojó subiu ao palco. Apesar do pouco tempo disponível, fez o melhor de sua quase uma hora no palco Oi Novo Som: desde a abertura com Faca até o encerramento com Deixe-se Acreditar, a banda pernambucana enfileirou canções que se tornaram sucesso no rock alternativo.

O grupo transpira segurança. Como músicos, seus integrantes nunca deixaram de evoluir, e como grupo de amigos, enfrentaram grandes mudanças na formação da banda que refletiram diretamente nos arranjos.

Pesado, o show do Mombojó não dá espaço para que a plateia desgrude os olhos do palco. Com riffs quase metaleiros intercalados por jams psicodélicas, a banda equilibra bateção de cabeça com texturas alucinógenas, garantindo a fluidez de seu repertório.

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