Mania de explicação

Eu sempre gostei muito de teatro. Hoje em dia, por ser a minha profissão e a minha vida, gosto ainda mais. Sou daqueles que sentam na primeira fila com um sorriso de orelha a orelha ansioso pelo que vai acontecer. E é tão bom quando a peça é boa, porque ela te toca de uma forma muito profunda. Mais do que um filme ou um livro, o teatro acontece ali, de verdade, na sua frente, ao vivo. Acho que isso nenhuma outra arte pode proporcionar.

Fábio Porchat , O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2014 | 02h06

Nas artes plásticas, você também tem a obra física, digamos assim, na sua frente, mas ali já é o resultado final. No teatro você acompanha a arte acontecendo diante dos seus olhos.

Agora, por outro lado, quando o teatro é ruim, e isso acontece em 80% dos casos, aí é muito ruim. Teatro ruim talvez seja a pior coisa do mundo. Repare, se você vai ao cinema e assiste a um filme horrível, você sai até meio rindo de quão ruim era aquele filme. Quando a peça de teatro é péssima, você sai do teatro amaldiçoando a instituição teatro. Diz que nunca mais vai voltar ao teatro novamente. O teatro mexe com as suas emoções de forma arrasadora. Pro bem ou pro mal.

Quando eu era criança, minha mãe sempre me levava para assistir a peças infantis. Eu adorava. Minha preferida era Pluft, o Fantasminha, uma obra-prima de Maria Clara Machado. Claro que, com pouca idade, não conseguia dizer se as peças que eu assistia eram boas ou ruins. Provavelmente, eram muito ruins, porque teatro infantil é, na sua maioria esmagadora, pavoroso. Atores péssimos, figurinos tristes, cenário deprimente e tudo feito de forma mambembe. Claro que há exceções, mas de um modo geral, os atores tratam as crianças como se elas fossem imbecis e os pais se sentem idiotas de estarem ali vendo um caça-níquel qualquer do tipo: O Casamento da Dona Baratinha com o Peter Pan.

Domingo passado, fui ao teatro Frei Caneca assistir a uma montagem infantil baseada no livro Mania de Explicação, da Adriana Falcão. Nunca tinha lido o livro e fui esperando uma boa peça porque, afinal, a direção é do Gabriel Villela e a peça é produção da Luana Piovani, que sempre montou infantis ótimos. Pra quem estava com a expectativa lá no alto, fiquei surpreso ao constatar que a peça era muito mais legal do que tinha imaginado. Tudo é lindo, os figurinos, os cenários, a forma com que a história é contada, tudo. Os atores são ótimos e tratam as crianças como pessoas e não pequenos idiotas, falando superbem um texto muito bonito, divertido, esperto e que faz todo mundo pensar. Os adultos e as crianças. Às vezes, eu me perguntava se os pequenos estavam entendendo a peça, que tem um quê de complexa. Claro que estavam e se não estivessem, que botassem suas cacholinhas pra funcionar.

Eu prefiro uma criança interessada em entender o que aquilo ali quer dizer do que uma criança gritando que o lobo mau está ali atrás! E tudo isso embalado pelas músicas do Raul Seixas! É imperdível. Se você tem filho, corra para ver Mania de Explicação e se prepare prum "papinho-cabecinha" com ele logo depois! Divirta-se.

Mais conteúdo sobre:
Fábio Porchat Teatro Humor

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.